Comportamento

O que fazer quando os seus filhos te irritam

Sempre podemos ter compaixão por nós mesmos.
“É muito importante que os pais aprendam a identificar seus gatilhos”, diz a autora Carla Naumburg.
“É muito importante que os pais aprendam a identificar seus gatilhos”, diz a autora Carla Naumburg.

Quando Carla Naumburg percebeu que estava o tempo todo brigando com os seus filhos, decidiu procurar ajuda. A pesquisa por “como parar de gritar com seus filhos” não resultou em muitas respostas úteis, então a assistente social (e autora de vários livros para pais e mães) decidiu ir mais fundo.

O resultado é seu mais novo livro, How To Stop Losing Your Sh*it With Your Kids (Como não perder a cabeça com seus filhos, em tradução livre), que fala dos motivos pelos quais os pais perdem a calma com as crianças (além do fato óbvio de que às vezes tá tudo bem se você perder o controle).

A ideia é dar aos pais ideias práticas para melhorar – tanto nos momentos mais tensos com as crianças, quanto nos jeito que costumamos nos penalizar nessas situações. Afinal, perder a calma às vezes é inevitável.

O HuffPost Parents conversou com Naumburg para pedir algumas dicas. Veja.

O livro reconhece que às vezes os pais perdem a cabeça. Considerando que você não está passando dos limites ou sendo violento, como você identifica o que é um comportamento problemático?

Carla Naumburg: Sim, todo mundo passa por isso. É normal em relacionamentos tão próximos. Acho realmente importante que as crianças aprendam que às vezes você vai ficar bravo, vai expressar essa raiva e mesmo assim é capaz de ter um relacionamento saudável e amoroso.

Mas, se você anda perdendo a calma mais do que gostaria, é hora de prestar atenção.

O que quero que os pais saibam é que isso não significa que eles sejam más pessoas ou maus pais. E não se trata de força de vontade. Quando você perde a cabeça com os filhos com frequência, é um alerta: talvez algo esteja errado com você, e a manifestação sejam essas explosões com seus filhos.

Dê um exemplo.

É muito importante que os pais aprendam a identificar seus gatilhos. (Sou muito sensível ao barulho, por exemplo. Meu marido não se incomoda.) Saber o que te tira do sério pode te ajudar a reconhecer o momento em que você está prestes a perder a calma.

Isso é muito importante! Ser capaz de reconhecer esses sinais em si mesmo é algo impressionante, e os pais devem sentir orgulho por isso. Se você conseguir, pode dar um tapinha nas próprias costas.

“Acho realmente importante que as crianças aprendam que às vezes você vai ficar bravo, vai expressar essa raiva e mesmo assim é capaz de ter um relacionamento saudável e amoroso”, diz Naumburg.
“Acho realmente importante que as crianças aprendam que às vezes você vai ficar bravo, vai expressar essa raiva e mesmo assim é capaz de ter um relacionamento saudável e amoroso”, diz Naumburg.

Mas, mesmo que você seja capaz de reconhecer esses gatilhos, como evitar o passo seguinte, tipo, explodir?

Digo para os pais fazerem literalmente qualquer outra coisa. Já imitei galinha, porque ajuda a botar pra fora essa energia e é uma coisa tão ridícula que todo mundo cai na risada.

Uma coisa que funciona é se afastar da criança. Se você tiver um bebê, dá para colocá-lo no berço um tempinho? Se for uma criança pequena, será que eles ficam bem sozinhos um pouco no quarto? Será que a solução é colocar a criança na frente de uma tela? (É por isso que digo que os pais têm de guardar o tempo de tela para quando eles, não as crianças, precisarem.) Se for uma criança maior, você pode dizer: “Vou para o outro quarto para me acalmar um pouco”?

Aí, respire fundo – o nosso sistema nervoso agradece.

Como determinar esses gatilhos?

Existem alguns bem universais: dores crônicas, dificuldades financeiras e exaustão, por exemplo. Para parar de perder a calma com seus filhos, você tem de se esforçar para saber quais são os seus gatilhos e depois tentar resolver os problemas.

Mas a verdade é que nem sempre isso é possível.

Na minha vida, aprendi a focar no sono. Mas, para os pais que já estão realmente fazendo tudo o que é possível e não conseguem ter aquelas horas de sono a mais – porque simplesmente é impossível, ou porque eles têm um bebê em casa – você tem de gerenciar suas expectativas.

Tem de ser um pouco mais tolerante com si mesmo e saber que você vai acabar perdendo a calma mais do que gostaria. Realmente acredito que é impossível ser paciente quando você está exausto.

“Quando você perde a cabeça com os filhos com frequência, é um alerta: talvez algo esteja errado com você, e a manifestação sejam essas explosões com seus filhos.”

E se você continuar perdendo a cabeça mesmo depois de tudo isso?

Peça desculpas! Quando falo desse assunto, sempre tem um pai ou mãe que me pergunta: “O que?! Posso pedir desculpas?”

Os pais às vezes acham que isso vai minar sua autoridade, ou então inverter a dinâmica de poder. Não vai! Você está pedindo desculpas por seu comportamento. Você não pede desculpas pelos seus sentimentos.

E isso não significa que seu filho vai se safar. O fato de você dizer “Me desculpa por ter gritado quando a gente estava atrasado pra sair” não significa que você não possa sentar-se com seu filho e fazer um plano para que os sapatos dele estejam no lugar certo na hora de ir para a escola.

Você fala muito de auto-compaixão no livro, que, na minha opinião, é algo muito difícil para os pais. (Culpada!) Por quê?

É muito importante. Sempre podemos ter compaixão por nós mesmos. Isso pode significar simplesmente lembrar que você não está sozinho, que todos os pais e mães do mundo sentem-se mal de vez em quando.

E naqueles momentos em que você se pergunta: “O que posso fazer para cuidar de mim mesma?” Você está se exercitando? Você separa um tempinho de paz e silêncio só para você? Sabemos pelas pesquisas – e sei da minha própria experiência – que isso não significa que você está se “perdoando” por ter perdido a cabeça. Na verdade, isso quer dizer que é menos provável que essas situações se repitam no futuro. É muito poderoso.

Ser pai e mãe é difícil. Ficar calmo nos momentos difíceis da vida do pai ou da mãe é difícil. Tudo bem ter um pouco de compaixão por si mesmo.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.