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13/02/2020 16:29 -03 | Atualizado 13/02/2020 16:36 -03

Dificuldade de Guedes de ‘esconder o que pensa’ causa temor no governo

Bolsonaro pediu ao ministro para ‘maneirar’. Há receio de que ‘descontrole’ de Guedes prejudique agenda econômica.

MAURO PIMENTEL via Getty Images
Ministro foi repreendido por falas recentes sobre servidores "parasitas" e "domésticas na Disneylândia". 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, de repente tornou-se uma pessoa que precisa ser monitorada pela “dificuldade de esconder o que pensa”. O superministro de Bolsonaro, que era tido como solução dos problemas do governo, voltou a polemizar na quarta (12), ao dizer que não é ruim o dólar alto porque nas épocas de baixa da moeda americana “empregada doméstica estava indo para Disneylândia”. Cinco dias antes, foram os funcionários públicos os alvos de sua fala, comparados a “parasitas”. 

No Palácio do Planalto, a sequência de afirmações consideradas “equivocadas” de Guedes “surpreendeu”. Assessores próximos do presidente temem os impactos que esses “descontroles” possam ter no Congresso, “onde tudo impacta”, uma vez que a principal agenda do governo neste ano é justamente econômica. Teme-se também pela economia, que vem dando sinais de melhora. 

Nesta quinta, o Banco Central teve que intervir no preço do dólar. A moeda americana abriu em novo recorde esta manhã: R$ 4,38. O BC anunciou um leilão, que acalmou o mercado.  

A avaliação nos bastidores é que, à medida em que Paulo Guedes se sentiu “confortável” e viu as coisas “funcionando e correndo bem”, começou a “perder a mão”. 

A estratégia, porém, é não tratar do assunto publicamente. Questionado sobre o assunto, Bolsonaro esquivou-se de responder. “Pergunta para quem falou isso. Eu respondo pelos meus atos”.

O presidente, porém, discordou de seu ministro sobre o valor da moeda americana. “O dólar, eu, como cidadão, está um pouquinho alto”. Ele destacou, no entanto, que não interfere no tema economia, sobre o qual, inclusive, sempre faz questão de ressaltar que não entende. 

“De vez em quando converso com o Roberto Campos [presidente do Banco Central]. Entendo pra burro de economia. Vocês sabem disso. E está dando certo a economia por causa disso. Eu não interfiro. Por exemplo: quando acaba a reunião do Copom, quando decide. Aí eu converso, depois que aconteceu”, afirmou.

O passado de Guedes o condena

Esta não foi a primeira, a segunda, nem a terceira vez que o chefe da Economia polemizou. Além dessas duas ocasiões recentes, em novembro ele mencionou o Ato Institucional número 5 ao criticar protestos que, em sua opinião, estavam sendo convocados pela oposição na América Latina à época. 

“Sejam responsáveis, pratiquem a democracia. Ou democracia é só quando o seu lado ganha? Quando o outro lado ganha, com 10 meses você já chama todo mundo para quebrar a rua? Que responsabilidade é essa? Não se assustem então se alguém pedir o AI-5”, disse, em uma palestra em Washington.

Em agosto, o ministro defendeu com veemência a recriação da CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) e deu trabalho ao presidente para acalmar os ânimos e minimizar o temor de um novo imposto. 

“Funcionou por 13 anos. Se a alíquota foi pequena, não machuca. Quando o FHC lançou esse imposto, todo mundo apoiou porque arrecada rápido. Entre um imposto horroroso e a opção pela desoneração da folha, prefiro abraçar o feioso”, disse. À época, foi repreendido e proibido de falar em novo imposto novamente.

Também em 2019, desta vez ao participar de uma comissão no Congresso, o ministro se exaltou e virou meme na internet. Guedes se envolveu em um bate boca com o deputado Zeca Dirceu (PT-PR), em um audiência pública para tratar da reforma da Previdência. Na ocasião, o petista disse que o ministro era tigrão com os pobres e tchutchuca com os ricos. “Tchutchuca é a mãe, é a avó”, respondeu.

Desta vez, a repressão partiu em primeiro lugar da família. A mãe, a madrinha e o primo, segundo ele próprio, lhe chamaram a atenção pela declaração de sexta (7). Na sequência, o presidente Jair Bolsonaro também lhe pediu para “maneirar”, conforme relatos de interlocutores ao HuffPost. 

No Seminário de Abertura do Ano Legislativo, em Brasília, quando contou da reação da família, o ministro também mencionou que, às vezes as pessoas falam “dos maus modos do presidente” e que ele também os tem. “Vivo falando besteira. A forma (de falar) a gente erra, mas o importante é o conteúdo”, acrescentou.  

Em seguida, no mesmo evento, porém, veio a fatídica frase polêmica: “O câmbio não está nervoso. O câmbio mudou. Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Todo mundo indo para a Disneylândia, empregada doméstica indo para Disneylândia, uma festa danada. Pera aí. Vai passear em Foz do Iguaçu, vai passear ali no Nordeste, está cheio de praia bonita.”

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