OPINIÃO
21/09/2019 05:00 -03 | Atualizado 21/09/2019 05:00 -03

Greve global pelo clima e guerra urbana no Brasil: Precisamos falar sobre isso

Como mobilizar jovens em contextos de extrema desigualdade e violência, que tornam indissociável a questão ambiental da social?

ASSOCIATED PRESS
Manifestantes a favor da greve global pelo clima se reúnem na Avenida Paulista, em São Paulo.

Um dos objetivos da greve global pelo clima, iniciada nesta sexta-feira (20) e em vigor até 27 de setembro, é exigir ações concretas face à conjuntura de emergência climática contemporânea. Um segundo objetivo, decorrente do primeiro, é aumentar o número de simpatizantes à causa, o que reforçaria a meta inicial.

Em Nova Iorque o prefeito Bill de Blasio autorizou a participação dos alunos da rede pública na manifestação, enquanto universidades da cidade, como CUNY - The City University of New York - cancelaram as aulas possibilitando que mais e mais estudantes, professores e funcionários se juntem às manifestações.

Movimento semelhante está previsto para Los Angeles, São Francisco, Londres, Paris, Estocolmo, entre outras cidades do chamado Norte Global.
Cidades do Sul Global, como São Paulo, Mumbai e Johanesburgo também prometeram grandes mobilizações para as datas convocadas.

Como mobilizar jovens e estudantes em contextos de extrema desigualdade social, violência e vulnerabilidades que marcam o território do Sul Global e tornam indissociável a questão ambiental da social?

Como mobilizar as crianças do Complexo de Escolas Salsa e Merengue, no Complexo da Maré no Rio de Janeiro, alvejadas de helicóptero no dia 18 de setembro, por ação policial em horário escolar? O que as convencerá, a seus pais, amigos e professores, de que a prioridade de sua luta e ativismo deverá ser a emergência climática?

No dia 25 de julho deste ano, Greta Thunberg, ativista sueca de 16 anos, e grande responsável por promover a greve climática nos cinco continentes mandou uma mensagem aos jovens brasileiros: “É preciso se conscientizar sobre o que está acontecendo agora e quais podem ser as consequências de nosso sistema atual. Porque apenas quando entendermos, principalmente os jovens, que nosso futuro está em perigo, eles vão reagir”.

Greta Thunberg está em tour pelos Estados Unidos desafiando e inovando na forma de se fazer política e ativismo. A causa é nobre, assim como tem sido seu comportamento e atitude frente ao establishment do capitalismo ocidental.

Ela não faz propaganda, não se alia a políticos ou partidos, não tem interesse por conversa mole, não viaja de avião por conta da emissão de CO2. É fã de ciência e de “papo reto”. É “ativista raiz” e “perderá” o ano escolar por conta disso, em nome da causa — algo maior.

No Norte global, quanto no Sul, Greta e seus chamados à mobilização têm recebido inúmeros apoios de movimentos por justiça ambiental e climática. No Brasil a adesão de redes e movimentos comunitários ainda é bastante incipiente. A Rede Brasileira de Justiça Ambiental não está convocando ou se manifestando em relação às datas programadas.

No Brasil a Coalização pelo Clima, composta por cerca de 70 organizações ambientais, sindicais, movimentos sociais estão participando do chamamento, assim como proporcionando aulas públicas para os interessados. A Coalização conta com organizações como MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), Greenpeace, Lute pela Floresta, Famílias pelo Clima, as frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo, assim como os partidos PT, Psol e Rede.

É preciso mais que isso. É preciso falar sobre as crianças, seus pais, amigos e familiares vítimas da necropolítica em curso pelo Estado nas periferias brasileiras. O correto discurso de que as populações mais vulneráveis serão – e já estão sendo – as principais atingidas pelos impactos das mudanças climáticas não fará sentido e perderá organicidade diante da violência e extermínio por qual estão passando atualmente.

Em seis meses, 881 pessoas foram assassinadas vítimas de confronto policial no Rio de Janeiro. Qual futuro estamos oferecendo às crianças e jovens desses territórios? Qual a probabilidade de considerarem a Greve Global pelo Clima uma agenda prioritária?

O desafio é complexo. É preciso adequar a mensagem de Greta à conjuntura local. Do contrário o movimento não terá aderência daqueles que serão os maiores impactados e daqueles que, em última instância, podem liderar o processo de reformulação do sistema predatório dos recursos naturais em que vivemos.

Este artigo é de autoria de articulista do HuffPost e não representa ideias ou opiniões do veículo. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.