MULHERES
13/04/2020 05:00 -03

Por que entrar em contato com relatos de violência sexual é um 'gatilho'

'Caso Prior' lançou luz sobre padrões de agressões no ambiente universitário e muitas mulheres não conseguiram ler as denúncias até o fim.

“As histórias têm muito poder”. É desta forma que a especialista em psicologia social, Mafoane Odara, que está à frente das iniciativas de combate à violência contra a mulher do Instituto Avon, responde ao questionamento: porque entrar em contato com relatos de violência sexual é considerado um “gatilho”?

Esta pergunta voltou a ser feita e o termo “gatilho” começou a ser usado nas redes sociais após denúncias de estupro e tentativa de estupro que envolvem o arquiteto ex-BBB Felipe Prior, 27, virem à público em reportagem da revista Marie Claire. Muitas mulheres relataram que não conseguiram ler a reportagem até o fim. Segundo as três vítimas, os crimes sexuais teriam acontecido em 2014, 2016 e 2018. Um deles durante uma festa e os dois no contexto de jogos universitários da InterFAU, que reúne as faculdades de arquitetura e urbanismo de São Paulo

“Quando uma mulher conta a sua história, que foi atravessada pela violência, ela traz consigo uma cadeia de muitas outras mulheres que também sofreram este tipo de violência seja no presente, ou no passado. E isso tem muito poder, as histórias tem muito poder”, diz a especialista.

Os relatos das três mulheres que denunciaram Prior são impactantes e trazem consigo marcas de um padrão observado em casos deviolência sexual em ambientes universitários: o agressor é conhecido da vítima, há o uso de bebida alcoólica, a normalização da violência e a denúncia tardia da vítima.

“O agressor sexual tem um padrão que se repete com todas as vítimas. Quando ficamos sabendo de um caso, geralmente ele não é o único. Essa é a grande questão. Por que isso é chamado de ‘gatilho’?”, questiona Odara. “Falar sobre isso é um gatilho porque faz com que as mulheres revivam processos dolorosos e muitas delas não estão preparadas para isso”, explica.

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Desta forma, quem já viveu uma situação de violência de gênero — entre elas, estupro, abuso sexual, agressões físicas, relacionamento abusivo — pode se sentir impactada emocionalmente a ponto de “reviver” o trauma e desencadear processos de ansiedade. Eles podem se manifestar em reações físicas como tremores e suor.

Após a matéria ter sido divulgada, as jovens que denunciaram Prior também foram questionadas sobre as denúncias nas redes sociais: “porque só denunciaram agora?”, “porque entraram no carro dele?”, “o que você estava fazendo na barraca com ele”.

“Até no momento de pedir ajuda as mulheres são revitimizadas. Elas são isoladas, culpabilizadas e desacreditadas. Ouvem que estão ‘sonhando, inventando’, uma situação. E isso se agrava quando sabemos que este tipo de violência aconteceu muito cedo na vida de uma mulher”, diz. 

Falar sobre violência sexual é um gatilho porque faz com que essas mulheres revivam processos dolorosos e muitas não estão preparadas para isso.Mafoane Odara, psicóloga e gerente do Instituto Avon

Em 2018, o Brasil atingiu o recorde de registros de estupros, segundo o 13º Anuário de Segurança Pública, realizado pelo FBSP (do Fórum de Segurança Pública). Foram 66 mil vítimas, o equivalente a 180 estupros por dia ― maior número deste tipo de crime desde que o relatório começou a ser feito, em 2007.

O levantamento aponta que a maioria das vítimas é menor de idade (64%), do sexo feminino (81,8%) e que este tipo de violência acontece dentro de casa (75,9%). Em sua maior parte, as vítimas são negras, cerca de 50,9%. O relatório mostra ainda que a cada quatro horas, uma menina com menos de 13 anos é estuprada no Brasil por um conhecido. 

“Estas histórias fazem com que a gente reviva a violência que nós mesmas sofremos. Então, se você não está preparada para lidar com isso porque você, de alguma forma, criou um bloqueio, você dispara um processo doloroso - e por isso é tão importante ter apoio psicológico, alguém de confiança para falar.”

Superar o trauma pode ser doloroso, mas é possível

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"Cada vez que a gente puder falar mais sobre isso, a gente vai conseguir curar esse processo e ressignificar esse trauma", diz especialista.

Para a especialista, é muito importante avisar que há um ‘gatilho’ quando surgem histórias deste tipo tanto na imprensa, quanto em outras áreas. “Mas principalmente nos jornais. Isso é um cuidado com o outro que está lendo”, diz Odara. Ela destaca este cuidado, mas pontua que escrever ou falar sobre os traumas do passado pode ser um caminho difícil, mas ajuda a superá-los.

“Cada vez que a gente puder falar mais sobre isso, a gente vai conseguir curar esse processo e ressignificar esse trauma de forma que ele não nos faça mal, mas, sim, nos potencialize. Isso não quer dizer que a gente vai deixar de ter raiva, de ter medo”, explica. “Mas quer dizer que a gente vai usar todo esse processo para criar um mobilizador de processos de transformação.”

Mas não funciona de maneira igual para todas as vítimas. Por vezes, o que foi vivido impacta em várias áreas da vida, como a sexual. Pode ser que para algumas mulheres a solução seja revisitar o trauma e falar sobre ele, para outras, pode ser que isso não funcione. “Esse processo tem que ser muito bem trabalhado para que mais processos de violência não sejam disparados”, diz. 

Porém, a psicóloga social aponta que há potência não só contar histórias, mas também em ouvi-las; nomeá-las para, então, desnaturalizá-las. “A gente consegue dar nome a um sentimento, a uma emoção sentida, que antes não sabíamos o que era. É aquela sensação de ‘nossa, tinha alguma coisa errada, mas eu não sabia o que era’”, explica. 

Para ela, este também é um processo de começar a ressignificar e renomear como violência. “Não era bem querer, não era cuidado, não era amor. Era violência. A gente naturaliza processos de violência que não são naturais. É fundamental que a gente consiga desconstruir para que essas emoções trabalham a nosso favor. E não contra a gente.”