OPINIÃO
08/12/2019 01:00 -03 | Atualizado 08/12/2019 01:00 -03

Globoplay lança na CCXP séries que prometem repercutir em 2020

Conheça mais sobre as séries que prometem marcar 2020.

TV Globo
Cássia Kiss em 'Desalma' e Letícia Colin em 'Onde Está Meu Coração'.

A convite do Globoplay, estive nesta sexta-feira (07/12) na CCXP 2019 (Comic Com Experience) em São Paulo, considerado hoje o maior evento de cultura pop do mundo.

O canal de streaming do Grupo Globo esteve presente com suas mais novas produções e lançamentos.

Entre elas, Desalma e Onde Está Meu Coração, duas séries que prometem repercutir em 2020. Conversei com autores, diretores e atores.

Estevam Avellar/TV Globo
Rituais de bruxaria em 'Desalma'.

Desalma

A série escrita por Ana Paula Maia, com direção artística de Carlos Manga Jr., mistura drama e terror (dramor? terrama?) na história sobre bruxas que povoam uma comunidade de origem ucraniana no sul do Brasil. O grande chamariz é Cássia Kiss, como a bruxa Haya (foto acima). Pena que a atriz não pôde ir ao evento. E teria sido perfeito se fosse caracterizada.

Concebida para três temporadas de dez episódios cada, a autora Ana Paula Maia ainda não sabe informar se haverá continuação após a primeira temporada. ”A estrutura da narrativa foi pensada para três temporadas. Se vai ter, não sei. A história está toda alinhada, encadeada, em um arco de três temporadas em que o núcleo principal permanece.″ 

O que veremos em Desalma? Ana Paula respondeu: “O terror é o único gênero que eu conheço com subgêneros: trash, serial killers, thriller sobrenatural, pós-terror, terror psicológico. Há lugares no terror que não me interessam. Eu vou onde me interessa. Vamos ver em Desalma um terror sugerido. Não temos a música que assusta: o silêncio é muito importante. Não há o terror gratuito, derramamento de sangue, cenas grotescas, demônios. Não há cenas de violência explícita, apenas alguma coisa sugerida, com muita sutileza, muito pontual e necessária. Temos o estranhamento, o público não sabe exatamente o que está acontecendo e a cada episódio surge algo que o desconstrói.”

“Por que a cultura ucraniana nesse universo sobrenatural? Porque é aterrorizante! Mitologia eslava, ritos pagãos. Me apropriei de um universo muito próprio. Queria contar uma história de terror e descobri um pano de fundo que já estava pronto. Criei uma cidade fictícia e me apropriei desse universo, com a atmosfera que eu queria.”

Ao ser questionado sobre as referências para a direção, Carlos Manga Jr. citou o filme Os Outros (2001, de Alejandro Amenábar), a série alemã Dark (da Netflix) e o cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007): “A ambientação de Os Outros e a atmosfera de Dark, que geram um estado angustiante o tempo todo. Às vezes, essas referências podem ser visuais: guardo em um arquivo para tirar quando preciso. Vou juntando e entra muita coisa, um livro de fotografia, uma pintura. Bergman, traz essa coisa do leste europeu, existencialista. O que me atrai é falar da verdade humana através de um universo inventado. Pegar o existencial e colocar nessa capa pop.”

Cláudia Abreu e Maria Ribeiro, que vivem as outras duas protagonistas da trama, falaram da interpretação.

Cláudia Abreu: “É um tom de interpretação diferente, que foge do naturalismo, não muito comum na TV, nem no teatro. Todos os atores foram preparados para esse mesmo tom, mais contido, falando mais grave. Esses [personagens] ucranianos vivem como em uma ilha fora do Brasil. Eles estão aqui mas não pertencem a esse Brasil. Você se transporta para essa atmosfera, esse sentimento de um outro povo. O silêncio é quase um personagem, porque o não dito é muito importante. Não são só as palavras contam essa história através do diálogo, vários outros recursos ajudam. Há essa densidade e consistência sem a necessidade de que o diálogo entregue tudo.”

Maria Ribeiro completa: “Como se o silêncio dissesse tanto quanto as falas. Você entra em um mistério: que lugar é esse? isso existe? Existe um mundo que não é o meu.” 

Cláudia Abreu finaliza: “São vários mistérios. Uma atmosfera de tensão e suspense, a tensão do que não foi resolvido. Existe uma panela de pressão coletiva em que muitas pessoas guardam segredos e nem sempre são o que aparentam ser.”  

Fábio Rocha/TV Globo
A diretora Luísa Lima dirige Fábio Assunção, Letícia Colin e Mariana Lima

Onde Está Meu Coração

A série é escrita pela dupla George Moura e Sérgio Goldemberg (de Onde Nascem os Fortes, Amores Roubados, O Canto da Sereia), com direção de Luísa Lima e supervisão de José Luiz Villamarim (atualmente à frente da novela Amor de Mãe). É a trama de uma jovem (Letícia Colin) de classe média de São Paulo que se afunda no vício do crack, o que afeta sua família, o pai (Fábio Assunção) e a mãe (Mariana Lima). 

″É uma abordagem de investigação, sem julgamentos. Não de respostas, mas de perguntas”, disse Moura. A questão da droga e da dependência química estão presentes, assim como álcool e remédios controlados. “Não é porque é ilegal ou legal que é mais droga ou menos droga”, complementou o autor. “Esta é sobretudo uma série que fala das relações familiares. De quando uma pessoa da família adoece, todos em volta também adoecem. Um desafio não só para o dependente, mas também para as outras pessoas.”

A diretora Luísa Lima falou da pesquisa: “Buscamos a interlocução de pessoas envolvidas, profissionais que trabalham na área de políticas de saúde, psicanalistas, de apoios nas ruas que foram também dependentes químicos, de crack especificamente. Visitamos a família de uma ex-dependente. Ela mostrou a casa, a mãe a filha e todas falaram como atravessaram essa questão. (...) Fizemos uma roda de partilha com os profissionais e atores onde cada um expressou o seu desejo e a sua visão de mundo muito particular de enfrentar a questão de dependência química também como uma questão social.”

Foram três meses de filmagens na capital paulista e Santos, no litoral, totalmente feitas em locações externas, fora dos estúdios. “Isso deu uma geografia física que tem uma humanidade, uma realidade, e impregnou os personagens vividos pelos atores com muita verdade”, disse Moura. 

Luísa Lima narrou um momento emocionante das gravações com Letícia Colin na cracolândia, em São Paulo: “Fomos para a Estação da Luz, na região próxima da cracolândia. Era um momento da história em que a personagem pisou mais fundo e foi para a rua usar crack, pedir dinheiro para conseguir comprar mais pedras. Para essa cena, fizemos [ao estilo] documental, saímos com a câmera e falamos: Leticia, vai! Tínhamos alguns figurantes espalhados, mas com toda a movimentação real da rua. Ficamos de longe e as pessoas não sentiram a presença da câmera. Letícia foi falando com figurantes, mas também com usuários reais. E essas pessoas não reconheceram ela. Teve um momento muito bonito que conseguimos trazer para a série, quando um grupo de quatro pessoas começaram a conversar com ela e perguntaram: você é usuária de drogas? Ela falou que era, mas estava tentando largar. Letícia se emocionou e eles deram dinheiro para ela. Ficamos chocados: não é possível, eles não estão vendo que é ela. Quando terminou, perguntamos se eles aceitavam assinar o termo de autorização de imagem e eles aceitaram.” 

Questionado do porquê do título Onde Está Meu Coração, George Moura explicou: ”É uma brincadeira poética. No fundo eu acho que a dependência química tem a ver com o buraco existencial que todos nós temos. E tentamos dar conta dele de muitas maneiras: filhos, mulheres, homens, trabalho, droga, bebida. Acho que se você consegue saber aonde está seu coração, as coisas ficam mais possíveis de serem menos atormentadas em sua existência. Não é onde o seu coração está [fisicamente]. E não é uma pergunta, não tem a interrogação. Onde o seu coração estiver, vai nele que vai dar certo!”

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