OPINIÃO
26/01/2019 00:00 -02 | Atualizado 26/01/2019 20:06 -02

'Green Book - O Guia' é um filme racista?

Produção personifica o mito do "Magical Negro", termo popularizado por Spike Lee.

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Viggo Mortensen e Mahershala Ali como Tony Lip e Dr. Don Shirley, um ítalo-americano bronco e um sofisticado músico negro nos anos 1960.

Depois do #OscarSoWhite, a edição de 2016 da principal premiação do cinema mundial que chamou a atenção por não indicar nenhum profissional negro ou filme com temática negra, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas passou a tomar mais cuidado com a falta de diversidade no evento.

A mudança de atitude é visível mesmo com uma rápida passada de olhos na lista de concorrentes ao Oscar de Melhor Filme em 2019. Entre os finalistas, ótimas surpresas, como Pantera Negra, o 1º filme de super-herói (e um super-herói negro!) a conseguir tal feito; e Infiltrado na Klan, filme sem concessões sobre questões raciais do sempre enfático Spike Lee.

O grande problema é ver Green Book - O Guia, que estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta (24), fazendo companhia a essas duas produções como um representante dessa “categoria”.

Supostamente um “feel good movie” que inspira plateias com a tocante história de amizade entre um ítalo-americano bronco e um sofisticado músico negro nos anos 1960, o filme dirigido por Peter Farrelly foi acusado de ser racista por veículos nos Estados Unidos como a Vice e a NBC 

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Mahershala Ali interpreta um pianista negro e homossexual em "Green Book".

Essa é, certamente, uma questão delicada e que gera muito debate.

Mas uma coisa é certa: Green Book, produção que vem acumulando alguns prêmios importantes, entre eles o Globo de Ouro de Melhor Comédia ou Musical, personifica da forma clara um dos grandes estereótipos do cinema americano: o “Magical Negro”.

Termo popularizado em 2001 por Spike Lee em palestras por universidades americanas, a imagem do “Magical Negro” é perfeitamente definida em um artigo escrito por Matthew W. Hughey intitulado Cinethetic Racism: White Redemption and Black Stereotypes in “Magical Negro” Films (Racismo Cinemático: Redenção Branca e Estereótipos Negros em Filmes “Magical Negro” em tradução livre).

“Os poderes desse tipo de personagem são usados ​​para salvar e transformar brancos desgrenhados, incultos, perdidos ou quebrados em pessoas competentes, bem-sucedidas e satisfeitas dentro do contexto do mito americano de redenção e salvação”, explica o artigo.

Situação que se encaixa como uma luva na trama de Green Book: Tony Lip (Viggo Mortensen) é um ítalo-americano falastrão e bom de briga que trabalha como segurança na boate Copacabana, em Nova York. Quando esta fecha as portas no outono de 1962, ele acaba arranjando um emprego como motorista do Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), um pianista negro e homossexual que fará uma arriscada turnê pelo sul dos EUA, região que era (e ainda convive com esse fantasma) institucionalmente racista. A jornada transformará para sempre a vida dos dois.

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Viggo Mortensen é o motorista de Don Shirley.

Como no mito do “Magical Negro”, o culto Dr. Shirley tenta a todo custo “educar” seu companheiro branco. Principalmente quando passa a redigir as cartas de amor de Tony para sua esposa durante a longa turnê, transformando as simplórias narrativas de Tony em textos profundos e românticos.

O motorista, um “ignorante de bom coração” aprenderá o quanto suas noções de cultura negra (que se resumem a referências musicais pop e frango frito), estão erradas, enquanto o solitário Dr. Shirley, um homem que não se identifica com sua “própria cultura”, ganhará uma nova família. Branca, no caso.

Green Book - O Guia é como a pessoa que diz não ser racista porque tem um amigo negro.

Como o artigo apontado anteriormente conclui com espantosa precisão:

“Embora, de certa perspectiva, o personagem [Magical Negro] pareça estar mostrando os negros sob uma luz positiva, ele ainda está subordinado aos brancos. Ele também é considerado uma exceção, permitindo que a América branca goste de negros individuais, mas não da cultura negra.”