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30/03/2020 19:32 -03

Governo centraliza entrevistas sobre coronavírus para enfraquecer ministro da Saúde

Ministro da Casa Civil diz que demissão de Mandetta não está prevista “no momento”. Titular da Saúde enfatiza que ministério segue "técnico e científico".

A primeira entrevista coletiva diária do Ministério da Saúde sobre a pandemia de coronavírus centralizada no Palácio do Planalto com a presença de outros ministros ficou marcada pela tentativa da Casa Civil de unificar o discurso do governo. No momento que o presidente Jair Bolsonaro diz e faz o contrário do que é proposto pelo seu governo, o chefe da Casa Civil, Braga Netto, e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, passaram parte do tempo minimizando as rusgas internas.

Questionado sobre a permanência de Mandettta, que tem incomodado o presidente por causa de seu protagonismo, Braga Netto negou a demissão “no momento”.  De acordo com ele, o formato da coletiva mudou porque a pandemia atinge transversalmente todo o governo. “O que queremos aqui é ampliar a informação que o cidadão estava tendo. Os planejamentos são centralizados e as ações, descentralizadas”, disse.

No entanto, como o HuffPost mostrou em meados de março, o presidente se queixava que Mandetta deveria se esforçar mais para exaltar os esforços do governo federal e não só do ministério no combate ao coronavírus. Além de ter reclamado que o ministro aparecia demais, o presidente tem atropelado suas recomendações e questionado a ciência.

Nesse cenário, coube a Mandetta enfatizar que as coletivas e o ministério seguem “técnicos” e “científicos”. “Enquanto eu estiver nominado [ministro] vou trabalhar com a ciência, técnica e planejamento”, disse. “Farei o máximo que a gente puder para preservar vidas, procurando mostrar para todos sem distinção qual a razão de termos esse posicionamento técnico, científico.”

Enquanto eu estiver nominado [ministro], vou trabalhar com a ciência, técnica e planejamento.Henrique Mandetta, ministro da Saúde
Andressa Anholete via Getty Images
Protagonismo do ministro da Saúde, Henrique Mandetta, tem incomodado o presidente Jair Bolsonaro. 

Na tentativa de afinar o discurso com o Planalto, o ministro da Saúde disse ainda que o governo é uma “casa onde estamos estressados por conta de um enorme problema para todas as nações do mundo.” 

“Todos nós estamos tentando fazer o melhor pelo povo brasileiro e o presidente, também. O processo em andamento, as tensões são normais pelo tamanho dessa crise. Seria muito pequeno da minha parte achar que esse é meu grande problema”, justificou Mandetta.

Ainda na tentativa de minimizar as rusgas, o ministro afirmou que não vai perder o foco. “O foco é um vírus corona novo que derrubou o sistema mundial. Ele é mais dramático que as guerras mundiais, mais dramático que qualquer coisa anterior”, pontuou.

Repetindo palavras do presidente, como “isolamento vertical” e “segunda onda”, em referência ao desemprego, Mandetta fez um discurso praticamente contrário ao do chefe. Disse que não acredita em quarentena vertical, horizontal, “nada disso”, e que é preciso “moderar para que não tenhamos a segunda onda maior que a primeira”. Segundo ele, esse segundo ponto é consenso.

No entanto, após dizer que isso é consenso, ele afirmou que é preciso que se mantenham abertos apenas os serviços essenciais. Já o presidente tem pedido à população que volte à normalidade.

“Alguns querem que eu me cale. ‘Ah, siga os protocolos’. Quantas vezes o médico não segue o protocolo? Por que que ele não segue? Porque tem que tomar decisão naquele momento. Eu mesmo, quando fui operado em Juiz de Fora, se fosse seguir todos os protocolos, fazer todos os exames, eu teria morrido”, afirmou o presidente no domingo (29).

Ele deu essa declaração após contrariar as orientações do Ministério da Saúde e fazer um passeio pelo comércio de Brasília. No giro por diversos pontos da cidade, o presidente conversou com as pessoas na rua e, ao retornar ao Palácio do Alvorada, chegou a afirmar a jornalistas que estava com vontade de baixar um decreto para as pessoas poderem voltar a trabalhar.

Questionado sobre o passeio do presidente, o Planalto encerrou a coletiva com os ministros e passou para apresentação da parte técnica do Ministério da Saúde. Diferentemente das coletivas do Ministério da Saúde que eram abertas para perguntas limitadas a uma por veículo de comunicação, o Planalto restringiu a participação da imprensa, com direito a apenas 5 perguntas.