15/02/2019 00:00 -02 | Atualizado 15/02/2019 00:00 -02

Quando trançar cabelos se transforma em terapia: A força de Gabriela Azevedo

Ela criou o "Trançaterapia" para fazer de seu talento ancestral uma forma de ajudar outras mulheres.

Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Gabriela Azevedo é a 345ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

As primeiras tentativas de Gabriela Azevedo, 32, em trançar um cabelo foi há 20 anos. As cobaias eram suas bonecas. Um ensinamento que veio de sua mãe, mas não só. Ela reconhece que a habilidade com as mãos é uma característica ancestral, a qual alimenta desde a infância. Na adolescência, começou a trançar o cabelo das amigas sem cobrar. Aos 18, começou a trabalhar profissionalmente e pouco depois se tornou a primeira trancista registrada profissionalmente em cartório. Hoje, a empresária comanda o Trançaterapia, um projeto que ensina mães solo a arte de trançar cabelos e promover sua independência financeira com eles.

Se eu não trançasse, se eu não tivesse meu trabalho, talvez não tivesse como sair da depressão.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
No Rio ela descobriu um novo talento: o de ensinar outras mulheres o valor de seu próprio potencial. Isso sem deixar as tranças de lado.

Gabriela nasceu no Rio Grande do Sul, foi criada em Brasília e mora no Rio de Janeiro há apenas seis anos. Ela chegou à Cidade Maravilhosa em meio a um turbilhão de acontecimentos em sua vida pessoal: vivia uma gravidez indesejada e estava atravessando um divórcio. Mesmo assim, conseguiu emprego no salão de beleza que sempre quis.

“Quando você chega e já trabalha onde você sempre sonhou, tem mais ânimo. Mas eu estava super mal, e entendia que se eu não trançasse, se eu não tivesse meu trabalho, talvez não tivesse como sair da depressão”, relembra.

E, então, ela retomou aquilo que entendia como seu maior talento: trançar cabelos. Depois de aprender com as bonecas, aos 19 anos, ela conseguiu montar seu próprio salão de beleza e chegou a dar oficinas em escolas públicas ― isso tudo na capital federal. Mas aí veio a faculdade. Historiadora por formação, no Rio ela descobriu um novo talento: o de ensinar outras mulheres o valor de seu próprio potencial. Isso sem deixar as tranças de lado.

É difícil ser mãe e estar inserida no mercado.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
O Trançaterapia hoje tem turmas de até 30 alunos e promove um curso que dura cerca de três meses.

“Decidi abrir o curso gratuito para mulheres negras com dois filhos ou mais. Como eu entendi que se eu não tivesse essa profissão, não conseguiria sair dessa fase ruim, pensei em outras mulheres que pudessem estar na mesma situação. Nesse curso eu atendia várias mulheres, e chamei uma psicóloga para apoiar o projeto. Então ela começou a cuidar de todas nós”, conta Gabriela.

Muitas de suas alunas já eram graduadas e tinham um longo currículo com o nome de grandes empresas, mas depois da maternidade não conseguiam se recolocar no mercado de trabalho. Ela entendeu, então, que sua missão era reerguer mulheres como ela.

“É difícil ser mãe e estar inserida no mercado. Eu não passei isso porque eu mesma era o meu próprio trabalho, eu sempre estava com meus filhos e levava eles para trançar cabelo comigo. Essas mulheres dependiam de outra empresa, então eu mostro para elas que elas podem ser autônomas.” 

A gente também ensina marketing, como vender o produto, onde pode trabalhar.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
Gabriela entendeu que sua missão era reerguer mulheres como ela.  

O Trançaterapia hoje tem turmas de até 30 alunos e promove um curso que dura cerca de três meses. Também há uma turma de curso técnico e pago, que é a fonte de rende principal para manter o projeto social. Além disso, Gabriela e sua equipe também fazem workshops, têm clientes e organizam eventos.

“Muitas vezes as pessoas que já são formadas vêm fazer o curso e quem está ao redor delas entende como uma profissão inferior. Por isso, temos uma formatura, para elas verem que passaram pelo processo de formação e entenderem que estão investindo no tempo, que é a coisa mais valiosa que tem”, opina a empresária. Lá eles também ensinam todo o beabá das vendas: desde onde vender até o segredo de como vender. 

É difícil para a mulher negra se ver em alguns locais.
Valda Nogueira/Especial para o HuffPost Brasil
O principal não é apenas o empoderamento estético, mas trabalhar a autoestima das mulheres que vão trabalhar com isso.

Hoje Gabriela já consegue se enxergar como empresária, mas reconhece que foi um processo demorado. “Eu sabia que fazia coisas boas e era boa trancista, mas a questão a se posicionar como empresária era difícil. É difícil para a mulher negra se ver em alguns locais, porque não somos aquele padrão de empresariado, eu não me enquadro no que pensam ser empresário. Talvez eu precise de outro nome para me definir”, enfatiza, entre risos.

Com tantas frentes de ação, ela frisa diversas vezes que o principal não é apenas o empoderamento estético, mas trabalhar a autoestima das mulheres que vão trabalhar com isso. 

“O processo de fazer a trança é de uma conversa, entendimento do outro. A trança é um fio condutor para passar a mensagem que a gente quer, que a autoestima quando desenvolvida de dentro para fora consegue, sim, mudar vidas.”

Ficha Técnica #TodoDiaDelas

Texto: Ana Ignacio

Imagem: Caroline Lima

Edição: Andréa Martinelli

Figurino: C&A

Realização: RYOT Studio Brasil e CUBOCC

O HuffPost Brasil lançou o projeto Todo Dia Delas para celebrar 365 mulheres durante o ano todo. Se você quiser compartilhar sua história com a gente, envie um e-mail para editor@huffpostbrasil.com com assunto “Todo Dia Delas” ou fale por inbox na nossa página no Facebook.

Todo Dia Delas: Uma parceria C&A, Oath Brasil, HuffPost Brasil, Elemidia e CUBOCC.