MULHERES
11/03/2020 13:03 -03 | Atualizado 11/03/2020 13:17 -03

Harvey Weinstein é condenado a 23 anos de prisão por crimes sexuais

A sentença foi dada na corte penal estadual de Manhattan e é o desfecho de um julgamento emblemático para o #MeToo.

ASSOCIATED PRESS
Harvey Weinstein arrives at a Manhattan court as jury deliberations continue in his rape trial, Friday, Feb. 21, 2020 in New York. (AP Photo/Mark Lennihan)

O ex-produtor de cinema Harvey Weinstein foi condenado a 23 anos de prisão nesta quarta-feira (11), por agressão sexual e estupro. No final de fevereiro o caso, que foi a júri popular, foi considerado uma vitória para o Me Too.

A sentença foi proferida nesta manhã no tribunal criminal de Manhattan pelo juiz James Burke, que presidiu o julgamento de Weinstein.

Um júri considerou Weinstein, de 67 anos, culpado de agredir sexualmente a ex-assistente de produção Mimi Haleyi e de estuprar a ex-aspirante a atriz Jessica Mann.

Outrora um dos produtores mais influentes de Hollywood, Weinstein enfrentava a possibilidade de uma sentença máxima de 29 anos de prisão.

O júri de sete homens e cinco mulheres absolveu Weinstein das acusações mais graves, uma acusação de estupro em primeiro grau e duas acusações de agressão sexual predatória, com uma possível sentença de prisão perpétua. Essas acusações foram baseadas em depoimentos da atriz Annabella Sciorra, que disse que Weinstein a estuprou no início dos anos 1990.

O caso que desencadeou o #MeToo

TIMOTHY A. CLARY via Getty Images

Weinstein era famoso por conseguir emplacar filmes não tão aclamados no Oscar, como O Paciente Inglês e Shakespeare Apaixonado. Mas mais de 80 mulheres, incluindo atrizes famosas, vieram a público para o acusar de má conduta sexual ao longo das décadas em que trabalhou no mundo do cinema. Ele negou as acusações e disse que os encontros sexuais foram consensuais.

Após o julgamento no dia 24 de fevereiro, algumas das vítimas de Weinstein escreveram um manifesto sobre o resultado. “Embora seja decepcionante que o resultado de hoje não ofereça a verdadeira e plena justiça que tantas mulheres merecem, Harvey Weinstein será agora conhecido para sempre como um predador em série condenado”, diz o texto.

“Essa convicção não seria possível sem o testemunho das mulheres corajosas e de tantas outras que se manifestaram. Apesar da intimidação da equipe jurídica de Weinstein, elas tornaram públicas suas histórias corajosamente. Esse processo teve defeitos desde o início do julgamento, mas expôs ainda mais as dificuldades que as mulheres enfrentam em apresentar a verdade sobre agressores poderosos. A nossa coragem será para sempre lembrada na história. Nossa luta está longe de terminar”, acrescentam. 

Paul Callan, ex-promotor de Nova York que não está envolvido no caso, disse que Weinstein tinha fortes argumentos para que o veredicto fosse revogado, observando que um dos jurados estava escrevendo livro sobre meninas adolescentes e homens mais velhos “predadores”.

“Um predador em série”

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Harvey Weinstein arrives at a Manhattan courthouse for jury deliberations in his rape trial, Monday, Feb. 24, 2020, in New York (AP Photo/Seth Wenig)

Durante o julgamento, os promotores descreveram Weinstein como um predador em série que manipulou mulheres com promessas de abrir portas em Hollywood, persuadindo-as a acompanhá-lo para quartos de hotel ou apartamentos privados e depois dominando-as e atacando-as violentamente.

“O homem sentado ali não era apenas um titã em Hollywood, ele era um estuprador”, disse o promotor assistente de Manhattan Meghan Hast durante as discussões iniciais.

Sentado com seus advogados de defesa, Weinstein costumava parecer impassível, embora às vezes olhasse atentamente para seus advogados quando eles interrogavam seus acusadores.

O ex-produtor é alvo de processos desde outubro de 2017, quando uma série de notícias e investigações foram publicadas no New York Times e no The New Yorker.

As reportagens detalhavam algumas das séries de acusações contra o produtor, que partiram de depoimentos de artistas como Ásia Argento, Rose McGowan, Gwyneth Paltrow e Lupita Nyong’o acusando-o de abuso sexual.

Porém, a maioria dessas acusações foram impedidas de se tornarem ações legais. O cenário mudou em janeiro deste ano, quando o julgamento iniciado pelas artistas Haleyi e Mann ganhou fôlego.

Haleyi disse que conheceu Weinstein na estréia de um filme e depois o abordou em busca de trabalho; ele lhe deu um emprego na The Weinstein Company, sua agora extinta produtora, e ela passou a fazer parte da equipe do reality show “Project Runway”.

Pouco antes de uma viagem em julho de 2006 para Los Angeles, paga pela empresa de Weinstein, ele a agrediu. Ele a convidou para sua casa em Manhattan, retirou um absorvente do corpo e fez sexo oral à força, disse ela.

Sete anos depois, Weinstein estuprou Mann.

Em seu depoimento ao júri, ela disse que ainda era relativamente nova em Hollywood quando conheceu Weinstein em uma festa em Los Angeles. Durante uma reunião inicial, Mann acabou fazendo uma massagem em Weinstein, para que “ele não tivesse que tocá-la”, disse o promotor Meghan Hast aos jurados.

O produtor então alterou os papéis de um dos filmes que produzia para manter Mann sob o seu controle. Em março de 2013, depois que ela o convidou para uma reunião de café da manhã em um hotel onde ela estava hospedada - um Doubletree no centro de Manhattan - ele supostamente subiu ao quarto dela, injetou um medicamento para ereção e a estuprou.

As duas mulheres afirmaram que continuaram a manter contato com o produtor após os episódios por causa de suas carreiras.

 

A experiência vivida por Mann foi particularmente desafiadora para os promotores entenderem, porque o seu relacionamento com Weinstein incluía algum sexo consensual, o que pode tornar mais difícil provar uma acusação de estupro em um ambiente tradicional de tribunal.

Segundo Joan Illuzzi-Orbon, um dos promotores, o contato de Weinstein com as vítimas serviam como uma maneira de manter o controle sobre elas, “para que elas não saíssem do silêncio e o chamassem exatamente do que ele era: um estuprador abusivo”.

“Ele estava errado”, disse Illuzzi-Orbon em seu argumento final.

Os advogados de Weinstein, por outro lado, tentaram pintar Haleyi e Mann como mentirosas e não confiáveis.

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