11/02/2019 00:00 -02 | Atualizado 11/02/2019 19:13 -02

Grazi Meyer, uma professora de pole dance para todos os corpos

"Aqui a gente não tenta adaptar o corpo de ninguém."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Grazi Meyer é a 341ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil que celebra 365 mulheres.

Pode não fazer tanto tempo no calendário, mas quando ela fala sobre o assunto parece quase uma outra vida. Mas foi em meados de 2015. Descobriu o pole dance como mais uma atividade física que acumulava em sua longa rotina de treinos – chegava a praticar exercícios três vezes ao dia. Gostou. Se sentiu forte, potente. Mas o efeito maior mesmo aconteceu um pouco depois, quando conheceu um estúdio em sua cidade natal, Florianópolis. Lembra que a professora não era o padrão que se espera de uma mulher que dá aula de pole dance. E foi aí que a coisa pegou. “Ela começou a dançar e tudo fez sentido. Eu não queria nem parecer com ela, eu queria ser ela. Ela me colocou para usar o pole dançando e eu não me achava nada interessante e ela falou pra eu dançar e gravou. Eu chorei quando vi o vídeo, não acreditava que eu era aquela pessoa e comecei a me enxergar como bonita, interessante”.

Grazi Meyer, 40 anos, atriz, empresária, professora de pole dance e idealizadora do Maravilhosas Corpo de Baile mudou a forma de olhar para si. Nessa época em que descobriu o pole dance estava em sua fase mais focada de cuidados com o corpo. Havia ganhado peso após uma viagem e resolveu focar em emagrecer. Conseguiu, mas de uma forma que ela mesma define como obsessiva. “Nunca tive um corpo muito padrão, me achei gorda por muito tempo e eu não fazia esporte, era sedentária e achava que os espaços de dança e esporte não eram para mim. Voltei [da viagem] mal e comecei a fazer dieta, muito exercício, tenho uma personalidade obsessiva, fiquei muito magra, parei de menstruar”.

Foi um processo que me curou de muitas doenças.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ela é atriz, empresária, professora de pole dance e idealizadora do Maravilhosas Corpo de Baile.

Descobriu que estava em um processo de overtraining e o médico recomendou que ela parasse com todas as atividades. “Mandou eu parar tudo e só comer e descansar. Mantive só o pole e a dança e fui aceitando, entendendo e negociando comigo e de 2015 para cá meu corpo mudou muito. Ganhei peso, umas coisas ficaram maiores, outras ficaram pequenas, mas foi um processo que me curou de muitas doenças. Eu pesava tudo que eu comia, chorava comendo, comia escondido, acho que estava obcecada por alimentação saudável, levava marmita na ceia de natal, me sentia feia, tinha várias questões de imagem”.  

Sua grande aliada nesse processo foi a dança e o pole. É envolvida com teatro desde a adolescência e presente em aulas de balé e jazz já quando criança, mas foi adulta que entendeu o seu tipo de dança. Porque, na verdade, foi quando compreendeu melhor o seu corpo e sua história. “A dança mais legal não é necessariamente aquela em que você vai ver todo mundo fazendo os mesmo movimentos, do mesmo jeitinho, a dança legal é você ver a pessoa botando quem ela é naquilo. E isso está no corpo, eu ser mais ou menos flexível, o jeito que entendo o ritmo, a forma como o corpo se mexe, o tamanho e o formato que ele tem é parte de quem eu sou e isso é importante para botar na dança”.

Uma das coisas que mais falamos aqui é que somos sujeitos e não objetos.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Sua grande aliada no processo de cura foi a dança e o pole.

Quando descobriu isso e sua vida começou a mudar, quis dividir a experiência. Mudou-se para São Paulo em 2016 com a ideia de ficar mais próxima da cena cultural e acabou dando aula de pole dance em sua casa para amigas interessadas e realizou um workshop marcante. “Chamava Maravilhosas Corpo de Baile – ame o seu corpo dançando porque a ideia era essa, a gente descobrir que nosso corpo é legal enquanto a gente dança, para que elas conseguissem experimentar uma coisa que eu já tinha experimentado que é você entender que seu corpo já dança, se movimenta do jeito que ele é. Eu entendo a dança desde o começo como uma coisa que celebra o corpo que você já tem”.

Quando viu, a ocupação com as aulas e os workshops já tinha virado algo maior. Junto com uma amiga buscou uma sala em uma academia e criou o estúdio em 2017. Em poucos meses o espaço já estava pequeno e no fim do ano conseguiu uma área maior. Passou de 40 para cerca de 150 alunas. Junto com o lugar maior, vieram as novas ideias – e os novos corpos. “Ninguém falava sobre dar aula para outros tipos de corpos. Era um ‘consigo dar aula para menina gorda e ela vai fazer coisas até emagrecer’ e aqui a gente não tenta adaptar o corpo de ninguém. O que esse corpo fizer vai rolar, o que ele fizer é ótimo. Vamos dizer que está maravilhoso, e esse é o seu movimento”. O grande objetivo era abrir o espaço para quem quisesse, sem nenhum tipo de restrição ou pré-requisitos.

Existe uma sensualidade de você estar muito confortável na sua pele.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Assim ela quer poder ampliar essas ações e discussões e atingir cada vez mais mulheres – e corpos.

Para Grazi, expor as fotos e se expor – o coletivo faz apresentações – é parte do processo que faz sentido para ela. “Quando coloco minha bunda ali cheia de celulite, que é parte da minha história, outras mulheres olham e acham que a bunda parece com a delas e se elas me acham foda, então talvez elas também sejam”. Talvez não. Grazi pode dizer com certeza que elas também são. E olhar com essa generosidade para outras mulheres faz com que a forma de olhar para si seja diferente também. E o que ela espera é poder alimentar cada vez mais esse ciclo e essa troca entre mulheres.

Tanto que no estúdio, metade do quadro de professoras é composto por mulheres não-brancas. Tem professora gorda, funcionária trans. Assim ela quer poder ampliar essas ações e discussões e atingir cada vez mais mulheres – e corpos. Corpo. Cada um com o seu, único. Que é não só testemunha e guardião das marcas e prazeres de todas as escolhas e vivências, mas o grande agente de tudo. É quem move. Seja pendurado em uma barra. Ou de ponta cabeça. Ou no chão. Tanto faz. O que importa é estar ali. Cheio de vida.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

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Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.