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13/08/2020 07:16 -03 | Atualizado 13/08/2020 07:23 -03

Após ‘debandada’, governo readequa o discurso para acomodar a veia liberal

Busca de Bolsonaro por consolidar base no Congresso choca com expectativa de liberais que apostaram em mudanças rápidas no rumo econômico do País.

Após a ‘debandada’ em sua equipe econômica, como definiu o ministro Paulo Guedes (Economia), o presidente Jair Bolsonaro busca agora uma saída para unir dois discursos que têm se chocado: o político e o liberal. Enquanto analistas ouvidos pelo HuffPost apontam as dificuldades para o governo acomodar a veia liberal, políticos e movimentações do governo indicam a estratégia para tentar realinhar o discurso.

Ao deixar o governo, o secretário da Desestatização, Salim Mattar, que tinha o raio privatizador em suas mãos e a expectativa de vender mais de R$ 1,25 trilhão em ativos, afirmou que há no Executivo resistência em vender as estatais e seguir a agenda do ministério. Em entrevista ao Estadão, ele citou como exemplo a venda dos Correios, postergada por oposição do ministro Marcos Pontes, que chefiava a Comunicação até a pasta ser desmembrada. A queixa também é relacionada ao Congresso. Ele citou como exemplo a dificuldade em privatizar a Casa da Moeda. “O Congresso não quis.”

Em tom de desabafo, o ex-secretário acusou o “establishment” de se opor à transformação do Estado. “O establishment não deseja a reforma administrativa. O establishment não deseja privatização. Se tiver privatização, acaba o toma lá, dá cá. Acaba o rio de corrupção. O establishment deseja segurança que as coisas vão continuar do jeito que estão. O establishment é o Judiciário, o Executivo, o Congresso, são os servidores públicos, os funcionários das estatais. Não querem mudanças. Elas vão acontecendo vagarosamente”, disse.

As palavras de Salim Mattar refletem as dificuldades que o governo tem enfrentado em cumprir promessas de campanha. Além da agenda de privatizações, a reforma administrativa foi engavetada. E ao ver seu projeto adormecer nas gavetas da Esplanada, o secretário da Desburocratização, Paulo Uebel, também não viu mais motivo para seguir no governo.

Ele e o ex-secretário das privatizações se somam a outros cinco (Joaquim Levy, ex-presidente do BNDES; Marcos Cintra, ex-secretário da Receita Federal; Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro; Rubem Novaes, ex-presidente do Banco do Brasil; e Caio Megale, ex-diretor na Secretaria de Fazenda) que deixaram a equipe econômica de Paulo Guedes desde o ano passado.

Embora essas movimentações indiquem esvaziamento do superministério do ‘Posto Ipiranga’, Bolsonaro tem se preocupado em publicamente manter o discurso ajustado às falas de Guedes. No dia seguinte à saída dos secretários, o presidente afirmou que seu governo respeita o teto de gastos — ou seja, tem compromisso com as contas públicas. Há o temor de que, por causa da postura recém-adotada pelo presidente de investir em programas de transferência de renda e em obras, o Executivo seja irresponsável com os gastos.

Há argumento para esse receio de liberais da ala econômica. Filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) chegou a afirmar, em entrevista ao jornal O Globo, que o ministro “Paulo Guedes vai ter que dar um jeito de arrumar mais um dinheirinho para a gente dar continuidade a essas ações que têm impacto social e na infraestrutura”.

Carolina Antunes/PR
No dia seguinte à leva de demissões na equipe de Paulo Guedes, Bolsonaro chamou os presidente da Câmara e do Senado para firmar compromisso com gastos públicos.

Além dos recursos para obras e para o auxílio emergencial que refletiu na popularidade do presidente em outros públicos, o cientista político Milton Lahuerta acrescenta o funcionalismo público como mais uma área da qual o presidente não vai querer tirar dinheiro. Vale destacar o forte lobby da categoria e o fato de o setor chocar diretamente com as privatizações e a reforma da administração pública.

Coordenador do Laboratório de Política e Governo da Unesp (Universidade do Estado de São Paulo), Lahuerta afirma que a equipe econômica trabalha na recusa da política, enquanto o presidente está em outra direção, de olho na reeleição e em meio às crises sanitária e econômica. Para ele, “não vai dar para fazer nada na linha do que quer o Paulo Guedes, que seriam reformas estruturais pró-mercado rapidamente e com controle total do gasto público”.

Na avaliação dele, Bolsonaro vai adotar uma postura mais populista, especialmente por estarmos em ano eleitoral, e tentar atingir determinados setores, como o funcionalismo.

“Vimos a importância de um sistema único de saúde (SUS) com a pandemia. Teremos que atacar setores que exigem gastos, como diminuir a miséria e as áreas sociais. Para quem se posiciona em análise, fundamentos, não dá para acreditar que é possível simplesmente reduzir os gastos públicos, privatizar e que, com isso, os problemas da sociedade brasileira serão resolvidos. Evidentemente que não, até porque o cenário pela frente vai exigir muita coordenação política. E não vai poder ser feita só com base no ‘toma lá, dá cá’, vai exigir uma projeção para o futuro, com discussão de papel do Estado de um modo mais racional.”

Para o professor, “estamos diante de uma equipe econômica que padece de um problema estrutural por total desconhecimento do funcionamento do setor público, como o próprio Salim Mattar acabou dizendo. Não sabia nada do setor público”, diz.

No livro Ponto-final: A guerra de Bolsonaro contra a democracia, o filósofo Marcos Nobre, professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), destaca esse deslocamento entre a expectativa de uma atuação liberal, que é colocada em prática nas empresas privadas, e os dispositivos até mesmo constitucionais que impedem que ela seja colocada em prática na administração federal. Para ele, o liberalismo de Guedes “só funciona para estimular e justificar as práticas mais selvagens de parte da base bolsonarista”.

De olho na campanha de reeleição 

As dificuldades expostas por Salim Mattar ao pedir demissão foram minimizadas tanto pelo presidente quanto por auxiliares e políticos da base. Assessores e políticos ouvidos pelo HuffPost tentaram costurar a permanência de um discurso liberal com os novos passos que o governo tem dado. Um desses passos foi dado nesta quarta-feira (12) com a troca do líder de governo na Câmara. Saiu o deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO), símbolo do “bolsonarismo raiz”, e entrou Ricardo Barros (PP-PR), do centrão. 

De saída, o pesselista afirmou que foi líder de um governo que não queria ter base. Agora, com Barros, Bolsonaro indica consolidação da aliança com políticos tradicionais. Embora esse tipo de movimentações do Executivo indiquem uma postura mais populista, a avaliação é de que o governo não deixou e não tem intenção de deixar de ser reformista.

Ueslei Marcelino / reuters
“Estamos diante de uma equipe econômica que padece de um problema estrutural  por total desconhecimento do funcionamento do setor público", avalia o cientista político Milton Lahuerta.

O próprio presidente teve que vir a público assegurar o compromisso com o setor. “Nós queremos o progresso, o desenvolvimento. (…) Assuntos variados foram tratados [no encontro], como privatizações, outras reformas, como a administrativa. De modo que nós nos empenharemos, mesmo que em ano eleitoral, juntos, para buscar soluções, destravar a nossa economia e colocar o Brasil no local que ele sempre mereceu estar”, disse Bolsonaro, ao lado dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). 

Ao HuffPost Brasil, o deputado João Roma (Republicanos-BA), relator da reforma tributária, endossou a postura do presidente. Ele refutou as declarações de Salim Mattar, disse que ainda há um viés muito forte reformista no governo. “Esse também é o pensamento de uma ala majoritária do Parlamento, exemplo disso foi a expressiva aprovação da reforma da Previdência. Sem querer diminuir o episódio que é relevante, ele se refere muito mais ao cronograma do que à direção”, diz.

O deputado chama atenção para o pano de fundo da discussão, que seriam as eleições, em que o governo apostaria em programas de transferência de renda e em uma presença maior. Para ele, há essa faceta, mas existe um conjunto inteiro, que não tem significância no sentido de realinhamento de agenda.

“Existem forças que colocam que o governo está se consolidando como um Lula às avessas, em direção a um populismo de direita, em que iria abandonar um pouco essa agenda liberal para seguir uma mais populista, com papel do Estado mais proeminente. Eu acho que não é por aí. Ainda acredito na agenda reformista, como a tributária, apesar dos desafios e divergências.”

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