MULHERES
05/12/2019 02:00 -03

Pare de ‘elogiar’ o tamanho do corpo das mulheres durante a gravidez

E se a gente parasse de comentar os corpos delas, e ponto final?

Pedro Linares / EyeEm via Getty Images
Quer deixar uma grávida complexada? Diga que ela mal parece grávida.

Sabia exatamente o que aconteceria quando ficaram sabendo na escolinha do meu filho que eu estava grávida de novo. Mesmo assim, as coisas não foram nada fáceis.

As professoras correram para me encontrar quando fui buscar meu menino, que para variar estava colocando a bota no pé errado (ele tem três anos). Elas me deram os parabéns e soltaram gritinhos quando souberam que era outro menino. Aí perguntaram com quantos meses eu estava.

“24 semanas.”

Todos os olhos se voltaram para minha barriga, espremida num casaco apertado. Aí começou.

“O QUE?!”

“NÃO É POSSÍVEL!”

 “NEM DÁ PARA PERCEBER QUE VOCÊ ESTÁ GRÁVIDA!”

Tive de abrir o casaco para mostrar. As mãos foram direto para minha barriga.

“VOCÊ ESTÁ MAGRINHA!”

“NÃO PARECE 24 SEMANAS!”

“ESPECIALMENTE PARA A SEGUNDA GRAVIDEZ!”

Dei uma risadinha, coloquei meu filho no carro, levei-o para a aula de natação, coloquei-o na cama e comi metade de um bolo de chocolate em posição fetal (aê! Gravidez!). Depois fiquei horas deitada na cama, imaginando que meu bebê não estava se desenvolvendo direito; que minha placenta prévia estava impedindo o crescimento dele; que eu perderia o bebê.

Mas obrigada pelos elogios, senhoras!

Natalie Stechyson
Natalia Stechyson, autora desse texto, com 24 semanas de gravidez, um pouco desconjuntada depois de vomitar escovando os dentes.

O lance de comentar sobre o corpo de grávidas é: pare de comentar sobre o corpo das grávidas. Sério. Pare. Não importa o tamanho, não queremos saber. 

Algumas ficam maiores, como minha irmã, que ouvia comentários de desconhecidos dizendo o parto deveria estar próximo, pois ela estava com 28 semanas (a gravidez típica demora 40 semanas). Vi um cara gritar isso para ela no meio da rua quando estávamos caminhando. Ela se sentiu uma baleia e começou a questionar sua alimentação. No fim das contas, ela deu à luz um bebezinho de 2,3 quilos, o que prova que ser uma grávida “grande” ou “pequena” não é um indicador de nada.

Algumas ficam pequenas, como eu. Quando estava grávida do meu primeiro filho, hoje com três anos, nunca tive aquela barriga redonda e perfeita. Era mais um globo inchado, meio arredondado, mas sempre ouvia comentários sobre como estava pequena. Uma garçonete disse que “de jeito nenhum” eu estava com 32 semanas, e quase fiz meu marido me levar ao hospital para checar se estava tudo certo ou se o bebê não tinha sido reabsorvido pelo meu organismo. 

Dei à luz quase um mês antes do previsto e, mesmo assim, meu filho nasceu com quase 3,2 quilos. As enfermeiras me disseram que tive sorte: se a gravidez fosse até o final, ele poderia chegar perto dos 5.

Viu onde estou querendo chegar, né?

Natalie Stechyson
Natalie Stechyson agradece ao filho, em nome de sua vagina, por chegar um mês adiantado.

Numa sociedade obcecada por magreza e regimes, as mulheres estão expostas a comentários constantes sobre seus corpos.

Mas a gravidez em particular traz consigo toda uma nova categoria de comentários não-solicitados. Fazemos isso nas manchetes (não sei como Kate Middleton e Meghan Markle aguentam, para ser sincera) e também na vida real. Fazemos com o corpo das grávidas e com o das mulheres que acabaram de dar à luz.

Isso se chama estigma do peso e é muito comum

 Um estudo de 2019 aponta que o estigma do peso é “cada vez mais comum” durante a gravidez e representa um pesado fardo psicológico para as mães. Os autores observam que ele pode ser “altamente angustiante e associado a uma série de problemas de saúde” ― incluindo depressão. Quanto mais comentários elas ouvem, piores são os resultados.

“Essas conclusões refletem as fortes conotações sociais negativas do ganho de peso na gravidez e dos padrões sociais muitas vezes inatingíveis de perder esse peso depois do parto”, dizem os autores.

Em outras palavras, esses comentários aparentemente inofensivos na realidade são muito prejudiciais!

Entendo que as pessoas tenham boas intenções quando dizem que estou pequena. Ninguém está tentando ser maldoso ou me magoar, pelo contrário. Quem me diz que estou “minúscula” frequentemente completa dizendo “e tão fofa!”, ou “você está ótima!”. Até meu pai me diz essas coisas, com uma ponta de orgulho na voz (Ugh, por quê??). Sempre ouço essas coisas na creche do meu filho.

Mas eis o que a maioria das pessoas não sabe quando fazem esses “elogios”.

Este é (espero, tudo indica que sim) meu segundo bebê, mas minha quarta gravidez. Tive dois abortos naturais, e ambas as perdas foram física e psicologicamente traumáticas.

Desde então, recebi um diagnóstico de transtorno de ansiedade generalizada ― tomo remédio, me consulto com um psiquiatra e sou considerada uma pessoa com alto risco de depressão pós-parto – por causa desse meu histórico de perdas.

Durante minha segunda gravidez, a que me deu meu filho ,estive o tempo todo convencida de que o perderia. Eu costumava pedir licença para dar um pulo no banheiro e procurar sangue. Toda vez que me limpava, tinha certeza de que veria algum sinal de problema. Durante oito meses, vivi todos os dias com medo. Ouvir que eu estava magrinha me deixava muito mal. Sempre. 

Com esta gravidez, logo após o meu último aborto, tenho muitos dos mesmos medos (embora esses sejam um pouco anestesiados graças ao meu novo melhor amigo, o Zoloft). Mas, além da preocupação geral de perder o bebê, também tenho outras mais específicas. A complicação que mencionei anteriormente, chamada placenta prévia, significa mais riscos de sangramento e parto prematuro.

Dizer que eu “mal pareço grávida” coloca esses medos todos em primeiro plano na minha cabeça. Sempre.

Mas é claro que a maioria das pessoas não sabe disso. Por que saberiam? Como podemos saber o que alguma mulher grávida já passou ou está passando? E, a propósito, ela não precisa ter passado por nada para se sentir um lixo absoluto por causa de um comentário não tão inofensivo assim sobre sua aparência.

Natalie Stechyson
Abóboras têm vários formatos e tamanhos diferentes.

Então, da próxima vez que sentir vontade de comentar sobre o corpo de uma grávida ― grande ou pequeno, mesmo que você ache que é elogio ―, pergunte à pessoa como ela está se sentindo. Ou ofereça seu um assento (elas provavelmente estão cansadas). Ou algo para comer (ela definitivamente está com fome).

Ou não diga nada sobre a aparência delas, assim como você não diria nada para uma estranha não grávida que você vê andando pela rua. Mais uma vez, para quem está lá no fundo: parem de comentar sobre os corpos das grávidas!

Tive uma consulta com meu obstetra esta semana e suspirei aliviada depois de ouvir o coração forte do bebê. Eu disse que estava ansiosa porque as pessoas continuam me dizendo que estou pequena. Como é muito gentil, o médico mediu meu abdome.

“Está exatamente do tamanho que esperamos com 24 semanas”, ele me disse, sentindo com as mãos os contornos do meu útero e a posição do bebê.

“Aliás, diria que esse bebê está mais para grande.”

Assim como o irmão dele. Se Deus quiser.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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