POLÍTICA
23/06/2019 01:00 -03

Amigo próximo de Bolsonaro, general Ramos tem apoio de evangélicos e fala com oposição

Sucessor de Santos Cruz na Secretaria de Governo, militar já chega ao Planalto acumulando a tarefa de articulação com Congresso, antes com Onyx Lorenzoni.

Antonio Cruz/ Agência Brasil

Escolhido como novo responsável pela articulação política do governo, o general Luiz Eduardo Ramos, que substituiu Santos Cruz como ministro titular da Secretaria de Governo, dará início à sua missão contando com a simpatia de parlamentares que já o conheciam por sua atuação como assessor parlamentar do Exército

Com a publicação de uma medida provisória na última quarta-feira (19) pelo Executivo, o relacionamento com o Congresso saiu das mãos de Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e passou a ser atribuição do militar. A função é decisiva para aprovação de propostas do governo, como a reforma da Previdência.

Até receber o convite para integrar a Esplanada dos Ministérios, Ramos estava à frente do Comando Militar do Sudeste, maior tropa do País, com sede em São Paulo. Ele deixou a ativa para integrar o primeiro escalão do governo.

Terá a seu favor o fato de ser um amigo próximo de Bolsonaro, o apoio da bancada evangélica e um trânsito até mesmo com a oposição.

Saiba mais, abaixo, sobre o novo homem forte do governo.

 

1) Amigo de Bolsonaro

Nascido no Rio de Janeiro, Ramos tem uma amizade de 46 anos com o presidente. O novo ministro entrou nas Forças Armadas em 1973, ano em que conheceu Bolsonaro, na Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas (SP).

Eles também foram contemporâneos na Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), em Resende (RJ). O ministro se formou aspirante a oficial dois anos depois de Bolsonaro, em 1979.

Nas Forças Armadas, Ramos foi adido militar em Israel e comandante da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti, entre 2011 e 2012. Quando voltou ao Brasil, recebeu a quarta estrela de general, posto mais alto do Exército, e passou a integrar o Alto Comando da força.

No mesmo patamar do general da reserva Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Ramos passa agora a dividir o título de militar mais próximo do presidente.

O novo titular da Secretaria de Governo pilotou a Harley-Davidson que acompanhou Bolsonaro em seu passeio de moto no Guarujá, litoral paulista, no feriado da Páscoa.

Antes da campanha eleitoral, ainda como militar da ativa, expôs publicamente sua posição política. Em julho de 2018, Ramos demonstrou preocupação com a possibilidade de Supremo Tribunal Federal (STF) reverter a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“Não podemos transigir com as leis vigentes, buscando atender a interesses pessoais ou até mesmo político-partidários. Todos nós, militares ou civis, estamos sob o jugo do império da lei”, disse à época, em solenidade do aniversário do Comando Militar do Sudeste.

Assim como Bolsonaro, o novo ministro também é ativo no Twitter, onde tem uma conta desde 2012. Em 31 de março, data dos 55 anos do golpe militar no Brasil, Ramos escreveu que era preciso “ter a grandeza de reconhecer o passado e tirar lições”.

 

2) Militares na segurança

Além da atuação em atividades militares, Ramos foi responsável pelas ações de segurança da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016.

O general também mostrou sua visão sobre questões de segurança pública em abril, quando disse que a ação de militares que dispararam 83 tiros contra um carro no Rio de Janeiro não configurava assassinato.

“Houve uma fatalidade. O pessoal tem colocado assassinato, não é”, afirmou Ramos a jornalistas em cerimônia do Dia do Exército, em 18 de abril, no Quartel General da Força em São Paulo. “Os soldados que estavam em missão na parte da manhã tinham sido emboscados. Quem, como eu, já esteve em uma situação dessa, de muita tensão, muito difícil... A gente, para julgar o que aconteceu, tem que esperar as investigações”, completou.  

O fuzilamento matou o músico Evaldo Rosa dos Santos, de 51 anos, que estava a caminho de um chá de bebê com a esposa, o filho de 7 anos, o sogro e um enteado e teve repercussão nacional. O catador de materiais recicláveis Luciano Macedo também morreu na ação.

Em maio, o Superior Tribunal Militar (STM) concedeu liberdade a nove militares envolvidos na ação. Eles alegaram que teriam confundido o carro do músico com o de criminosos.

Na mesma cerimônia em que Ramos deu sua declaração sobre o caso, Bolsonaro havia afirmado que “o Exército não matou ninguém”, e que o caso foi um “incidente”.

 

3) Comando da articulação política

Para melhorar a articulação política do governo, considerada frágil por parlamentares, Ramos conta com seu histórico. Ele integrou a assessoria parlamentar do Exército quando a área era chefiada pelo atual ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva.

“O que eu aprendi trabalhando três anos e meio como assessor parlamentar é que é mais fácil ser um construtor de pontes do que uma pessoa que evita o relacionamento. As ideias são diferentes, mas nós temos que ter a capacidade de, por meio do diálogo, da conversa, buscar soluções conjuntas para os problemas do Brasil”, disse em vídeo divulgado pelo Palácio do Planalto em 18 de junho, quatro dias após sua nomeação ser formalizada.

Entre os parlamentares, a avaliação sobre a escolha é positiva. “O Exército sempre manteve bons assessores na Câmara e ele é uma pessoa muito acessível, um homem maduro que respeita muito os parlamentares”, afirmou ao HuffPost Brasil o deputado Lincoln Portela (PRB-MG), que estava no comando da bancada evangélica até o início do ano. Segundo ele, Ramos “sempre se deu ao respeito”. ”É uma pessoa com quem se pode conversar porque sempre foi elegante com os parlamentares.”

 

4) Diálogo com a oposição

Ao longo de sua atuação na Câmara, Ramos adquiriu algum trânsito parlamentar, inclusive com deputados de esquerda. Em 20 de maio, recebeu o ex-deputado e ex-ministro da Defesa, Aldo Rebelo, do PCdoB, em São Paulo.

Em março, organizou almoço com participação dos deputados Arlindo Chinaglia (PT-SP) e Ivan Valente (PSOL-SP) para discutir a reforma da Previdência, de acordo com a Folha de S. Paulo.

A reportagem também destaca a boa relação de Ramos com os meios de comunicação, o que teria rendido a ele o status informal de relações públicas do Exército. O militar teria ajudado a articular a participação de Bolsonaro ao vivo no Jornal da Record em 4 de outubro, no mesmo horário do debate presidencial da TV Globo, que o então candidato faltou alegando motivos de saúde, após ser vítima de uma facada em 6 de setembro.

 

5) Apoio da bancada evangélica

O apoio de Ramos no Congresso é reforçado na bancada evangélica. O general também é evangélico e faz algumas citações a Deus em suas publicações nas redes sociais.

De acordo com Lincoln Portela, o ministro nunca demonstrou sua opinião sobre algumas bandeiras da bancada, como a resistência à descriminalização do aborto. Questionado sobre o tema, o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) afirmou à reportagem que “ele é evangélico, pensa como nós pensamos”.

Presidente atual da bancada, Silas Câmara (PRB-AM) adotou um tom de cautela. De acordo com ele, não há nenhuma reunião prevista com o novo ministro. “Vamos aguardar. Caso seja o interesse deles conversar conosco, estaremos abertos”, disse ao HuffPost Brasil.

Quanto à melhora na relação do governo com o Congresso, o parlamentar acredita que a troca não é suficiente se não houver uma mudança mais ampla no Planalto.

“Articulação política depende muito de o presidente querer. Não tem bom articulador sem o presidente e seu governo estarem dispostos a fazê-lo. É aquela famosa frase: ‘Andorinha sozinha não faz verão’”, concluiu Câmara.