MULHERES
04/02/2020 17:53 -03 | Atualizado 14/02/2020 13:29 -03

O depoimento que pode mudar os rumos do julgamento de Harvey Weinsten

A atriz Jessica Mann teve um ataque de pânico após ser interrogada durante cinco horas por advogada do ex-magnata de Hollywood.

ASSOCIATED PRESS
Weinstein, que produziu filmes como O Paciente Inglês e Shakespeare Apaixonado, nega ter feito sexo sem consentimento. Ele é acusado por mais de 80 mulheres.

O julgamento de Harvey Weinstein em Nova York foi interrompido mais cedo na última segunda-feira (3) depois que Jessica Mann, uma das duas autoras das denúncias das quais o produtor se defende neste caso, teve um ataque de pânico enquanto testemunhava.

Uma advogada de Weinstein interrogou agressivamente durante cerca de cinco horas a ex-aspirante a atriz que disse ter sido estuprada por seu cliente, perguntando se ela teve um relacionamento com ele para progredir na carreira.

Mann, de 34 anos, prestou depoimento dizendo que Weinstein a estuprou em um quarto de hotel de Manhattan em março de 2013. Ela ainda afirmou que manteve algum tipo de relacionamento com ele durante anos após esse episódio que, segundo ela, foi classificado como “extremamente degradante”.

Uma das advogadas de Weinstein, Donna Rotunno, pressionou Mann a respeito de sua relação com o acusado, buscando resposta que possa mudar os rumos do julgamento. “Você nos contou que estava disposta a dormir com Harvey Weinstein porque não queria que ele arruinasse sua carreira de atriz, está correto?”, questionou Rotunno.

Eduardo Munoz Alvarez via Getty Images
Jessica Mann (centro) na saída da Suprema Corte de Nova York, em Manhattan, após testemunhar contra o produtor de cinema Harvey Weinstein.

“Eu não queria que ele prejudicasse minha carreira de atriz”, respondeu Mann. Mas, replicou Rotunno, “você não tinha uma carreira para prejudicar”. “Eu estava construindo uma”, disse Mann.

Weinstein, que produziu filmes como O Paciente Inglês e Shakespeare Apaixonado, nega ter feito sexo sem consentimento.

O julgamento, que teve início no dia 6 de janeiro, acontece mais de dois anos após a explosão do escândalo que resultou no movimento de mulheres entitulado #MeToo (Eu também, em tradução para o português). Denúncias expuseram dezenas de crimes sexuais não só de Weinstein, mas de outros poderosos e mudou a forma como o assédio é entendido no universo do entretenimento ― e no mundo do trabalho.

À época, mais de 80 mulheres, incluindo atrizes consagradas como Angelina Jolie, Mira Sorvino, Asia Argento e Gwyneth Paltrow, denunciaram o ex-produtor por assédio, agressão sexual, e estupro. O caso veio à tona em outubro de 2017 quando reportagens publicadas no jornal “The New York Times” e na revista “The New Yorker”, denunciaram o escândalo sexual.

Mesmo com a gravidade e proporção do caso, Weinstein será julgado apenas por dois casos mais recentes ― considerando que os demais crimes, cometidos entre os anos 80 e 90, já prescreveram. A sentença, que pode chegar a 20 anos de prisão ou até a prisão perpétua, pode demorar cerca de dois meses para ser dada.

Mimi Haleyi, ex-assistente de produção de Weinstein, alega que, em julho de 2006, o fundador da Miramax fez sexo oral nela sem seu consentimento. A segunda vítima é Jessica Mann. Ela alega que, em março de 2013, foi estuprada pelo ex-produtor em um quarto de hotel em Nova York. 

O julgamento é amplamente visto como um marco do movimento #MeToo, por meio do qual mulheres acusaram homens poderosos do empresariado, da indústria do entretenimento, da mídia e da política de má conduta sexual.