MULHERES
01/07/2020 16:43 -03

Procuradoria de NY anuncia acordo de US$19 mi em ações contra Harvey Weinstein

Profissionais que acusam o cineasta receberão US$ 19 milhões, mas ação pode inibir vítimas de seguirem com processos contra o ex-produtor.

Mulheres que sofreram assédio e agressão sexual quando trabalhavam para o ex-magnata de Hollywood, Harvey Weinstein, condenado por estupro e agressão sexual em fevereiro deste ano, receberão quase US$ 19 milhões (equivalente a R$ 101,9 milhões) após acordo realizado em ação coletiva.

Os pagamentos, que devem ser aprovados por dois tribunais, são o resultado de uma ação apresentada contra o ex-produtor de cinema em 2018 e o estúdio The Weinstein Company. Atualmente, Weinstein cumpre pena de 23 anos. 

“Harvey Weinstein e The Weinstein Company falharam com suas funcionárias. Depois de todo o assédio, ameaças, discriminação e discriminação de gênero, estas sobreviventes finalmente receberão algo de justiça”, afirmou a procuradora-geral do estado de Nova York, Letitia James, em comunicado.

A decisão também encerraria um processo separado desta ação coletiva, instaurado em 2017, em nome de nove mulheres que acusaram Weinstein de assédio ou abuso sexual, disse a procuradora-geral de NY.

Segundo James, o acordo libertaria as mulheres de contratos de não divulgação que as impediam de falar publicamente sobre o ex-magnata da indústria cinematográfica.

O processo estabelece que Weinstein “forçou funcionárias a estabelecerem contatos sexuais não desejados para manter seus empregos ou avançar em suas carreiras”. 

Mas advogados que representam seis, das nove mulheres que acusaram  Weinstein, classificam o acordo como uma “completa venda” que não exigiu que o ex-produtor de cinema assumisse a responsabilidade por seus atos e que terá que pagar do seu próprio bolso o acordo.

Douglas Wigdor e Kevin Mintzer disseram que o acordo é “profundamente injusto” para suas clientes e outras mulheres que não teriam o direito de dar continuidade às ações contra Weinstein e outras pessoas no tribunal.

“Estamos completamente surpresos que a procuradora-geral esteja comemorando essa proposta injusta e desigual e, em nome de nossas clientes, vamos contestando com veemência no tribunal”, disseram em comunicado.

Weinstein, que foi acusado por mais de 100 mulheres de violações cometidas há décadas, ainda enfrenta ações por estupro e abuso sexual em Los Angeles.

Desfecho do caso Harvey Weinstein é considerado histórico

Scott Heins via Getty Images
Mesmo com a gravidade e proporção do caso, Weinstein é julgado apenas por cinco casos mais recentes ― considerando que os demais, cometidos entre os anos 80 e 90, já prescreveram.

Em 2017, as denúncias contra Weinstein cresceram e o movimento ganhou força. A hashtag #MeToo ganhou proporção para que outras mulheres, não só de Hollywood, mas do mundo, pudessem falar sobre os casos de assédio que já viveram ou presenciaram. Assim, a tag se tornou símbolo de uma luta.

Conforme as denúncias se tornavam públicas à época, Weinstein fez inúmeras tentativas para silenciar alguns casos e desmoralizar a imprensa. Para isso, contratou investigadores particulares para desenterrar informações sobre as mulheres e os jornalistas que escreviam sobre os crimes que cometeu.

Logo no início de 2018, repórteres do Times e da New Yorker, Jodi Kantor, Megan Twohey e Ronan Farrow, respectivamente, receberam o Prêmio Pulitzer pelo serviço público prestado à sociedade com o trabalho realizado.

Enquanto Weinstein foi demitido da produtora que ele mesmo havia ajudado fundar, a “The Weinstein Company”, e também foi expulso de organizações renomadas do universo cinematográfico norte-americano como a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, responsável pelo Oscar, o Producers Guild of America e da Academy of Television Arts and Sciences.

Indiciado por estupro e abuso sexual em maio de 2018, o magnata foi preso, mas cumpre prisão domiciliar e faz uso de tornozeleira eletrônica.

Weinstein foi condenado a 23 anos de prisão em março, por agressão sexual e estupro. O caso, que foi a júri popular, foi considerado uma vitória para o Me Too.