LGBT
02/10/2019 03:00 -03

Como regras de estilo e identidade podem prejudicar LGBTs no ambiente de trabalho

Profissionais que não se enquadram em padrões falam sobre como os códigos de vestimenta reforçam sexismo, racismo e repressão da identidade de gênero.

LGBT. Negra. Mulher. Não-binária. Masculina. Feminina. Todas essas são características que fazem parte de quem eu sou e que já incorporei ao longo da vida, mas que nunca pude explorar de forma plena e simultânea. Mas na maior parte do tempo, elas eram como pedaços que eu tinha que pegar, abandonar, trocar de lugar, expressar ou ocultar para mostrar uma versão diferente de mim mesma que as pessoas à minha volta pudessem digerir facilmente.

Temendo ser rejeitada, levei anos para me assumir como pessoa LGBT diante de minha mãe, que é haitiana, religiosa e muito rígida. Comecei a experimentar roupas masculinas elegantes enquanto estava na faculdade, mas nos fins de semana eu voltava para casa e usava os vestidos que ela comprava para mim e a acompanhava à igreja.

Quando me formei e me mudei para Nova York, nos Estados Unidos, finalmente criei coragem para sair do armário. Fui morar com minha companheira e decidi escrever um blog sobre a relação existente entre moda e identidade de gênero. Mas, ao mesmo tempo, eu não sabia o que vestir para ir ao escritório, onde eu trabalhava como profissional de recursos humanos ainda em início de carreira.

Como estudante de RH, eu tinha aprendido que os códigos de vestimenta são usados frequentemente como um jeito de manter um nível padronizado de profissionalismo visual. Mas eu também sabia quanto sexismo, racismo e identidades de gênero que diferem dos padrões estão entranhadas neles.

Courtesy of Doreen Pierre
A autora deste texto, Doreen Pierre.

Levar meu “eu inteiro” ao trabalho significaria ser a única mulher negra e de representação masculina no escritório, que usava camisas abotoadas masculinas, coletes e calças. Eu seria alguém que atrapalharia o “plano mestre”; eu teria que estar preparada para as consequências possíveis.

Vi isso nas maneiras sutis em que fui tratada quando meu cabelo estava comprido e alisado versus quando estava natural, enrolado e cortado mais curto. Meus colegas de trabalho se alegravam cada vez que me viam de cabelo alisado. Quanto mais minha aparência era o que meus colegas brancos viam como sendo “normal” e algo com que eles podiam se identificar, mais oportunidades eu recebia no trabalho.

Voltei a me deparar com essa incapacidade das pessoas de avaliar o contexto mais profundo do que significa ser inclusivo quando abracei meu estilo masculino elegante no trabalho. Um supervisor meu mudou o código de vestimento da empresa para incluir mais opções masculinas ou neutra de gênero para mulheres, mas não incluiu roupas ou acessórios femininos para homens, pessoas não binárias ou mulheres trans que precisassem delas.

Histórias como a minha não são singulares. Elas levaram a mudanças nas leis aqui nos Estados Unidos, com a adoção de medidas como a Lei Crown (a sigla representa “Criar um Local de Trabalho Respeitoso e Aberto ao Cabelo Natural), que visa proteger funcionários e estudantes negros na Califórnia contra a discriminação por usar seu cabelo de forma natural e livre.

Mais recentemente, Aimee Stephens moveu uma ação que chegou até a Suprema Corte. Ela foi demitida por se entender enquanto transexual também no ambiente de trabalho. Caso a Corte tenha uma decisão positiva, ela será fundamental para membros da comunidade LGBT que sofrem desvantagens por não se enquadrarem em padrões estabelecidos no mundo corporativo. 

Conversei com sete pessoas LGBT para saber como fizeram para mostrar exatamente como são no ambiente de trabalho e como foi esse processo.

AB Banks
Na forto acima, Kay Martinez, uma das entrevistadas.

Kay Martinez

Pronomes e identidade de gênero: pronomes neutros, não-conformista de gênero [a chamada “não conformidade de gênero” se refere a comportamentos e aparências consideradas atípicas em indivíduos com o sexo designado]

Idade: 34 anos

Ocupação atual: Facilitadora e criadora de conteúdo na Awaken, empresa que presta consultoria sobre questões de diversidade, igualdade e inclusão.

Gosto de usar terno quando comando apresentações para clientes, mas isso não é exigido. Faço por mim mesma. Ter ternos feitos sob medida me ajuda quando estou tendo dificuldade com a dismorfia de gênero, porque minhas roupas são feitas sob medida para meu corpo.

Nos dias de roupa mais casual, geralmente opto por camiseta, jeans e tênis. Como acessório, a correntinha de ouro com placa com o nome de minha mãe, que nunca sai do meu pescoço. A plaquinha diz “Cecibel”, o nome dela. Minha mãe mudou seu nome quando se naturalizou cidadã americana. Eu uso a corrente para me lembrar de onde eu venho e para resistir à assimilação.

Eu nunca havia sentido que minha identidade e expressão de gênero eram realmente respeitadas ou empoderadas em qualquer lugar onde trabalhei.

Antes de meu trabalho atual como consultora da Awaken, eu nunca havia sentido que minha identidade e expressão de gênero eram realmente respeitadas em qualquer lugar em que trabalhei.

Meu estilo é “andrógino”, ou seja, uma combinação do que as pessoas consideram tradicionalmente masculino e feminino ao mesmo tempo. Embora seja ultrapassado, sou “cross-dresser” no sentido de que uso roupas que vêm do “outro lado da loja” [na seção masculina], algo que muitas vezes traz consequências.

Quaisquer problemas negativos que já tive no trabalho ligados a meu gênero são resquícios do que chamo de “patrulha de gênero” e da imposição do binarismo [homem ou mulher]. Muitas vezes já fui tratada como sendo de outro gênero, questionada e temida, às vezes a ponto de pessoas ameaçarem chamar a polícia para o banheiro “das mulheres”.

Além disso, o conjunto de minha roupa de gênero variante, dos pronomes que uso, minha idade e meu cargo de alto nível, tudo isso já levou algumas pessoas a questionar minha autoridade e credenciais. Algumas pessoas policiam meu tom de voz, dizendo que é agressivo demais ou “insuficientemente feminino”.

Ainda bem que trabalho para a CEO da Awaken, Michelle Kim, uma mulher que criou um local de trabalho inclusivo para transexuais e que realmente se dá ao trabalho de educar-se sobre as questões sociais atuais.

Eboni Sellers
Trent, em momento descontraído.

Trent

Pronomes e identidade de gênero: pronomes neutros, gênero não-binário.

Idade: 32 anos

Ocupação atual: Comissária de bordo numa grande companhia aérea. (Por razões de confidencialidade, não incluímos uma foto de Trent em seu uniforme de comissária de bordo.)

Quando eu comecei a trabalhar para a companhia aérea, usava o uniforme reservado às mulheres. Optei pelas roupas de gênero mais neutro – calças, camisa com gola tradicional ou gola olímpica, colete e blazer – e não usava o vestido, que era outra opção.

Recentemente, quando a empresa fez uma revisão geral e adotou um uniforme novo, não fiquei satisfeita. As peças  eram feitas para ser definitivamente mais femininas que antes. Um dos blazers e o suéter tinham babados. A nova camisa abotoada tinha gola mais feminina, e os coletes eram curtinhos. No primeiro dia em que usamos o uniforme novo, alguém me mostrou uma foto dos tripulantes de outro avião e observei uma pessoa com corpo feminino usando o uniforme masculino. Até aquele momento eu não fazia ideia de que essa fosse uma opção possível.

Mandei um e-mail a meu supervisor dizendo que eu queria trocar meu uniforme do kit feminino para o kit masculino. Me encaminharam para um link no site da empresa para preencher um formulário de “pedido de exceção no uniforme”, que precisaria ser aprovado. Mas o link no site não estava funcionando. Tive que esperar duas semanas até colocarem no site um link que funcionava, e depois disso passei meses sendo empurrada entre meu supervisor, nosso departamento de uniformes, nosso distribuidor e nosso departamento de adaptações, até finalmente ser aprovada e poder usar o uniforme masculino.

Uma pessoa de corpo masculino me perguntou: “Você está usando isso para chamar a atenção?”. Outra disse: “Não acho justo que mulheres tenham o direito de pedir o uniforme masculino – por conta disso, os uniformes do meu tamanho estão em falta”. Muitos de meus colegas fazem questão de me dizer que eu fico bem no uniforme masculino. Isso não me incomoda, mas eu sei que chamo mais atenção do que chamaria se usasse o uniforme feminino. Eu quis apenas vestir alguma coisa em que eu fico à vontade e que é fiel a quem sou.

Ana V.
Lindsay Dawning

Lindsay Dawning

Pronomes e identidade de gênero: ele, homem transgênero

Idade: 28 anos

Ocupação atual: Arquiteto e engenheiro

Uso camisas abotoadas, estampadas e com mangas que tem punho, calças de brim e bijuterias de ouro no ambiente em que trabalho. Quando estou feliz, estreio um sapato novo. Para um visual mais clássico, opto por um Oxford.

Como designer, gosto de linhas simples e enxutas, e meu estilo pessoal é uma extensão de minha estética no design. Eu projeto e construo espaços habitáveis para comunidades. Depois de regar minhas plantas e cantar para elas pela manhã, você me encontrará colocando minhas ideias no papel com minhas canetas de desenho.

Nos últimos cinco anos e meio, trabalhando na minha empresa, fiz a transição da apresentação pessoal feminina para a masculina. Já tive problemas com homens cis brancos no meu escritório tentando me sexualizar ou chamar a atenção para minhas características “femininas”.

Outra coisa que ocorre com frequência é que meus colegas de trabalho tentam uma aproximação por meio da raça. Eles tendem a falar do único amigo negro que têm, como se as experiências de todos os negros fossem iguais.

As pessoas de idade mais próxima à minha têm mais consciência de gênero, por isso criam espaço para mim e eu consigo me sentir vista. Por exemplo, me chamam de “pai das plantas”, e isso por si só já me afirma profissionalmente.

Doreen Pierre
Richard

Richard

Pronomes e identidade de gênero: ela, gênero fluído

Idade: 25 anos

Ocupação atual: Candidata a doutoranda em psicologia crítica de personalidade social no CUNY Graduate Center e professora do City College, de Nova York.

Um dia recebi um e-mail do RH me avisando que o código de vestimenta da empresa não permitia usar shorts. Pedi uma cópia do código, mas meu pedido foi ignorado. Na semana seguinte fui trabalhar de jeans, camisa abotoada de manga curta, brincos de argola e gloss labial. Recebi outro e-mail do RH dizendo que os brincos de argola e o gloss também não eram permitidos pelo código de vestimenta.

Voltei a pedir que me mandassem o código. Recebei um manual de 125 páginas para funcionários e folheei o texto. Encontrei “shorts” mencionado no meio de outras peças de vestuário não aceitáveis, como “camisetas de renda”, “jeans rasgados”, “lycra” e “roupa com insígnias de gangues”. O resto do código de vestimenta usava linguagem indefinida e classista, tipo “roupa respeitável”.

Olhei à volta no meu escritório e observei muitas mulheres cis usando brincos de argola e gloss nos lábios. Foi então que percebi que o problema não era qualquer coisa que eu tivesse feito, era a discriminação escondida atrás de um código de vestimenta expresso em termos vagos.

Olhei à minha volta no escritório e observei muitas mulheres cis usando brincos de argola e gloss nos lábios. Foi então que percebi que o problema não era qualquer coisa que eu tivesse feito – era a discriminação oculta por trás de um código de vestimenta expresso em termos vagos. Através de seus atos, a organização tinha decidido que, como eu era visto como “homem”, eu não devia usar determinadas coisas. E ela empregou a linguagem do “profissionalismo” para implementar seus vieses.

Nunca deixei de usar meus brincos de argola e meu gloss. O RH parou de me mandar e-mails, mas eu resolvi enviar e-mails próprios a meus supervisores (que, por sorte, me defendiam) para dizer o quanto eu estava sendo “pouco razoável” e “pouco profissional”. No final de meu período de trainee, fiz uma apresentação em que critiquei a organização, da maneira mais “profissional” possível, por sua discriminação. A situação me fez sentir impotente e indesejada; fiquei furiosa pensando em quanto trabalho eu fizera por aquela organização.

Por isso, muitas vezes eu não me enquadro nos moldes do que as pessoas esperam que um estudante se pareça, o que dirá um professor universitário. Por conta disso, sou obrigada a reforçar meus conhecimentos, qualificações e habilidades muito mais do que outras pessoas.

K. Coley
Phylicia Coley.

Phylicia Coley

Pronomes: ela, lésbica

Idade: 27 anos

Ocupação atual: Diretora adjunta de uma instituição de ensino superior

As roupas que costumo usar no trabalho incluem calças, camisas abotoadas, suéteres, tênis esporte casuais, sapatos sociais e bolsas de trabalho.

Alguns anos atrás, quando estava fazendo estágio, pediram para eu me vestir mais apropriadamente para um evento específico que teria a presença de doadores e antigos alunos da faculdade. Sugeriram que, se possível, eu não usasse gravata borboleta nem gravata tradicional.

Num emprego anterior, tínhamos a tradição de nos vestirmos mais à vontade às sextas-feiras. Um dia específico, resolvi usar sapatos que deixavam os dedos dos pés à mostra, porque estava fazendo calor. Minha colega na época, que achava que éramos amigas de trabalho, comentou: “Você pinta as unhas do pé? Olha só para você sendo toda girly.”

Tudo isso me levou a me dedicar mais à minha profissão, simplesmente porque as/os estudantes que se identificam comigo talvez precisem de alguém com quem possam se abrir e a quem pedir apoio. Eles me veem como uma representação deles próprios e defensora de suas identidades. Os estudantes costumam aprovar e participar de minhas iniciativas de programação e outras devido ao modo como eu me apresento e me comporto no campus.

Doreen Pierre
Stephanie Cadet.

Stephanie Cadet

Pronomes: ela/dela

Idade: 30 anos

Ocupação atual: Terapeuta de saúde mental e supervisora de atendimento em uma organização sem fins lucrativos que atende a jovens locais. 

Uso calças estampadas ou pregueadas, camisetas com as mangas enroladas, tênis ou sapatos Oxford. Como acessórios, bijuterias, relógios, tatuagens em um braço e algumas menores. No dia a dia, faço sessões de terapia, lido com situações de crise e encaminho jovens para serviços e locais de atendimento. 

Lembro apenas de me sentir constrangida e envergonhada.

Eu estava fazendo estágio numa escola secundária de Nova Jersey onde a maioria dos alunos era branca, e já estava me sentindo pouco à vontade – eu usava calças, camisa abotoada e botas.

Eu usava tudo em tamanho grande demais, porque ainda não tinha definido meu estilo próprio e estava pouco à vontade porque tinha apenas começado a explorar minha masculinidade. Um dia minha supervisora me chamou para a sala dela e disse que eu estava me vestindo de um jeito casual demais e pouco profissional. Não me lembro o que eu respondi nem o que aconteceu a seguir. Lembro apenas de me sentir constrangida e envergonhada.

Depois disso, passei a prestar atenção aos lugares onde me candidatava para um emprego, fazendo questão que fossem ambientes de trabalho casuais, onde as pessoas ficassem à vontade com várias expressões de gênero. Procurei especificamente pessoas que tivessem uma cultura LGBT conhecida. Isso limitou os espaços onde me senti segura para buscar emprego.

Na faculdade, pensei em fazer um MBA, mas sabia que eu ficaria pouco à vontade por várias razões (o ambiente predominantemente branco, a masculinidade tóxica, a heteronormatividade). Então decidi trabalhar com terapia, graças ao ambiente de trabalho que me pareceu mais descontraída. Espero poder mostrar a qualquer pessoa com quem trabalho que seja queer ou não se encaixe nos padrões eurocêntricos que é possível se mostrar autenticamente como quem você é, plenamente.

Courtesy of Vanessa Aviva
Vanessa Aviva.

Vanessa Aviva

Pronomes e identidade de gênero: ela, mulher transexual

Idade: 25 anos

Ocupação atual: Diretora adjunta de contato com a comunidade LGBTQ na Universidade Columbia

Columbia é um lugar mais profissional em termos do código de vestimenta. Há muitos profissionais jovens, então não é um ambiente de terno e gravata, mas não é casual de negócios, é mais formal que isso. O que eu visto depende do que consta da minha agenda a cada dia. Se vou fazer uma apresentação, comandar um workshop ou um treinamento, uso vestido, salto alto ou blazer.

Se vou ter uma reunião com um diretor, um vice-reitor ou outra pessoa de nível superior ao meu, procuro ficar com a aparência mais profissional possível. Se as reuniões do dia serão principalmente com estudantes ou pessoas de nível não tão alto, uso calças, uma blusa ou camisa bonita para dentro da calça e sapatos de trabalho.

Uma coisa que acontece sempre comigo é que os vieses das pessoas se manifestam quando elas falam comigo. Sendo uma mulher trans que pode passar por cis e branca, as pessoas muitas vezes me enxergam como uma pessoa trans “segura”, ou seja, com quem elas podem ficar tranquilas.

Além do meu trabalho mais geral de promover a inclusão de pessoas queer e trans, há instâncias em que as pessoas começam a falar comigo em lugares diversos (por exemplo, no banheiro, no elevador, na fila do café) sobre seus pensamentos aleatórios de gênero e coisas problemáticas que já fizeram ou pensam que estão fazendo.

Francamente, é super cansativo; nem sempre estou com cabeça para interagir ou participar dessas conversas. Em todos esses casos, fica claro que essas pessoas cis ficam mais à vontade na presença daqueles de nós que conseguimos passar por cisgêneros.

As entrevistas foram resumidas e editadas para permitir maior clareza.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido no inglês.

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