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06/07/2020 03:00 -03 | Atualizado 06/07/2020 14:15 -03

'Precisamos de liberdade científica. Não ficar só importando', diz pesquisador de vacina para covid-19

Nascido no sertão baiano, Gustavo Cabral concluiu o ensino médio aos 22 anos, fez pós-doutorado em Oxford e voltou para desenvolver vacina no Brasil.

O biólogo baiano Gustavo Cabral voltou recentemente do Reino Unido para o Brasil com uma missão: desenvolver uma vacina nacional contra o novo coronavírus. O pesquisador, que teve como última “casa” a Universidade de Oxford, diz considerar importantes as “conexões” com instituições internacionais para produção de vacinas, contanto que isso não atrapalhe o desenvolvimento científico do Brasil. 

“A gente precisa de certa liberdade científica. Não ficar apenas importando o tempo inteiro e ficar sempre na dependência do exterior”, disse Cabral, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Hoje à frente de uma pesquisa financiada pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) para desenvolver uma vacina brasileira contra a covid-19, o imunologista teve sua trajetória iniciada no sertão baiano, onde se formou no ensino médio aos 22 anos. Após a graduação em biologia, um mestrado e um doutorado em imunologia, o pesquisador fez pós-doutorado em Oxford, instituição que coordena a iniciativa mais avançada até o momento para imunização contra o SARS-COV-2. 

Cabral trabalha com uma tecnologia chamada VLPs [da sigla em inglês Virus Like Particles]. É uma plataforma distinta da adotada pela universidade britânica, que usa uma versão enfraquecida do vírus que causa o resfriado comum (adenovírus), contendo o material genético da proteína spike do SARS-CoV-2. 

A plataforma VLP é um tipo de “Cavalo de Tróia”. “A gente pega apenas uma parte, o perímetro estrutural do vírus, e faz com que ele pareça toda a estrutura de proteína do vírus, para que, quando ele entre no corpo, o sistema imunológico reconheça e ataque. Naquele VLP a gente coloca um pedaço do vírus que a gente sabe que não vai induzir nenhum efeito colateral e faz com que o corpo responda só àquele ponto específico de cada vírus que a gente quer desenvolver a vacina”, explica o imunologista.

Essa técnica é usada para vacinas contra hepatite B e HPV, por exemplo. “A questão de tentar trazer essa tecnologia de VLP para cá é por segurança e eficiência. Elas são extremamente eficientes. A ideia é tentar trazer tecnologias novas para dar mais opções e segurança. São tecnologias que são necessárias a gente investir aqui”, afirma o pesquisador.

A previsão é que testes clínicos sejam feitos no próximo ano. Cabral explica que, primeiro, são feitos testes em animais – e o que tiver melhor resultado, vai para a experimentação in vitro. Esta é a fase que deve ser completada este ano. “Para que a gente escolha esse ano a melhor formulação, mais segura, para, no ano que vem a gente propor um estudo em seres humanos. Em outros países, com estrutura de estudo anterior, estabilidade, há uma resposta maior. No nosso caso, a gente não pula etapas”, explica.

A escolha de como uma vacina é feita envolve diversos fatores além do critérios puramente científicos, especialmente no caso das farmacêuticas. “Não necessariamente é a melhor estratégia, mas sim o que você obtém, além da patente, além do estrutural, por exemplo, para produzir em larga escala, as pessoas envolvidas. Por exemplo, essa metodologia com a qual eu estou trabalhando já poderia ter sido trabalhada antes, mas precisava de alguém com essa expertise. As empresas giram em torno disso: ter uma metodologia boa, produzir uma estrutura e desenvolver a vacina, mas não necessariamente a melhor”, afirma Cabral.

Arquivo Pessoal
Nascido no sertão baiano, Gustavo Cabral concluiu o ensino médio aos 22 anos, fez pós-doutorado em Oxford e voltou para desenvolver vacina no Brasil.

O acordo do Brasil na vacina de Oxford

A compatibilidade nas plataformas usadas é um dos argumentos de instituições públicas brasileiras para defender parcerias com duas iniciativas estrangeiras. No último dia 27, o Ministério da Saúde anunciou um acordo de cooperação com a farmacêutica britânica AstraZeneca para o desenvolvimento e produção da vacina da Universidade de Oxford. Os testes clínicos com brasileiros já foram iniciados.

O acordo prevê tanto a compra do ingrediente farmacêutico ativo (IFA), quanto a transferência de tecnologia para que etapas da produção possam ser feitas em território nacional, pelo Instituto Bio-Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Em entrevista ao HuffPost Brasil, o diretor do instituto, Maurício Zuma, afirmou que o Brasil têm plataformas semelhantes “que facilitariam a implantação da produção num tempo menor”.

Uma primeira etapa do acordo, com custo de US$ 127 milhões, prevê a produção de 30,4 milhões de doses, divididas em dois lotes: um em dezembro de 2020 e outro em janeiro de 2021. Se a vacina for considerada segura e eficaz, serão produzidas mais 70 milhões de doses, com custo de US$ 2,30 por unidade. 

O Instituto Butantan, por sua vez, fechou uma parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac Biotec, para desenvolvimento de uma vacina que usa ao vírus inativado. A previsão é que 9 mil pessoas participem de um ensaio clínico que será iniciado neste mês.

Por que ter uma vacina brasileira?

Na avaliação de Cabral, as duas iniciativas são estratégias muito boas, mas é importante que o Brasil não deixe de lado investimentos na produção de tecnologias próprias.

”É importante ter essas plataformas novas que o mundo tem investido para que a gente possa desenvolver nossas vacinas aqui para covid, zika, chikungunya, dengue. A gente tem de trazer para pertencer a nós. Não ficar dependendo exclusivamente de fora. Essa junção é de extrema importância. Trabalhar as colaborações, mas não esquecer as coisas no Brasil. Eu vim para isso”, afirma.

Para o pesquisador, que trabalhava com o desenvolvimento de vacinas em Berna, na Suíça, a independência do trabalho científico é um dos motivos pelos quais é importante investir no desenvolvimento de uma vacina brasileira, tanto para covid-19, quanto para outras doenças, como zika, dengue e chikungunya, por exemplo. “O que nós produzimos é o que há de melhor. Nas empresas, não necessariamente é o que há de melhor”, afirma. “Quando a gente produz algo no Brasil, pertence ao público”, completa.

Quando a gente produz algo no Brasil, pertence ao público.Gustavo Cabral, imunologista

Há um debate internacional em curso em torno dos direitos de propriedade intelectual de tecnologias para combate à pandemia. Em maio, 194 Estados-membros da OMS (Organização Mundial da Saúde) aprovaram uma resolução que apoia a possibilidade da quebra de patentes de futuras vacinas ou tratamentos para a covid-19. Os Estados Unidos não apoiaram a proposta. 

O acesso a iniciativas estrangeiras também preocupa especialistas brasileiros. “Quando for para negociar comercialmente, não tem tapinha nas costas. Não importa se o sujeito participou ou não [do ensaio clínico]. A demanda pela vacina que se provar segura e eficaz vai ser enorme no mundo afora. Centenas de milhões de doses. Evidentemente que haverá, como costuma haver sempre nessas situações, as prioridades”, alertou ao HuffPost Brasil Reinaldo Guimarães, ex-secretário do Ministério da Saúde da área responsável pela incorporação de tecnologias no SUS (sistema único de saúde).

ASSOCIATED PRESS
"Quando a gente produz algo no Brasil, pertence ao público", afirma Gustavo Cabral, que coordena pesquisa para vacina brasileira contra o novo coronavírus.

Os desafios da pesquisa no Brasil

A desvantagem da produção nacional, por outro lado, é a falta de estabilidade no financiamento. “O maior problema do Brasil não é o investimento em si, mas a instabilidade do investimento e a visão do que é ciência no País”, afirma. 

O cientista lembra que, em 2004, o governo federal iniciou uma atuação de fomento à pesquisa que durou até 2008. “De repente cai. Aí volta o financiamento. Em 2016 cai novamente. De repente, o ministro diz que universidade pública não serve e não tem investimento. Corta bolsa de iniciação científica, de mestrado, doutorado. O Brasil faz pesquisa basicamente por causa de bolsa”, diz.

A falta de estabilidade para cientistas no Brasil também foi criticada pela biomédica Jaqueline Góes, coordenadora da equipe que sequenciou o genoma do novo coronavírus no Brasil, em entrevista ao HuffPost Brasil. “Não existe a profissão de cientista no Brasil. A gente faz pesquisa dentro de um projeto que tem uma bolsa a oferecer. Quando aquele projeto termina, você tem que procurar outro que também tenha bolsa para você continuar tendo remuneração. E as bolsas não são compatíveis com a atividade que a gente exerce”, afirmou.

A valorização dos cientistas também se reflete na sociedade, na percepção de Cabral. “Eu me surpreendi quando cheguei na Inglaterra pela primeira vez. Fui mostrar meu passaporte e a policial perguntou o que eu estava fazendo lá. Quando falei que ia trabalhar em Oxford, que eu era pesquisador, a fisionomia dela mudou imediatamente”, lembra.

A vacina para o zika

O caminho do sertão baiano até os laboratórios estrangeiros não foi fácil. “Eu não estudava porque tinha que trabalhar. Quando resolvi estudar, já era adulto. Vim de família bem humilde mesmo. Não tinha condições alguma de ir para capital. Fui estudar no interior. Estudei ciências biológicas. Me incomodava não ter ido para Salvador e fui fazer o mestrado na federal da Bahia, em imunologia. Sempre trabalhei em comunidades. Desde a graduação trabalhei com doenças parasitárias. Com relação comunitária, meio ambiente e saúde pública”, conta Cabral.

Além de se dedicar ao desenvolvimento de uma vacina para o SARS-COV-2, o imunologista também tem trabalhado para aprimorar uma vacina contra o vírus da zika, desenvolvida por ele no exterior e que rendeu uma capa da revista Vaccine. “O trabalho que eu fiz com a zika eu estava na Inglaterra e Suíça. Essa que eu estou trabalhando vai pertencer a nós. Não a outro país”, afirma.

Duas coisas que estimulam a produção de uma vacina são: afetar países financeiramente potentes e o retorno financeiro, a questão empresarial. Isso está bem claroGustavo Cabral, imunologista

A técnica usada também é VLP, mas está sendo aprimorada para ser mais eficiente e possa ser aplicada em uma dose apenas, em vez de três. De acordo com o pesquisador, também deve haver uma mudança para melhorar a resposta imunológica, para que “além da produção de anticorpos, também gere outros componentes, como uma melhor eficiência de produção de células T”.

Cabral lembra que tanto o zika quanto o vírus que causa a chikungunya são conhecidos desde a década de 1950, mas não houve investimento para produção da vacina por questões sociais. “Duas coisas que estimulam a produção de uma vacina são: afetar países financeiramente potentes e o retorno financeiro, a questão empresarial. Isso está bem claro”, afirma. No caso da zika, ele lembra que houve uma corrida quando a doença se alastrou, mas quando a poeira baixou, os investimentos foram cortados.