OPINIÃO
11/10/2020 04:00 -03 | Atualizado 11/10/2020 04:00 -03

Govtechs: A tendência mais promissora para o poder público

Se antes a transformação digital no setor público ainda parecia uma realidade distante, hoje é cada vez maior o número de empresas que oferecem soluções tecnológicas para apoiar o governo.

drogatnev via Getty Images
Govtechs prometem eliminar burocracia e trazer um governo mais digital aos brasileiros.

Não é de hoje que acompanho o desenvolvimento das Govtechs no Brasil e no mundo e tenho observado como elas vêm ganhando espaço dentro do setor público no Brasil. Por aqui, há um aumento no números de empresas que vendem seus serviços para o governo, atuando com municípios, estados e União, promovendo inovação e sendo uma das principais aliadas para a transformação digital. E com a pandemia do coronavírus iniciada nos últimos meses, elas mostraram para que vieram e como podem apoiar o governo em uma das crises mais difíceis que vivemos.

Há um enorme espaço para as Govtechs no Brasil. São elas que prometem trazer um governo mais digital à população e eliminar a burocracia que há anos está emperrada e dificultando a vida dos cidadãos. O poder público ainda trabalha e oferece serviços como há 50 anos, não evoluindo com as tecnologias que podem trazer benefício a todos os lados.

O estudo “As Startups GovTech e o Futuro do Governo no Brasil”, lançado pelo BrazilLAB e pelo Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), traz uma radiografia completa desse setor e mostra que as Govtechs são a tendência mais promissora de inovação para o poder público. Mesmo com todas as barreiras de entrada, como testar, validar os produtos e finalizar a venda, elas têm se destacado, provando que ter o governo como cliente é um ótimo negócio.

Perfil das Govtechs no Brasil

Para entender esse ecossistema e como ele vem se desenvolvendo por aqui, é necessário observar que trata-se de um mercado novo, mas que vem ganhando espaço, principalmente diante dos desafios impostos pela atual crise.

No Brasil, existem 80 startups Govtechs consideradas como mais relevantes, ou seja, aquelas que vendem de maneira consistente para governos ou atuam em parcerias com o setor público de forma recorrente. Mas o relatório aponta que esse é um mercado subaproveitado: do total de startups existentes no Brasil, até 1.500 delas teriam potencial para atuação no mercado Business to Government (B2G) caso desejassem ofertar suas soluções tecnológicas aos governos.

A maior parte das Govtechs brasileiras tem como foco de atuação 3 temáticas: gestão (28%), educação (17%) e saúde (11%). Mas a pesquisa também evidencia que o foco de atuação é tão diverso quanto a complexidade dos problemas enfrentados pelo setor público, como segurança (correspondendo a 8% do total de startups), mobilidade e meio ambiente (7% cada), saneamento (2%) e habitação (4%).

Além disso, também foi possível constatar os principais modelos de negócios dessas Govtechs. A maior parte delas está focada na oferta de softwares como serviços (SaaS), correspondendo a 53% do total de startups pesquisadas. As que são focadas em mercado representam 7%, comércio eletrônico e vendas de dados representam 6% cada, assim como hardware, consumidor e licença, que são apenas 2% cada uma delas. Outros modelos de negócios correspondem a 22%.

O relatório também evidencia o processo de maturidade das Govtechs no Brasil e mostra que 32% delas estão na fase de tração, ou seja, a empresa experimenta um crescimento, e 27% estão na fase operação, que ocorre quando a startup está em desenvolvimento. Atualmente, 13% ainda estão na etapa de ideação, quando há o planejamento do produto ou serviço que se quer oferecer, e 11% em escala (ou scale-up), quando o processo de crescimento se dá de maneira sustentada. Outras 17% não informaram em qual estágio se encontram. 

Além de apresentar as oportunidades, o relatório elaborado pelo BrazilLAB e pela CAF também aponta os desafios para o fortalecimento desse ecossistema, sendo o principal deles o financiamento. Não há um fundo de investimento que apoie o desenvolvimento das Govtechs, e 90% das que atuam com o setor público iniciaram sua operação com recursos próprios do sócio-fundador. Além disso, os valores de investimento para início da operação podem ser considerados modestos, já que entre as 135 startups entrevistadas para o estudo, 38% delas começaram com uma verba entre R$ 100 a R$ 200 mil. 

A baixa participação de investimentos contrasta com as perspectivas de ganhos: somente o governo federal empenhou ao longo de 2018 mais de R$ 4,4 bilhões em gastos com tecnologia de informação, incluindo equipamentos e serviços.

Outro desafio se relaciona ao fortalecimento de um ecossistema Govtech, que só deve se consolidar com o desenvolvimento de novas habilidades digitais e também com a abertura de gestores públicos à inovação tecnológica. É também imprescindível que novos atores se dediquem ao fortalecimento desse ecossistema: aceleradoras, hubs e laboratórios de inovação são fundamentais para esse esforço, mas ainda são raros no país: o BrazilLAB é a primeira e única aceleradora Govtech atuando em território nacional. 

Uma luz no fim do túnel

Se antes a transformação digital no setor público ainda parecia uma realidade distante, posso dizer sem sombra de dúvidas que ela já vem acontecendo.

As Govtechs são as grandes protagonistas dessa transformação e, certamente, esse mercado deve expandir ainda mais nos próximos anos. Acredito que o número de empresas que oferecem soluções tecnológicas para apoiar o governo vai aumentar nos próximos anos. Essa é a expectativa de quem deseja um governo mais eficiente, ágil e com políticas públicas de qualidade. 

Ainda temos um longo caminho a percorrer, já que é necessário mais investimento, apoio e uma cultura de inovação dentro do governo. Mas já demos um grande passo. E podemos ir ainda mais longe. 

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