25/02/2019 10:09 -03 | Atualizado 25/02/2019 10:15 -03

De adolescente isolada a mulher que ama seu corpo: A história de Giovanna Massera

“Não aceitava que tinha lúpus, as marcas do meu corpo e isso me trouxe muita tristeza."

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Giovanna Massera é a 355ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Faz um pouco mais de um ano que decidiu mostrar quem é. Mais do que isso, decidiu olhar para quem é. Giovanna Massera, 22 anos, passou praticamente uma década de sua vida se escondendo. Usava roupas que cobrissem ao máximo seu corpo, calças compridas, meias, mangas longas. Chegou a ficar meses sem sair de casa, não queria ver ninguém – na verdade, não queria que ninguém a visse. Por baixo de todo esse tecido, estava ela. Um corpo com estrias e cicatrizes. Marcas de anos que viveu entre o hospital e sua casa. Marcas da vida que teve. “Achava que eu era uma aberração, não me sentia uma pessoa normal”. Até que resolveu simplesmente ser a pessoa que era. “Decidi que ia dar a cara a tapa, me expus nas redes sociais, contei minha história, mostrei todas as minhas marcas, meio que sai do armário para mostrar quem eu era e comecei a receber muitas mensagens de outras mulheres que passaram pela mesma coisa. Percebi que não estava tão sozinha quanto eu achava e isso ajudou a me sentir alguém”.

Aos 12 anos, Giovanna foi diagnosticada com lúpus eritematoso sistêmico, uma doença autoimune sem cura. Após diversos exames invasivos e dolorosos para identificar a doença, a então pré-adolescente teve que passar a usar um medicamento que causou diversos efeitos colaterais. “Os remédios eram muito fortes e causaram muito inchaço e estrias no meu corpo inteiro. Passei minha infância entre hospital e casa e na minha adolescência comecei a ter problemas de autoestima, depressão e ansiedade”. Nessa época chegou a ficar afastada da escola durante um ano e realmente se isolava e não buscava interação com outras pessoas.

Fingia que era uma delas, escondia minhas marcas. Achava que eu era uma aberração, não me sentia uma pessoa normal.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Por causa das cicatrizes, Giovanna passou praticamente uma década de sua vida se escondendo.

Mais tarde, quando terminou o ensino médio, sentiu necessidade de voltar a buscar uma rotina fora de casa, mas ainda sem se assumir por completo. “Fingia que era uma delas, escondia minhas marcas, fingia que nada existia, mas quando comecei a interagir comecei a me relacionar afetivamente e para ter um relacionamento temos que mostrar quem somos. E comecei mostrando as marcas que eu carregava, o que eu passei e muitas pessoas não se importavam com isso porque gostavam de mim como eu era”. No entanto, houve também quem não lidou bem com a realidade de Giovanna. E foi aí que ela resolveu mudar sua postura. “Conheci muitas pessoas mesquinhas que julgavam, fingiam que estava tudo bem, mas iam embora e foram essas decepções que me fizeram querer mudar minha situação e decidi que não ia mais deixar ninguém me tratar daquele jeito”. Foi quando começou suas postagens na internet.  

Para sua surpresa, não só recebeu bastante apoio como encontrou outras mulheres na mesma situação. Algumas também com lúpus, outras que tomaram o mesmo remédio e tiveram efeitos colaterais semelhantes, adolescentes inseguras com o próprio corpo. “Muita gente precisa ouvir [as coisas que eu digo], passam pela mesma coisa e não conseguem falar e quando alguém fala isso também dá voz a elas. Ao mesmo tempo que eu ajudei as outras pessoas eu encontrei uma força a mais e sinto que devo continuar para mostrar que elas também devem continuar”.

Depois que eu aceitei, eu pude tocar minha vida como ela é. É uma doença sem cura, mas não quer dizer que a pessoa está o tempo inteiro debilitada. Você pode ter uma vida normal.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ela não esquece de tudo o que passou. E cada pedacinho do seu corpo também não.

Giovanna continuou. Mais do que aceitar, ela passou a amar quem ela é. Aos poucos, deixando de se privar de fazer as coisas, realizou um sonho que tinha. Em 2018, fez um ensaio nu. “Sempre quis e tinha muita vergonha. Sabia que teria consequências, mas que eu precisava. Acho que foi o melhor dia do meu ano. Tudo mudou depois que eu fiz aquilo. Tudo mudou dentro de mim, acho que era o que faltava”. Junto com a sua mudança, percebeu que a forma como era tratada pelos outros também passou a ser diferente. Até mesmo as perguntas sobre sua condição e suas marcas reduziram, por mais que ela estivesse justamente deixado de escondê-las. “Percebi que quando parei de me incomodar, as pessoas pararam de perguntar. Acho que parei também de perceber se estão olhando, parei de prestar atenção no que os outros estão achando sobre mim”. 

Precisou enfrentar muita coisa, ela não esquece. Além da dura rotina de ida a hospitais e isolamento, após alguns anos de tratamento, a irmã mais nova de Giovanna também foi diagnosticada com a doença. As coisas ficaram ainda mais complicadas para ela emocionalmente. “Agravou minha depressão, me afastei totalmente da escola, me sentia amaldiçoada por ter acontecido de novo”. Hoje Giovanna sabe que ainda estava em negação de sua doença nesse período. Conta que foi ensinada a não aceitar a situação pela qual passava. “Não aceitava que tinha lúpus, as marcas do meu corpo e isso me trouxe muita tristeza. Só consegui lidar bem com minha saúde quando eu aceitei que tinha lúpus, que tinha minhas marcas e que não ia mudar, não ia dormir e acordar magicamente sem isso. Depois que eu aceitei, eu pude tocar minha vida como ela é. É uma doença sem cura, mas não quer dizer que a pessoa está o tempo inteiro debilitada. Com o tratamento certo, você pode ter uma vida normal”.

Gosto de dizer para as pessoas serem o amor da sua vida, seja sua prioridade. Na minha vida, o centro era o lúpus e eu sempre estava infeliz.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Hoje Giovanna sabe que ainda estava em negação de sua doença nesse período. Mas sabe que isso também tem valor.

É o que busca hoje. Faz um curso online de moda e fotografia – assuntos que sempre amou – e planeja conseguir uma bolsa para fazer faculdade de moda em breve. Além disso, escreve poemas sobre sua luta e seus desafios e iniciou um projeto artístico chamado Mãe Natureza. “Faço com as minhas seguidoras que se voluntariam e realizo fotos e pinturas de corpos reais, para mostrar o corpo que nascemos, o corpo que a vida nos deu”. Assim, além de produzir algo que faz sentido para sua história, ela pode continuar ajudando outras mulheres nesse processo pelo qual também passou. Aliás, diz que frequentemente recebe perguntas de como melhorar a autoestima. Ela sabe bem como é essa angústia, mas sabe também que não existe uma fórmula mágica ou um passo a passo para lidar com isso. No entanto, tem um grande conselho: “Gosto de dizer para as pessoas serem o amor da sua vida, seja sua prioridade. Na minha vida, o centro era o lúpus e eu sempre estava infeliz. Quando eu me coloquei no centro da minha vida foi quando eu pude mudar as coisas”.

Eu me sinto confortável comigo

Eu posso escolher

Eu tenho poder

Eu sou uma grande, gigante mulher

Se ajoelhe diante de mim

Essa noite

[Trecho de poema publicado em seu Instagram]

Hoje, anda tranquila por onde quiser. Está à vontade em sua própria pele e ostenta toda a memória que existe ali. Sabe que não precisa esconder nenhum detalhe.

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.