A Geração Z não quer carro próprio

No Brasil, jovens preferem pedir transporte por aplicativo a ter um carros. Em relatos, três pós-millenials compartilham como são suas rotinas.
Sobretudo de casa para balada e de balada para casa, o jovem Kelvin Marculino, de 24 anos, faz questão de pedir um 99.
Sobretudo de casa para balada e de balada para casa, o jovem Kelvin Marculino, de 24 anos, faz questão de pedir um 99.

É uma tendência mundial: segundo pesquisa Deloitte divulgada neste ano, as gerações Y ou millenials (26-39 anos) e Z (a parcela de 18-25 anos) são as menos interessadas em ter carro próprio. Sobretudo os jovens que são maiores de idade estão mais interessados em mobilidade compartilhada. O levantamento considera a realidade do Japão, Índia, China, Estados Unidos, Alemanha e Coreia do Sul.

Mas no Brasil não é diferente. A edição de 2017 da pesquisa mostra que 62% dos millennials brasileiros não querem saber de adquirir um automóvel e preferem serviços de transporte pedido por aplicativos, como a 99, ao carro particular.

“Pós-millennials querem praticidade; não é só uma questão de grana”, diz Myrian Lund, especialista em finanças e professora de economia da FGV (Fundação Getúlio Vargas). “É uma geração que não está preocupada com status, está mais preocupada em fazer o que quer fazer.”

“Pedir carro por aplicativo traz economia e praticidade. Você ganha tempo, o que é algo tão ou mais importante que o dinheiro. Pessoas mais velhas preferem ter o carro próprio, mas os jovens de agora estão entrando nesse mundo com uma cabeça diferente.”

O HuffPost Brasil conversou com três jovens da geração Z que não querem ter carro próprio ou consideram, talvez, comprar um apenas no futuro. Gabriela, Kelvin e Marcela não moram em São Paulo, mas precisam se deslocar até a capital paulista todo dia para trabalhar e, aos fins de semana, sair com os amigos.

Os três brasileiros da Gen Z usam 99 frequentemente para complementar os longos deslocamentos feitos com transporte público — e compartilham suas experiências diárias com metrô, trem e ônibus. O trio também descreve o que pensa sobre o uso do carro e como deseja que o sistema de transporte seja no futuro.

“Meu sonho é morar bem pertinho do metrô”

Gabriela Mendizabal, 22, moradora de Osasco. É graduanda em Editoração na ECA-USP (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo) e faz estágio em uma editora de livros na Avenida Paulista.

Para Gabriela Mendizabal, uma cidade com o tamanho de São Paulo deveria ter muito mais metrô para as pessoas chegarem mais longe.
Para Gabriela Mendizabal, uma cidade com o tamanho de São Paulo deveria ter muito mais metrô para as pessoas chegarem mais longe.

“Aqui em Osasco passam três ônibus que vão para São Paulo. Então eu saio de casa de manhã, caminho uns 20 minutos para chegar ao ponto, pego um desses ônibus e passo 20 ou 25 minutos nele. Depois, desço no portão da universidade e pego outro ônibus, um circular dentro do campus, em que passo mais uns 20 minutos, para chegar na faculdade. Dá mais ou menos uma hora.”

“Na saída, pego esse circular de novo, aí são mais 20 minutos. Depois, pego metrô, em que levo 20 minutos até a editora [onde trabalho]. Dá uns 40 minutos. Saindo da editora, volto para casa, então eu pego um ônibus que leva uma hora e 20 até Osasco. Aí eu ando por 20 minutos para chegar em casa. A outra opção, na volta, é pegar o metrô e fazer baldeação na estação Pinheiros (linha 4 – Amarela), em que eu subo todas aquelas escadarias, depois pego o trem e vou até a estação Presidente Altino, em Osasco, e depois caminho por 20 minutos até minha casa. Ou eu desço na estação Osasco e chamo 99 ou outro serviço, porque normalmente já é noite e a rua em que moro não é tão movimentada depois das 19h. É por segurança mesmo. Esse é o trajeto que eu faço em dias que tenho aula, em que gasto no dia um total de três horas no deslocamento. Nos dias em que não tenho aula, é um pouco diferente. Ando 20 minutos, pego o trem e vou para o estágio, o que leva mais ou menos uma hora. Na volta, faço o mesmo. Se pela manhã estou muito atrasada, o que é um pouco frequente, acabo pedindo carro [via app] para descer no trem. A volta é sempre mais demorada, geralmente é uma viagem de uma hora e 20.”

“Voltando para casa, peço carro [de aplicativo] três ou quatro vezes por semana. E também aos fins de semana, porque sempre saio no sábado, volto tarde e preciso pedir transporte. Só pego táxi se for 99, porque a viagem é rastreada.”

“Acho o trem o pior de todos. Hoje mesmo, inclusive, atrasei em mais de 40 minutos para chegar em casa porque o trem estava andando super devagar por causa da chuva e estava super cheio. Trens deviam passar com intervalos de tempo menores entre um e outro. São Paulo é uma cidade gigantesca, tem tanta gente, que devia também ter muito mais metrô, ele devia chegar mais longe. Os ônibus precisam ter frotas renovadas. E horário de circulação deles devia ser estendido. O trem fecha à meia-noite no sábado. O que é horrível, porque você é obrigada a dar rolê até meia-noite, sabe? Ou até meia-noite ou até cinco da manhã [quando abre de novo]. Ou você paga super caro no táxi.”

“Eu não quero ter carro. Meu sonho é morar bem pertinho de uma estação de metrô. Eu tenho carteira de motorista, mas nunca dirigi, embora meus pais tenham carro. Eu não me vejo, no futuro, comprando um carro.”

“Com aplicativos, o carro próprio acaba não sendo necessário”

Kelvin Marculino, 24, morador de Carapicuíba, zona oeste de São Paulo. É analista de experiência com o cliente em um banco na capital paulista.

“Ter uma rotina em que você se locomove por uma hora e 40 até seu trabalho é muito sacrificante. Se a gente conseguir amenizar isso, até nossa saúde mental iria melhorar.”
“Ter uma rotina em que você se locomove por uma hora e 40 até seu trabalho é muito sacrificante. Se a gente conseguir amenizar isso, até nossa saúde mental iria melhorar.”

“Eu tenho duas opções: saio de casa e caminho até o ponto e pego um ônibus que me deixa na estação de trem de Carapicuíba. Aí eu pego o trem na Barra Funda, vou até a República e de lá até os Jardins. É a maneira mais rápida de chegar no trabalho. A segunda opção é a que eu ando utilizando mais: caminho até outro ponto que tem perto de casa, pego um ônibus que faz todo o trajeto até o quilômetro dez da Raposo Tavares e desço no metrô Butantã. Aí pego a linha amarela para chegar nos Jardins. Mas, por causa de muvuca, muita gente e até brigas [no metrô], prefiro evitar isso tudo e passo uns dez ou 20 minutinhos a mais nesse ônibus. Pelo menos vou sentado, não preciso fazer baldeação, acaba sendo mais tranquilo para mim, não fico tão cansado. Gasto por volta de uma hora e meia, uma hora e 40 nesse deslocamento.”

“Hoje eu pedi 99 para ir da minha casa até a estação de trem. Se eu acordo um pouco mais cansado, tomo um 99 para ir até a estação. No dia a dia, tento economizar; deixo pra tomar em último caso, com urgência, quando estou atrasado ou alguma coisa assim. Eu uso mais [99] é no meio social mesmo, ir para casa de amigos, do esquenta de um rolê pra outro. A maioria dos meus amigos está aqui em São Paulo [capital]. Quando quero sair, tomar uma breja, ir ao barzinho ou uma balada, é sempre por São Paulo mesmo. É excruciante sair de casa aos fins de semana pra ir pra São Paulo. Já passo a semana toda fazendo o trajeto, aí chega o fim de semana e eu falo ‘não quero cansar não, tô de boas’, então peço 99 na volta.”

“De uns tempos para cá, depois que surgiram esses aplicativos de transporte, eu percebo que cada vez mais o carro acaba não sendo tão necessário, porque tem tanto imposto pra pagar, a manutenção é cara… Se for levar em consideração o quanto eu uso carro hoje em dia, ter um não é prioridade. Posso comprar um no futuro por questão de conforto e grandes viagens, mas por enquanto, enquanto tenho essa vida de jovem, de festas e tudo mais, prefiro esperar um pouco.”

“Já sobre o transporte público, o jovem é acostumado a ele, faz parte da nossa realidade. Imagino que, daqui alguns anos, vou ficar com menos paciência para andar de transporte público, vou querer evitar o horário de pico e enfrentar aquele manancial de pessoas.”

“Acabaram de implementar aquela linha de trem que vai até o Aeroporto de Guarulhos sem parar em nenhuma estação. Isso é sensacional. Se a gente tivesse algo parecido do centro de Carapicuíba para São Paulo, ou então talvez uma extensão do metrô que chegasse até lá, já ia ajudar. Nesse ponto, a realidade do transporte é precária, é bem triste ver 50 pessoas disputando um espaço minúsculo. Se em um futuro as pessoas não tivessem que passar por isso, seria ótimo. Ter uma rotina em que você se locomove por uma hora e 40 até seu trabalho é muito sacrificante. Se a gente conseguir amenizar isso, até nossa saúde mental iria melhorar.”

“É por causa da minha segurança”

Marcela Ribeiro, 24 anos, moradora de Osasco. Trabalha como diretora de arte em empresa cuja sede mudou, há poucas semanas, de Osasco para o distrito de Pirituba (zona noroeste de São Paulo).

Para Marcela Ribeiro, ter um carro implica um custo com o qual não é possível arcar.
Para Marcela Ribeiro, ter um carro implica um custo com o qual não é possível arcar.

“As duas cidades [Pirituba e Osasco] são vizinhas. Eu dei sorte de morar em uma parte de Osasco que tem fácil acesso à Marginal Pinheiros e à Castelo Branco, então não é tão distante, mas ao mesmo tempo, não é tão perto.”

“Ainda estou encontrando uma rota que seja tranquila para chegar ao trabalho. Geralmente, tenho ido com aplicativo, e às vezes voltando também. O trajeto é muito rápido, esse é um dos motivos que têm me feito usar com mais frequência, porque eu levo aproximadamente 18 minutos para chegar no trabalho. Piora muito [ir de ônibus], dá mais ou menos 50 minutos, é uma linha intermunicipal, então ela deve passar por todos os bairros possíveis.”

“Todos os lugares que frequento estão no centro. Meus amigos estão no centro. Sou a única que mora onde Judas perdeu as botas [risos]. Normalmente, vou pro rolê de trem ou metrô, aí saio mais cedo de casa. Na volta, já tô meio destruída — vou pra rolê de música eletrônica que dura 12 horas —, e fico sem condição de andar em uma estação de trem ou metrô. Fora que eu preciso fazer 300 mil baldeações pra chegar em casa e ainda tem que pegar um ônibus [risos]. É uma coisa que já está dentro do que espero gastar na festa, sempre sai R$ 30 ou R$ 40.”

“É difícil de se locomover em São Paulo. Você tem muitas opções, e nem sempre elas cabem no seu bolso. Eu usava táxi antes e o serviço era muito caro e ruim. Acho que, por causa dos aplicativos de transporte, a situação melhorou para as pessoas se locomoverem.

“Estou em um momento de me estabilizar financeiramente. Ter um carro implica em um custo que eu não consigo arcar no momento. Não adianta ter carro e não conseguir mantê-lo. E, como eu bebo quando saio, não adiantaria ele ficar na garagem.”

*Os relatos dos entrevistados foram editados para serem condensados.