NOTÍCIAS
25/03/2020 21:28 -03

Na contramão de Bolsonaro, governadores decidem manter política de isolamento social

Em reunião na tarde desta quarta, governadores chegaram a cogitar tratar apenas com Mourão e ministros.

Reprodução Vimeo @governosp
Governadores de 26 estados conversaram após Bolsonaro afirmar que população precisa retornar à "normalidade" em meio à pandemia de coronavírus.

Enquanto o presidente Jair Bolsonaro insiste na ideia fazer com que a população brasileira retorne à rotina em meio à pandemia de coronavírus, os governadores dos 26 estados - Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, não participou - decidiram manter a política de isolamento social. 

Em reunião nesta quarta-feira (25), os chefes estaduais debateram estratégias para agir, uma vez que o mandatário destoa das orientações da OMS (Organização Mundial de Saúde) e do que vinha sendo estabelecido até então pelo próprio Ministério da Saúde. 

No encontro, que durou mais de duas horas e meia, houve quem defendesse que as conversas dos estados com o governo federal passasse a ocorrer somente através do vice-presidente, Hamilton Mourão - nesta tarde ele recomendou o isolamento e distanciamento social, desautorizando o presidente -, e de alguns ministros-chave, como o da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, e da Economia, Paulo Guedes. Contudo, não houve consenso sobre essa questão.

Governadores evitaram ataques diretos ao presidente e focaram na parte técnica e nos assuntos sanitários e econômicos. Porém, houve intervenções chamando a atenção para a importância de respostas políticas, dado o comportamento de Jair Bolsonaro, que costuma alfinetar governadores e rebater com agenda eleitoral.

Na manhã desta quarta, por exemplo, o presidente afirmou que “certas autoridades estaduais e municipais” estão tomando medidas “além da normalidade”. “São verdadeiros donos dos seus estados, proibindo o tráfego de pessoas, de rodovias, fechado empresas, fechando o comércio”, disse. 

Um dos que defenderam a adoção de uma postura política contundente foi o governador do Espírito Santo, Renato Casagrande. Ele destacou a importância do Congresso e do protagonismo que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tem tido neste momento. Falou ainda na necessidade de se fortalecer o Fórum de Governadores como uma instância pela qual o grupo consegue liderar um movimento nacional. 

Maia participou de uma parte breve do encontro e se colocou à disposição dos chefes executivos locais para acelerar na Casa propostas que garantam liberação de recursos em curto prazo. Se comprometeu a levar pauta econômica dos governadores. 

Apesar da intervenção de Casagrande, apoiada por alguns, a decisão final foi divulgar uma carta conjunta em tom mais neutro, com foco especial em dois temas centrais: as preocupações sanitárias e a agenda econômica. 

Segundo o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), houve um pacto entre os 26 de continuar seguindo “as orientações e diretrizes emanadas da OMS, assim como da comunidade científica, acadêmica e de profissionais da saúde”. “São orientações médicas que têm determinado atitudes preventivas que nós governadores temos adotado em sintonia com aquilo que estamos assistindo em outros países do mundo”, afirmou. 

Dino afirmou ainda que os governadores reiteraram a necessidade de apresentar uma agenda econômica ao governo para que sejam tomadas medidas imediatas não apenas aos trabalhadores autônomos, como também às micro e pequenas empresas. Uma das demandas dos governadores é a suspensão da dívida dos estados não apenas por seis meses, como já anunciado pelo governo federal, mas por 12; abertura de linha de crédito com o BNDES para ampliar em saúde e obras; redução da meta de superávit; além da aprovação do Plano Mansueto. 

Reunião relâmpago

A ideia da conversa desta quarta foi do governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), após o pronunciamento de Bolsonaro em rede nacional de rádio e televisão na noite de terça (24), e convocada pelo chefe do Executivo de São Paulo, João Doria. Mais cedo, o governador paulistano protagonizou uma discussão com o mandatário federal em uma teleconferência com governadores do Sudeste.  

Ibaneis Rocha (MDB), preferiu não comparecer e, na avaliação dos demais governadores, isso se deveu à dependência do DF de recursos dos fundos da União. 

Em nota, o governador da capital federal chegou a amenizar o tom que vem adotando nos últimos dias e disse que Jair Bolsonaro “tem parte da razão, afinal muito municípios pequenos, sem qualquer caso de coronavírus, estão fechando”.  “De outra parte, cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília têm situações diferenciadas. (...) Juízo, paciência e muito apoio das equipes técnicas é o que resolverá esse problema.”

Sem deixar claro se vai suspender decretos que editou, fechando escolas, comércio, shopping, parques e recomendando o isolamento social, Ibaneis disse que “vai manter o foco em cuidar das pessoas”. “Não é hora de politizar ou polemizar”, recomendou.

Antes da reunião da tarde, enquanto Bolsonaro e Doria batiam boca por teleconferência, os governadores do Nordeste conversaram e divulgaram uma nota na qual destacam que seguirão adotando medidas “baseadas no que afirma a ciência”. 

“É um momento de guerra contra uma doença altamente contagiosa e com milhares de vítimas fatais. A decisão prioritária é a de cuidar da vida das pessoas, não esquecendo da responsabilidade de administrar a economia dos estados. É um momento de união, de esquecer divergências políticas e partidárias”. 

Defendendo coordenação e cooperação nacional, destacaram um entendimento de “que cabe ao governo federal ação urgente voltada aos trabalhadores informais e autônomos”. “Agressões e brigas não salvarão o país. Ficamos frustrados com o posicionamento agressivo da Presidência da República, que deveria exercer o seu papel de liderança e coalizão em nome do Brasil”. 

Agressões e brigas não salvarão o país. Ficamos frustrados com o posicionamento agressivo da Presidência da República, que deveria exercer o seu papel de liderança e coalizão em nome do Brasil.Carta aberta de governadores da região Nordeste

Reações de Norte a Sul, Leste a Oeste

Também houve reunião entre entidades que reúnem prefeituras no Brasil para tratar sobre o pronunciamento do presidente, emitir posicionamentos e cobrar respostas. 

A CNM (Confederação Nacional dos Municípios) disse, em nota, que Jair Bolsonaro age de forma “inconsequente” e provoca “intranquilidade e insegurança no povo brasileiro”. 

“A prudência sugere seguir a orientação do Ministério da Saúde e esta é FICAR EM CASA! Logo, deve-se paralisar a atividade econômica não essencial; impedir aglomerações e circulação desnecessária de pessoas; suspender eventos; estabelecer controles até mesmo para as atividades essenciais. Isso certamente é o melhor a se fazer”, diz a nota.

A FNP (Frente Nacional dos Prefeitos) questiona “se o Ministério da Saúde, órgão que emite as orientações técnico-científicas no enfrentamento à crise sanitária, corrobora a fala do presidente”. 

Destaca ainda que “continuarão seguindo, rigorosamente, as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) e, até o momento, do ministério da Saúde”. “Resguardar a vida das pessoas, dos cidadãos brasileiros de todas as idades, deve ser o princípio humanitário de quem tem responsabilidade de liderar, seja nos municípios, nos estados e ainda mais no país.”

Os prefeitos mencionaram a formação do SUS (Sistema Único de Saúde), constituído por leitos municipais, estaduais, federais, de instituições sem fins lucrativos, e disseram que “as declarações do presidente indicam um caminho perigoso de ruptura federativa”. “Diante disso, cabe saber se está em avaliação a completa federalização do SUS”, indagam. Para eles, a postura do presidente é “isolada”.

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost