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27/03/2020 14:57 -03 | Atualizado 27/03/2020 18:42 -03

Sem licitação, governo gasta com campanha contra isolamento valor de 70 respiradores

Mote de peça publicitária, que circula por redes sociais bolsonaristas, prega que o Brasil não pode parar. O valor desembolsado com agência é de R$ 4,8 milhões.

Em meio à pandemia de coronavírus, o governo federal contratou sem licitação, ao custo de R$ 4,8 milhões, uma empresa para elaborar uma campanha publicitária com o mote #OBrasilNãoPodeParar. A ideia é defender a flexibilização do isolamento social, mantendo apenas idosos e pessoas com doenças pré-existentes em casa, conforme defendeu o presidente Jair Bolsonaroem pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão esta semana. 

O valor gasto pelo governo para a campanha daria para comprar cerca de 70 respiradores — cada respirador custa, em média, R$ 70 mil. Segundo levantamento do UOL, cerca de 60% dos municípios brasileiros — nos quais vivem 33,3 milhões de pessoas — não têm nenhum respirador disponível em suas unidades de saúde.

Em nota (leia a íntegra ao final), a Secretaria de Comunicação Social da Presidência chamou a informação sobre a propaganda em questão de “irresponsável”, afirmando que foi publicada de “forma equivocada”. “Cabe destacar, para não restar dúvidas, que não há qualquer campanha do Governo Federal com a mensagem do vídeo sendo veiculada por enquanto, e, portanto, não houve qualquer gasto ou custo neste sentido”. 

O HuffPost confirmou com fontes do governo que o contrato feito destina-se para a elaboração da campanha chamando o brasileiro a sair do isolamento. O extrato do contrato foi publicado em edição extra do Diário Oficial da União desta quinta-feira (25). 

Segundo o site Poder 360, a agência contratada, a iComunicação, foi aberta em 2002, tem um capital estimado de R$ 250 mil, e ocupa seis salas em um prédio no Setor de Autarquias Sul, em Brasília. 

Reprodução vídeo
Governo prepara propaganda com discurso compatível ao pronunciamento do presidente, defendendo retorno dos brasileiros ao trabalho.

A contratação foi assinada pela secretária de Gestão e Controle, Maria Lúcia Valadares, e pelo secretário de Comunicação Social da Presidência, Fabio Wajngarten, que nem sequer retornou completamente ao trabalho, afastado após o diagnóstico de coronavírus. 

Também de acordo com o Poder 360, o chefe de Wajngarten, o ministro Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) assinou uma portaria na segunda autorizando o subordinado a “celebrar contratação emergencial de serviço de planejamento, desenvolvimento e execução de soluções de comunicação digital”.

Além de uma propaganda que deve começar a ser exibida nos próximos dias, devem ser veiculados vídeos institucionais. 

Na noite de quinta, Flávio Bolsonaro divulgou um vídeo no Facebook que dá o tom da campanha que vem por aí. “Para trabalhadores autônomos, o Brasil não pode parar. Para ambulantes, engenheiros, feirantes, arquitetos, pedreiros, advogados, professores particulares e prestadores de serviço em geral, o Brasil não pode parar”, diz a narração. Ao fim, é exibida a marca do governo federal. O vídeo não foi divulgado oficialmente pelo Palácio do Planalto, contudo, já circula nas redes sociais bolsonaristas. 

O secretário executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo, evitou comentar a medida, esquivando-se das perguntas sobre perguntas a respeito da campanha.

“Estamos na frente de uma casa incendiando. Temos alternativas para combater esse incêndio. Tem gente combatendo com extintor, escada, equipamento mais sofísticos. Todos querem combater esse incêndio. A nossa função nessa história é retirar as pessoas que estão lá dentro. O máximo de pessoas. Infelizmente nem todas vão conseguir sair de lá, mas nós vamos tentar tirar todas. Agora vocês não fiquem esperando que o Ministério da Saúde vai jogar um palito de fósforo, vai colocar oxigênio, vai abanar para aumentar esse fogo. Nós queremos tirar as pessoas de dentro dessa casa. Nos ajudem com isso. Não tentem forçar o Ministério da Saúde a incendiar uma coisa que já está na nossa frente.”

Após o pronunciamento do presidente, várias frentes de apoiadores começaram a se organizar em cidades nos quais os governos ou as prefeituras haviam determinado o fechamento do comércio que houvesse um retorno ao trabalho. 

Já nesta sexta (27), houve carreatas de micro, pequenos e médios empresários, comerciantes de toda ordem, em diversos locais do País, com gritos de “O Brasil não pode parar”. 

Apesar disto, vários governadores voltaram a reforçar as decisões de manter o fechamento de escolas, comércios, parques e outros locais em que pode haver aglomeração de pessoas. 

Até quinta, de acordo com dados oficiais, 77 pessoas já haviam morrido por coronavírus no Brasil. 

 

Veja a íntegra da nota da Secom da Presidência:

A Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) informa que, com base em vídeo que circula desde ontem nas redes sociais, alguns veículos de imprensa publicaram, de forma equivocada e sem antes consultar a Secom sobre a veracidade da informação, que se tratava de nova campanha institucional do Governo Federal.

Trata-se de vídeo produzido em caráter experimental, portanto, a custo zero e sem avaliação e aprovação da Secom. A peça seria proposta inicial para possível uso nas redes sociais, que teria que passar pelo crivo do Governo. Não chegou a ser aprovada e tampouco veiculada em qualquer canal oficial do Governo Federal.

Cabe destacar, para não restar dúvidas, que não há qualquer campanha do Governo Federal com a mensagem do vídeo sendo veiculada por enquanto, e, portanto, não houve qualquer gasto ou custo neste sentido.

Também se deve registrar que a divulgação de valores de contratos firmados pela Secom e sua vinculação para a alegada campanha não encontra respaldo nos fatos. Mesmo assim, foram alardeados pelos mesmos órgãos de imprensa, que não os checaram e nem confirmaram as informações, agindo, portanto, de maneira irresponsável.

Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República