OPINIÃO
23/04/2019 08:27 -03 | Atualizado 23/04/2019 08:27 -03

'Guava Island' brilha quando quer ser um clipe, mas falha quando quer ser um filme

Mistura de musical, comédia e drama, média-metragem é estrelado por Donald Glover e Rihanna.

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No filme, Donald Glover apresenta um de seus maiores - e mais explosivos - sucessos como Childish Gambino: This is America.

Filmado em segredo em Cuba, o média-metragem (de 55 minutos) Guava Island apareceu meio que de surpresa no catálogo da Amazon Prime no último final de semana.

Estrelado por Donald Glover e Rihanna, o filme mistura musical, comédia e drama em um produto que mais parece um clipe de duração estendida para a persona musical de Glover, Childish Gambino, que despeja letras cheias de romantismo combinadas com ácidas críticas sociais.

É como se Gambino encontra-se Earn, o personagem que o músico, ator, roteirista e diretor americano interpreta na incrível série Atlanta.

Enquanto sua persona musical apresenta músicas como This Is America, Feels Like Summer e Summertime Magic, seu personagem, Deni Maroon participa de esquetes que variam entre a comédia do absurdo - como na excelente cena em que é assaltado por um grupo de crianças - romance e drama social. “Nós vivemos no paraíso, mas nenhum de nós tem os meios para viver aqui”, diz Deni para um colega de trabalho.

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A "cena do assalto" é uma das melhores do filme.

Na trama, Deni Maroon (Donald Glover) é um músico que ganha a vida apresentando um programa em uma rádio e trabalhando nas docas de Guava, controlada pela família Red, que além das docas, possui todos os grandes negócios da ilha, como o da produção da famosa seda azul. A namorada de Deni, Kofi (Rihanna), trabalha como costureira na tecelagem dos Red.

Quando Deni decide fazer um festival para alegrar o sofrido e explorado povo de Guava, o atual chefe da família Red (Nonso Anozie) manda que ele cancele a festa, pois, cansados após os shows, seus trabalhadores não iriam trabalhar no domingo, algo costumeiro na ilha.

A história é bem simples e possui uma inocência que chega a ser até infantil. Aliás, muito bem representada visualmente pelas lentes de imagens granuladas utilizadas por Hiro Murai, que dirige boa parte dos episódios de Atlanta junto com Glover.

Para o bem e para o mal, o resultado é quase uma fábula — formato, aliás, que o filme utiliza em seus primeiros minutos para contar a história dessa ilha paradisíaca.

Se por um lado temos o talento de Glover e suas canções embaladas em um filme bem dirigido, por outro sofremos com uma trama simplória e com uma visão pouco autêntica da realidade de extrema desigualdade social e injustiças da América Latina. Que nós aqui conhecemos muito bem.

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Pena que não temos a oportunidade de ver o talento de Rihanna nem como cantora, nem como atriz.

Outro ponto negativo fica para a sub-utilização de Rihanna. Além de não cantar um trechinho de música sequer, a cantora nem pode mostrar seu talento como atriz, pois seu personagem não é nada mais que apenas o interesse romântico de Deni. Uma musa que quase não tem a oportunidade de falar.

Ou seja, quando escolhe ser um clipe de Childish Gambino, Guava Island brilha, mas falha quando quer ser mais do que isso. O resultado, portanto, é desigual, mas muito longe de ser ruim. É um filme agradável e com alguns momentos bem divertidos, mas nem de longe possui o peso de Atlanta, uma obra que deixará um legado.