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21/01/2020 13:49 -03 | Atualizado 21/01/2020 18:05 -03

Glenn Greenwald é denunciado pelo MPF no caso envolvendo a 'Vaza Jato'

Segundo procurador, jornalista teve 'participação direta nas condutas criminosas' dos hackers que acessaram conversas no Telegram de nomes como Moro e Dallagnol.

Adriano Machado / Reuters

O jornalista Glenn Greenwald e outras seis pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público Federal nesta terça-feira (21) pela invasão dos celulares de autoridades no caso que ficou conhecido como Vaza Jato. O grupo é acusado de organização criminosa, lavagem de dinheiro e interceptação telefônica.

Segundo o procurador Wellington Divino Marques de Oliveira, Greenwald teve “participação direta nas condutas criminosas” dos hackers que acessaram conversas do aplicativo Telegram de nomes como o ministro da Justiça, Sergio Moro, e o coordenador da força-tarefa da Lava-Jato de Curitiba, Deltan Dallagnol.

Os outros denunciados são o hacker Walter Delgatti Neto e Thiago Eliezer Santos, que atuavam como mentores e líderes do grupo, além de Gustavo Henrique Elias Santos, Suelen Priscila de Oliveira, Danilo Cristiano Marques e Luiz Henrique Molição.

Greenwald não tinha sido indiciado pela Polícia Federal, mas para o MPF, provas coletadas na investigação demonstram que ele, “de forma livre, consciente e voluntária, auxiliou, incentivou e orientou, de maneira direta, o grupo criminoso, durante a prática delitiva, agindo como garantidor do grupo”.

“Diferente [da liberdade de imprensa] é a situação em que o ‘jornalista’ recebe material ilícito enquanto a situação delituosa ocorre e, tendo ciência de que a conduta criminosa ainda persiste, mantém contato com os agentes infratores e ainda garante que os criminosos serão por ele protegidos, indicando ações para dificultar as investigações e reduzir a possibilidade de responsabilização penal”, escreve o procurador.

Segundo a denúncia, foi encontrado em um MacBook apreendido na casa de Delgatti um áudio de um diálogo entre Molição e Glenn. “Molição deixa claro que ainda estão incorrendo na prática delituosa e realizando o monitoramento ilegal das comunicações telefônicas de diversas contas do aplicativo ‘Telegram’ e solicita ‘orientações com Glenn Grenwald sobre se deveriam baixar ou não o conteúdo de contas do Telegram de outras pessoas antes da publicação das matérias pelo The Intercept, tendo em vista que os investigados estariam monitorando diversas vítimas e elas poderiam apagar o conteúdo de suas contas’”, escreve o procurador.

No Twitter, Greenwald disse que não será intimidado por “autoridades abusando de seu poder”, que continuará exercendo a profissão e considerou a denúncia um ataque à liberdade de imprensa. Ele gravou dois vídeos, um em inglês e um em português.

No vídeo em inglês, o jornalista diz que a acusação veio do governo Bolsonaro (apesar de vir do MPF) e afirmou que integrantes do governo “simplesmente não acreditam em imprensa livre”, nem em democracia e, repetidamente, enaltecem a ditadura. Ressaltou também que a Polícia Federal já havia concluído que ele não tinha participado em nenhuma ação criminosa. 

No vídeo em português, ele destaca que o procurador responsável pela denúncia ”é o mesmo procurador que tentou criminalizar o Felipe Santa Cruz [presidente da OAB] por criticar Sérgio Moro”. “Obviamente ele está abusando de seu cargo para atacar inimigos políticos”, diz.

Em nota, o The Intercept Brasil, site de Greenwald, diz que os diálogos do áudio citados na denúncia “são rigorosamente os mesmos que já haviam sido analisados pela PF (...) e acerca dos quais não imputou qualquer conduta criminosa a Glenn”. 

Reprodução
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Trechos da transcrição do áudio de Glenn com Luiz Henrique Molição, outro acusado, presentes na denúncia. Para procurador, áudio comprova "participação direta nas condutas criminosas".  

Por uma decisão do ministro do STF Gilmar Mendes dada em agosto, Greenwald tinha sido excluído das investigações devido ao sigilo constitucional da fonte. 

O jornalista é responsável pela série de reportagens publicadas a partir de 9 de junho no site The Intercept Brasil, que revela diálogos ocorridos nos bastidores da Operação Lava Jato e põe em questão a relação entre Moro, enquanto era o juiz da 13ª Vara Criminal Federal em Curitiba, e procuradores da Lava Jato.

A Anistia Internacional e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) se manifestaram em favor de Greenwald. 

“Causam-nos estranheza as informações de que Glenn Greenwald foi denunciado sem sequer ser investigado, e esperamos que as autoridades policiais esclareçam os procedimentos legais que embasaram tal decisão”, disse a Anistia, em nota. “A denúncia contra o jornalista é profundamente grave e representa uma escalada na ameaça à liberdade de imprensa no Brasil”, afirma ainda.

A denúncia também foi logo criticada por políticos do PT e do PSOL, partido ao qual pertence o marido de Greenwald, o deputado federal David Miranda.