MULHERES
17/05/2020 13:00 -03

O instinto materno está aqui, mas ele não mata a mulher de antes como achei que matasse

A dona do 16º depoimento do projeto "Prazer, Sou Mãe" é a jornalista Gabriela Lessa, mãe de gêmeos, que tenta equilibrar a mulher de "antes dos filhos" com a de "depois dos filhos".

Divulgação/Silvana Lima Fotografia
Gabriela brinca com seus filhos gêmeos.

Eu sabia que ser mãe muda uma pessoa. Eu sabia que tinha essa de morrer uma mulher e nascer uma mãe, e tantos outros clichês que a gente vê por aí. Mas, ingenuamente, achei que a mudança era linear. Morreu a mulher de antes, nasceu a mãe, pronto. Enterra a morta, faz terapia, supera e segue o baile.

Mas nada na vida é linear. A mudança não acontece ao mesmo tempo, nem na mesma intensidade, em todas as áreas da vida. Tem coisa que muda de uma vez, outras que mudam aos poucos, outras que vão e vêm, e algumas que não mudam nunca... Não estou falando de mudança externa, não. A carreira, o tempo, isso aí todo mundo sabe que muda (apesar de ninguém estar realmente preparada).

Estou falando é da mudança interna. Coisas que eu não imaginava que iam mudar dentro de mim mudaram. E outras que “deveriam” ter mudado (como eu detesto esse “deveria”) insistem em permanecer aqui dentro, aquela mulher de Antes dos Filhos aparecendo vez ou outra pra dar pitaco.

Por exemplo, quem poderia imaginar que a minha autoestima ia melhorar depois dos filhos? A gente escuta falar do corpo mudando, da dificuldade de aceitá-lo, da vontade de voltar ao que era antes da gravidez. Achei que a autoestima ia só piorar. Mas, numa reviravolta da vida, ela deu uma guinada para melhor. Eu, que passei a vida me achando enorme de gorda, descobri em mim aceitação no maior peso que já tive. 

Engraçado como ter filho faz isso. A gente vira leoa até para protegê-los de nós mesmas. Foi ouvindo das pessoas que a minha filha tinha sorte de ter nascido magra (“graças a Deus que puxou ao pai!”), que eu percebi que não podia transmitir a ela a relação péssima que eu tinha com o meu corpo. Não dava para eu ensinar aos meus filhos (sim, eu incluo o menino nessa) que a pior coisa que uma mulher pode ser é gorda. Eu não podia ensiná-los uma relação de amor e ódio com a comida. E eu não podia mais me destruir querendo ser magra, porque eu tinha que estar bem para criar meus filhos. 

E foi assim que, de repente, eu me reinventei. Que eu me vi usando cropped pela primeira vez aos 32 anos, pós-gravidez de gêmeos. Me vi militando na internet, mostrando a minha cara, tirando foto de biquíni! Que loucura, me expus para me proteger. De todas as mudanças que eu previ na maternidade, eu jamais teria imaginado essa. E ela veio, de dentro, e virou parte integral da minha vida. Quem diria!

Em compensação, imaginei algumas mudanças que não se realizaram. Apesar dos meus esforços, das mamadas às 6h da manhã, permaneci notívaga. Mãe não deveria acordar cedo e curtir a manhã com os filhos? O sono não deveria mudar? E eu aqui, igual era antes. Que afronta!

E os momentos de solidão? Achei que aquela vontade de viajar sozinha, ou até mesmo de ficar sozinha em casa, seria facilmente substituída pela vontade de estar sempre com os filhos. Achei que esse amor avassalador seria o suficiente para que eu nunca quisesse me afastar deles. E chega a ser difícil escrever essa confissão, porque a culpa vem forte...

Mas a verdade é que essa necessidade de ficar sozinha, em vez de diminuir, aumentou. Se tornou quase uma vontade de fugir. Uma sensação de estar presa, uma ansiedade que aparece no meio do dia (ou, ainda pior, no meio da noite) e me faz querer sumir no mundo. Como pode? Isso lá é coisa de mãe? Cadê aquele tal instinto materno onipotente? Que tipo de mãe sou eu, que mudo a minha autoestima, mas não mudo o desejo de passar uma semana sozinha em algum lugar?

Eu me pergunto isso diariamente. Por que eu não mudei? Por que todo mundo dá conta e eu não? Será que eu sou a pessoa mais egoísta da face da Terra? 

Divulgação/Silvana Lima Fotografia
Gabriela equilibra o papel de mãe com o de mulher com as próprias necessidades, que precisa também de seus momentos sozinha.
A gente fala muito da culpa materna e da cobrança. Acho que muito dessa culpa vem dessa crença de que a mulher de antes morre e nasce a versão 3.0, aquela versão atualizada que é mulher, mãe, esposa e profissional.

O instinto materno está aqui, é claro. Mas ele não mata a mulher de antes como achei que matasse. E é isso que torna mãe um mar de contradições (olha o outro clichê aí). Porque a cada aparição da mulher de AF (sim, Antes dos Filhos é uma era digna de sigla), a mãe se sente uma bruxa egoísta. Ficam as duas lá, AF e DF, cada uma em um ombro igual àqueles desenhos de anjinho e capetinha.

“Como eu ouso despachar as crianças para a casa da avó pra eu dormir até tarde?”, cobra uma. “Ah, mas se eu não tiver tempo para mim eu surto,” retruca a outra. “É, mas as minhas amigas estão todas lá, dando conta sem babá e trabalhando fora. Como eu sou fraca e preguiçosa!”

E por aí vai...

A gente fala muito da culpa materna e da cobrança. Acho que muito dessa culpa vem dessa crença de que a mulher de antes morre e nasce a versão 3.0, aquela versão atualizada que é mulher, mãe, esposa e profissional. Mas a anterior não morre. A versão 3.0 precisa de reboot de vez em quando. E nós seguimos tentando equilibrar as duas, no meio de todas aquelas outras coisas que temos que equilibrar.

Não tem mulher nova. Tem só um Frankenstein feito de retalhos de todas as mulheres que já fui. Me resta escolher se o enxergo como monstro ou fruto da genialidade.

Gabriela Lessa é a dona do 16º depoimento do projeto “Prazer, Sou Mãe”. Ela é mãe de gêmeos e jornalista. Ela escreve suas impressões sobre autoestima e maternidade no blog Gorda é a Mãe