MULHERES
03/02/2020 15:11 -03 | Atualizado 04/02/2020 17:47 -03

Julgamento de Weinstein revive #MeToo, uma hashtag que prova a longevidade do movimento

O termo atingiu o pico novamente com o julgamento de Weinstein. A hashtag teve 274.000 menções nas redes sociais e sites de notícias entre 1 e 23 de janeiro.

O julgamento de Harvey Weinstein começou em janeiro e, desde então, contou com aparições de celebridades, protestos barulhentos e novos relatos de abuso sexuais contra o ex-magnata de Hollywood - e, como consequência, houve um aumento no uso da hashtag #MeToo, termo que se tornou intimamente associada às denúncias contra o ex-produtor de cinema.

Mais de dois anos depois que as acusações contra Weinstein foram publicadas e alimentaram o uso das rede sociais, milhares de mulheres continuam a usá-la para compartilhar experiências e debater assédio sexual. “Isso diz muito sobre o poder de permanência e da longevidade do movimento #MeToo”, disse Kellan Terry, da empresa de pesquisas Brandwatch.

A empresa descobriu que a hashtag foi vista 42 bilhões de vezes e foi mencionada 4 milhões de vezes em 2019 nas redes e em sites de notícias.

O julgamento, que teve início no dia 6 de janeiro, acontece mais de dois anos após a explosão do escândalo que resultou no movimento de mulheres entitulado #MeToo (Eu também, em tradução para o português). Denúncias expuseram dezenas de crimes sexuais não só de Weinstein, mas de outros poderosos e mudou a forma como o assédio é entendido no universo do entretenimento ― e no mundo do trabalho.

À época, mais de 80 mulheres, incluindo atrizes consagradas como Angelina Jolie, Mira Sorvino, Asia Argento e Gwyneth Paltrow, denunciaram o ex-produtor por assédio, agressão sexual, e estupro. O caso veio à tona em outubro de 2017 quando reportagens publicadas no jornal “The New York Times” e na revista “The New Yorker”, denunciaram o escândalo sexual.

ASSOCIATED PRESS
Harvey Weinstein chega ao tribunal por acusações de estupro e agressão sexual.

Mesmo com a gravidade e proporção do caso, Weinstein será julgado apenas por dois casos mais recentes ― considerando que os demais crimes, cometidos entre os anos 80 e 90, já prescreveram. A sentença, que pode chegar a 20 anos de prisão ou até a prisão perpétua, pode demorar cerca de dois meses para ser dada.

Mimi Haleyi, ex-assistente de produção de Weinstein, alega que, em julho de 2006, o fundador da Miramax fez sexo oral nela sem seu consentimento. A segunda vítima, que não teve sua identidade revelada, alega que, em março de 2013, foi estuprada pelo ex-produtor em um quarto de hotel em Nova York. 

Embora a ativista Tarana Burke tenha começado a usar o termo “Me Too” muito antes, em 2006, para aumentar a conscientização sobre assédio sexual, ela se tornou viral nos dias seguintes às denúncias de Weinstein pela primeira vez em outubro de 2017.

A atriz Alyssa Milano escreveu em seu Twitter em 15 de outubro daquele ano: “Se você foi assediado sexualmente ou agredido, escreva ‘eu também’ como resposta a este tweet”. 

Uma semana antes do tuíte de Milano, o #MeToo havia sido mencionado 312 vezes nas redes sociais e em sites de notícias, de acordo com a empresa de pesquisa Meltwater. Na semana seguinte, subiu para 1,4 milhão.

Após as denúncias, houve um período em que o uso da #MeToo caiu e as hashtags gerais como #Funny e #TBT, que sempre foram amplamente usadas, chegaram a ficar entre as mais compartilhadas, segundo a Brandwatch. Ainda assim, o #MeToo costuma figurar ocasionalmente entre as principais hashtags com mais de 30.000 menções por dia, de acordo com o relatório da empresa.

O termo atingiu o pico novamente com o julgamento de Weinstein. A hashtag teve 274.000 menções nas redes sociais e sites de notícias entre os dias 1 e 23 de janeiro, de acordo com a Meltwater. Em comparação, a hashtag #Soleimani foi mencionada 153.000 vezes no mesmo período ― após o assassinato do major-general iraniano Qasem Soleimani pelo governo norte-americano.

O uso aleatório do #MeToo por empresas

Spencer Platt via Getty Images
Manifestantes protestam na Suprema Corte de Nova York durante sessão do julgamento de Harvey Weinstein, em janeiro. "Escute as sobreviventes", diz cartaz.

Porém, mesmo antes da explosão do movimento, é sabido que foram feitas tentativas de cooptar a frase ou receber dinheiro com seu uso.

A Gillette da Procter & Gamble Co lançou o anúncio #TheBestMenCanBe há um ano que combinava menções ao #MeToo com uma mensagem anti-bullying e imagens de homens bem-arrumados.

Um enólogo, uma empresa de cosméticos e um escritório de advocacia estavam entre as empresas que solicitaram uma marca comercial #MeToo. Algumas empresas estavam usando a frase antes do tuíte viral de Milano.

Adam Tucker, presidente da “Me Too Shoes”, fundada em 1996, disse que os clientes pediram que a empresa mantivesse seu nome e, depois que hashtag decolou, a empresa se comprometeu a doar uma parte das vendas para uma entidade sem fins lucrativos que promove a não-violência. 

Derek Nelson, 22, de Nova York, estava desenvolvendo seu aplicativo de rede social para estudantes universitários quando as alegações de Weinstein deram ao nome um novo significado. Ele batizaria o projeto de “Me Too”. 

Ele disse que não foi exatamente um benefício. Alguns alunos parecem surpresos ao saber de um movimento com o mesmo nome e perguntam se ele já ouviu falar.