MULHERES
09/03/2020 16:05 -03 | Atualizado 10/03/2020 14:03 -03

No México e Argentina, mulheres fazem greve para imaginar como seria 'um dia sem nós'

A ação visa mostrar como seria a vida cotidiana se as mulheres sumissem da sociedade.

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Mulheres foram às ruas no México, em 8 de março de 2020, Dia Internacional da Mulher, para marchar por seus direitos e reivindicar uma vida livre de violência.

Milhares de mulheres vão se manter longe dos escritórios, das escolas e de gabinetes governamentais do México e da Argentina nesta segunda-feira (9), reforçando os protestos históricos contra violência que levaram milhares às ruas neste fim de semana, em ocasião do Dia Internacional da Mulher.

Chamada de “Um dia sem nós”, a ação visa mostrar como seria a vida cotidiana se as mulheres sumissem da sociedade. No México, a greve decorre de um aumento no desaparecimento de mulheres e do alto índice de feminicídios, os assassinatos de mulheres motivados por gênero.

Desde o final de 2019 o México foi tomado por protestos que pediam “nenhuma morte a mais”, em alusão ao movimento argentino Ni Una Menos. Mas desde o último fim de semana, protestos na Cidade do México se intensificaram devido à notícia do assassinato de Ingrid Escamilla, de 25 anos. A jovem, vítima de feminicídio, teve seu corpo brutalmente mutilado. Francisco Robledo, parceiro de Escamilla, confessou o crime à polícia e foi preso.

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Plataforma designada exclusivamente para mulheres fica vazia durante greve nacional, no México, em 9 de março de 2020.

Protestos nas ruas e reações nas redes sociais se intensificaram quando tabloides da capital mexicana replicaram fotos do corpo da vítima. O crime aconteceu em 9 de fevereiro e reflete situação alarmante no país. Segundo dados oficiais, assassinatos de mulheres cresceram 137% nos últimos cinco anos no México. Só em 2019, o país registrou 1.006 vítimas de feminicídio, mas as autoridades apontam que, devido à subnotificação, podem ser maiores.

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Manifestante dispara fogo na entrada do Palácio Nacional, na Cidade do México, após outros manifestantes pixarem "Estado feminicida".

No domingo (8), um número inédito de mulheres tomou as ruas pela América Latina como parte do Dia Internacional da Mulher, exigindo direitos, marchando pela descriminalização do aborto e por uma vida livre de violência.

O impacto da greve desta segunda, por outro lado, resultará da ausência de mulheres em empresas, universidades e ministérios do governo. Nem todas as mulheres, no entanto, vão aderir ao movimento.

 

 

“Estamos cansadas de ser vítimas, de ser abusadas e maltratadas. Já chega”, disse Alma Delia Díaz, de 45 anos, esteticista no subúrbio de Ecatepec, na Cidade do México à Reuters.

Díaz alegou que apoia mulheres se fazerem ouvidas, mas pessoalmente não perderá um dia de trabalho.

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Ativistas dos direitos ao aborto seguram seus icônicos lenços verdes em favor da descriminalização do aborto na Plaza de Mayo, em 8 de março de 2020.

O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, afirmou que os funcionários do governo estão livres para aderir à iniciativa, mas também acusou sua oposição política de explorar os problemas de segurança do país para prejudicar seu governo.

Enquanto isso, na Argentina, o debate sobre a interrupção da gravidez está prestes a ser retomado. Em 1º de março, o presidente Alberto Fernández anunciou que enviará ao Congresso um novo projeto de legalização do aborto.

Há dois anos, uma proposta nesse sentido foi aprovada pela Câmara dos Deputados, mas rejeitada no Senado.