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11/02/2020 06:00 -03

Ordem no governo é silêncio sobre morte de miliciano ligado a Flávio Bolsonaro

Discurso oficial que se desenha é de que cabe às polícias da Bahia e do Rio de Janeiro as explicações sobre operação que terminou com a morte de Adriano da Nóbrega.

DIGULGAÇÃO/GETTY IMAGES
Adriano da Nóbrega foi homenageado duas vezes pelo senador Flávio Bolsonaro quando este era deputado estadual no Rio de Janeiro. Ele também foi citado no esquema da “rachadinha” no gabinete de Flávio.

No governo, a ordem é ficar em silêncio sobre a morte de Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Bope do Rio de Janeiro que foi morto no domingo (9) em uma operação no município de Esplanada, interior da Bahia.

O miliciano, que era um dos principais líderes do grupo de matadores de aluguel conhecido como O Escritório do Crime, a mais antiga milícia do Rio de Janeiro, já foi defendido pelo presidente Jair Bolsonaro e homenageado por seu primogênito, o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), que também empregou parentes do ex-policial militar quando era deputado estadual.

Adriano também foi citado no esquema da “rachadinha” no gabinete de Flávio Bolsonaro na Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro), cujas investigações estão em curso no Ministério Público do Rio. 

O miliciano, no entanto, estava foragido, havia um ano, por outro crime. Ele era alvo de um mandado de prisão expedido em janeiro de 2019 por ser o único ainda foragido da Operação Intocáveis, coordenada pela Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Rio no ano passado. Ao ser deflagrada a operação, foram presos acusados de integrar uma milícia que atuava em grilagem de terra, agiotagem e pagamento de propina em Rio das Pedras e Muzema, duas favelas da Zona Oeste carioca.

Nos bastidores, defende-se que o caso não tem nenhuma relação com o governo nem com Flávio Bolsonaro. O discurso oficial que se desenha é de que cabe às polícias da Bahia e do Rio de Janeiro as explicações sobre uma possível operação malsucedida: como, após um ano de trabalho de investigação e num esforço de cooperação e inteligência entre as autoridades baiana e carioca, um foragido que é peça-chave para esclarecer outros casos acaba morto.  

A estratégia de ignorar o caso a todo custo foi cumprida com afinco na segunda (10). Acostumado a falar com jornalistas na porta do Palácio da Alvorada diariamente, o presidente ignorou a imprensa ontem. Nas redes sociais, nenhum de seus filhos se pronunciou sobre o caso. 

Relações com o clã

O silêncio busca deixar no passado a relação que a família Bolsonaro já teve com o miliciano. Flávio o homenageou duas vezes enquanto deputado estadual. Em outubro de 2003, lhe concedeu uma moção de louvor, e, em janeiro de 2005, a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio. 

Na época dessa última saudação, o ex-PM estava na cadeia. Em janeiro de 2004, Adriano foi preso preventivamente pela morte do guardador de carros Leandro dos Santos Silva, que havia denunciado policiais, e, em outubro de 2005, foi condenado em júri popular pelo caso. Só em novembro de 2006 ganhou direito a um novo julgamento - foi absolvido em seguida - e solto. 

O ex-assessor de Flávio na Alerj Fabrício Queiroz, suspeito de comandar o esquema de “rachadinha” na Assembleia, também tinha relações com Adriano. Eles trabalharam juntos no 18º Batalhão da PM em Jacarepaguá, a unidade responsável pelo patrulhamento da favela Rio das Pedras.

Ainda como deputado, Flávio empregou a ex-mulher, Danielle Mendonça da Costa, e a mãe de Adriano, Raimunda Veras Magalhães. Elas são citadas no relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) por fazerem repasses para as contas de Queiroz no esquema das rachadinhas. Foram mais de R$ 200 mil. 

A ligação da família presidencial com Adriano da Nóbrega não para por aí. Também Jair Bolsonaro defendeu o ex-capitão da PM em um discurso na Câmara quatro dias depois de ele ser condenado pelo homicídio do guardador de carros em 2005. Então deputado federal pelo PP, o hoje mandatário chamou Adriano de “brilhante oficial”. 

“Um dos coronéis mais antigos do Rio de Janeiro compareceu fardado ao lado da Promotoria, e disse o que quis e o que não quis contra o tenente, acusando-o de tudo que foi possível, esquecendo-se até do fato de ele sempre ter sido um brilhante oficial e, se não me engano, o primeiro da Academia da Polícia Militar”, disse Bolsonaro à época, defendendo, mais para frente, a absolvição de Adriano. 

Abrigo em sítio de vereador do PSL e medo de ‘queima de arquivo’

Quando foi morto, Adriano estava na chácara do vereador Gilson Lima, do PSL, partido pelo qual Bolsonaro e os filhos Flávio e Eduardo foram eleitos em 2018. Gilson é irmão do deputado estadual Alex Lima (PSB) e do ex-prefeito de Esplanada, Rodrigo de Dedé.

Adriano estava escondido primeiro em uma outra fazenda e percorreu oito quilômetros até a chácara do vereador Gilsinho, onde foi encontrado e morto pela polícia, segundo O Globo. 

“Não sei como ele conseguiu entrar lá. Soube do tiroteio por vizinhos e, depois, que vi na imprensa que ele tinha morrido lá. Não o conheço e nunca fui apresentado a ele”, disse o vereador do PSL ao jornal carioca.

A Secretaria de Segurança Pública da Bahia diz que Adriano reagiu com tiros à chegada dos policiais, foi ferido com dois tiros e não resistiu. Junto com ele, foram apreendidos 13 celulares e 7 cartões de chip. 

Na última semana, o advogado do ex-PM, Paulo Emilio Catta Preta afirmou que o próprio Adriano e a família temiam “queima de arquivo”, segundo o Estadão. Ele telefonou para o advogado na última quarta-feira (5), e a ligação durou 20 minutos.

“Eu estranhei ele me ligar, porque nunca havíamos conversado. Me disse que estava ligando porque estava muito aflito, que tinha absoluta certeza de que foram atrás dele não para prender, mas para matar”, afirmou ao Estadão

O advogado disse que tentou persuadir Adriano a se entregar à Polícia Civil da Bahia, mas o ex-PM afirmou que seria morto de toda maneira. Cata Pretta acrescentou que não questionou ao cliente quem seria o responsável pela suposta “queima de arquivo” e a que informações ele tinha acesso para que fosse alvo de um crime dessa natureza.

As Corregedorias da PM da Bahia e da Polícia Civil do Rio devem apurar se houve falhas na operação. Participaram da operação equipes do (Bope) Batalhão de Operações Policiais Especiais da Bahia, da Cipe (Companhia Independente de Policiamento Especializado) Litoral Norte e da Superintendência de Segurança Pública, além de dois agentes da PC do Rio. 

Ligação com o caso Marielle

O Escritório do Crime, a milícia que Adriano chefiava, é suspeita de matar a vereadora Marielle Franco (PSol-RJ) e o motorista Anderson Gomes em março de 2018. Embora a Secretaria de Segurança da Bahia informe que Capitão Adriano era suspeito do assassinato de Marielle, seu nome não consta do inquérito oficial, informa o G1.

O PSol, porém, informou que o miliciano era uma “peça chave” para desvendar o caso Marielle e chegar aos mandantes do crime. Em nota, a Executiva Nacional do partido “exige esclarecimentos sobre as circunstâncias da morte do miliciano”.

O partido também vai pedir uma audiência com a Secretaria de Segurança Pública da Bahia para apurar mais informações da operação policial que culminou com a morte de Adriano da Nóbrega.

“Avaliaremos medidas que envolvam autoridades nacionais. Seguimos exigindo respostas e transparência para pôr fim à impunidade”, destacou a nota do PSol.