OPINIÃO
26/07/2019 02:00 -03 | Atualizado 26/07/2019 02:00 -03

Um manifesto a favor do que há de melhor nos apps de pegação gay

Esqueça o discurso de que os gays concentram o pior das letrinhas LGBT e saem ofendendo todo mundo.

Rawpixel via Getty Images
Há mais casais gays inter-raciais que heterossexuais, mostram pesquisas.

Este texto é uma resposta ao artigo 5 verdades incômodas que aprendi trabalhando num app de pegação gay, publicado pelo HuffPost Brasil no dia 18 de julho.

Eu confesso: vivo em uma “bolha”. Sou cercado por gente que pensa parecido com o que penso, tem posições políticas semelhantes, gosta de conversar sobre os mesmos assuntos e não tem preconceito quanto a eu ser gay.

Não foi sempre assim, claro. Como muitos, já paguei o preço de ser gay em uma sociedade homofóbica e – peço licença para usar – gayfóbica como a brasileira. No entanto, hoje volto a me surpreender quando vejo traços de gayfobia por aí... Na semana passada, vi esses indícios em artigo publicado aqui no HuffPost.

Infelizmente, tenho notado que, dentro da comunidade LGBT+, os homens gays, cada vez mais, têm-se tornado uma espécie de Geni, da célebre música cantada por Chico Buarque: todo mundo quer tacar pedras (inclusive outros gays), e o pior: parecem aceitar isso.

Minha crítica ao artigo do HuffPost parte exatamente daí. Não importa qual linha interpretativa adotemos; no fim, a mensagem que fica é que gays que usam “apps de pegação” são as piores criaturas da Terra. Afinal, diz o artigo, “os perfis estão recheados de ofensas grotescas e preconceito contra homens gordos, negros, velhos, efeminados”.

A principal fonte do texto são os anos de experiência do autor como editor do app Hornet. Bem, dos meus 23 anos como usuário de apps, sites de encontro e chats, devo dizer: o texto é demasiado negativo – e olha que sempre fui “ratinho” de internet, mesmo quando ainda não havia app nem smartphone.

Chat do UOL, Disponível, Manhunt, Clube Amizade... Cite qualquer avô do Grindr, Hornet e Scruff, e é provável que eu já o tenha frequentado – e, sim, também frequentei estes últimos e outros mais que existem por aí. Até escrevia para o site A Capa, do mesmo grupo do Disponível.

Diante de toda essa experiência, gostaria de, por uma questão de equilíbrio, destacar o lado bom dos apps. Em outras palavras: tem perfil preconceituoso lá? Demais. Gente que te aborda de forma pejorativa? Muito. No meu caso, já um coroa, candidatos indesejados a “sugar baby”? Mais do que eu gostaria. Boy que “cozinha” os outros por meses e os trata como estepe? Nada incomum.

Só que os apps também têm muita gente culta, legal, interessante, que gosta dos mesmos programas que você, das mesmas músicas, sabe conversar, tem os mesmos fetiches e alguém para quem você é exatamente tudo que ele sonhou.

Mais: sem o alcance da internet, talvez você nem os encontrasse, sobretudo em lugares onde não há estabelecimentos gays.

LEIA MAIS: 5 verdades incômodas sobre a gayfobia nas críticas dentro da comunidade LGBT

Fora da curva

Minha vida afetiva fala por si. Nunca fui “padrãozinho”, como são chamados hoje os gays de pele clara e barriga tanquinho.

Pelo contrário: já tive sobrepeso, dentes separados e basta ver minha foto para notar que estou longe de ser branco.

 Ainda assim, meus dois primeiros namorados vieram pelo Chat do UOL. O terceiro, veio pelo Manhunt. O quarto, Badoo. O quinto, Hornet; e, se eu tiver sorte, o próximo, que estou conhecendo, é do Grindr.

Isso sem falar de tantos outros, que conheci inicialmente para uma saudável interação sexual que não aconteceu e viraram amigos muito próximos.

Ora, se os apps e os gays que lá estão são tão do mal como retrata o artigo, como se explica isso? Seria eu um “ponto fora da curva”?



Não acredito nisso.  A verdade nua e crua é que os apps têm exatamente a mesma diversidade que o mundo fora dos apps. Gente boa e gente não tão boa assim, e a chance de topar com uma ou outra é praticamente a mesma.

Troy Aossey via Getty Images

Gays da diversidade

Na verdade, em comparação com outros grupos sociais, homens gays têm até vantagens no que diz respeito à empatia e à diversidade, e há estudos e estatísticas que comprovam isso.

Um deles, por exemplo, é do Dr. Gary J. Gates, que, utilizando dados do censo norte-americano de 2010, mostrou que há mais casais do mesmo sexo que são inter-raciais ou interétnicos que casais heterossexuais: 20,6% a 18,3%. Ou apenas 9,5%, se os héteros em questão estiverem casados. Em alguns estados, como no Havaí, os casais de mesmo sexo inter-raciais são até maioria em seu próprio universo: 53%. Será que isso acontece apenas nos Estados Unidos?

Bom, as pesquisadoras brasileiras Fernanda Fortes de Lena e Ana Maria Hermeto Camilo de Oliveira publicaram um artigo em 2014 que se propôs a discutir como gays, lésbicas e homens e mulheres héteros brasileiros escolhem seus parceiros. As pesquisadoras concluem que a endogamia – ou seja, escolher quem é parecido em termos de idade, raça e classe social, por exemplo – acaba sendo uma regra para todos os grupos.

Agora, o interessante é que os homossexuais (incluindo as lésbicas) são mais abertos a terem relações com pessoas de cor e raça diferentes da sua. Nas palavras das autoras, “é interessante verificar que os valores de exogamia de cor/raça entre os homossexuais demonstram que as barreiras de associação entre esses casais parecem ser menos intensas do que para os casais heterossexuais”.

Elas, inclusive, destacam que as uniões entre brancos e pretos em casais homossexuais, por exemplo, são em número superior do que as uniões em que ambos são pretos. Tem mais: casais de mesmo sexo tendem a ser mais exogâmicos, ou seja, namorar pessoas diferentes, quando a variável é a faixa etária!

Antes que você saia acreditando que tudo isso se deve apenas às lésbicas, vale citar um estudo mais antigo, de 1997, publicado por Terezinha Féres-Carneiro, que investigou processos de escolha amorosa, incluindo aí gente que era casada, solteira, recasada e separada.

Féres-Carneiro descobriu que homens gays tendem a enfatizar a atração física e a capacidade erótica dos parceiros em comparação com as lésbicas e homens e mulheres héteros.

Mas há um outro lado: tendemos, por exemplo, a exigir menos fidelidade que os homens héteros e ligamos muito menos para a capacidade econômica de nossos “boys” do que as mulheres héteros, de acordo com o estudo.

Será que, por isso, somos mais coesos e adaptáveis em nossos relacionamentos, como descobriram Clarisse Pereira Mosmann, Eduardo Lomando e Adriana Wagner em 2010?

 

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O caminho do meio

No cômputo geral, o que podemos dizer de tudo isso? Bom, que se você é gay e vai procurar parceiros ou namorados dentro ou fora dos apps, a beleza e o sexo vão ter sua importância, assim também como, em parte, a condição financeira. Além disso, você terá mais chance de namorar alguém com características parecidas com a sua.

No entanto, sobretudo em relação a este último item, não apenas gays não estão sozinhos nesse barco como, diante dos demais grupos, ligam menos e são mais flexíveis e plurais para raça e cor, etnia, idade, fidelidade e, sim, até mesmo para a capacidade econômica de seus parceiros.

Então, sabe quando dizem por aí que héteros ou quaisquer das outras letrinhas da comunidade LGBT+ são mais empáticos e menos preconceituosos que nós? Não é nada assim, e quem prova é a ciência.

Com uma boa margem de segurança, posso dizer que você vai encontrar, com muito mais frequência, casais gays – de homens gays – em que um é sarado e outro ursino, um é mais velho e outro mais novo, um preto ou pardo e um branco, um estrangeiro e um brasileiro, um cis e um trans, do que em todas as outras variantes do espectro sexual.

Claro que isso não significa que gays não tenham seus problemas. Os exemplos negativos trazidos pelo artigo que critico existem aos milhares. Em um app, você vai sempre se deparar com os caras que odeiam negros, gordos, efeminados, são “discretos e fora do meio” e só querem sair com uma versão tupiniquim do Chris Hemsworth (o Thor).

O problema é acreditar que isso é representativo e reflete o que o nosso “G”, tão diverso, é. Na verdade, se você chegou até aqui, vai precisar concordar que até que não estamos mal na fita e somos muito mais pró-diversidade do que o discurso gayfóbico do “homem homossexual como o mal do mundo” tenta reforçar.

Então, que tal não irmos nem tanto ao céu e nem tanto ao mar? Minha dica, de quem tem décadas de janelinha em app e internet? Trabalhe sua autoestima.

A internet pode ser uma completa enganação ou apenas a extensão da vida que você já tem. A decisão é sua – e, se precisar tirar férias, tire, porque faz bem sair dos apps de vez em quando, até para alargar os horizontes.

Apenas não se engane: as chances de você encontrar os bacanas e os sacanas é a mesma que conectado, e cabe a você, do alto da sua estima pessoal própria, saber dizer: “Vade retro, bicha má!”. E é isso.

Este artigo é um depoimento pessoal e não representa ideias ou opiniões do HuffPost Brasil. Assine nossa newsletter e acompanhe por e-mail os melhores conteúdos de nosso site.