07/03/2019 00:00 -03 | Atualizado 07/03/2019 00:00 -03

A luta de Gabriela Augusto por inclusão e combate ao assédio, LGBTfobia e racismo

Consultora em diversidade quer mostrar que olhar para as diferenças proporciona um ganho para todos.

Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Gabriela Augusto é a 365ª entrevistada do "Todo Dia Delas", um projeto editorial do HuffPost Brasil.

Faz um tempo que caminha para cima e para baixo com a sua caixinha quadrada na mão. Realizou com cuidado e paciência todo o trabalho em dregadê com as cores da empresa que criou. Bate de porta em porta, pergunta pelos donos e senta para conversar. Dentro da caixinha, manuais de bolso com o objetivo de ajudar no combate ao assédio e situações de preconceito e discriminação. Além disso, há também pequenas placas que entrega para quem abraça a causa e topa não só conversar sobre o tema, mas promover ações e mudanças em relação à diversidade. Gabriela Augusto, 25 anos, criadora e diretora da Transcendemos, trabalha para que isso ocorra cada vez mais. “Quero que mais lugares e pessoas estejam conscientes de que é importante você se preocupar com a diversidade, ter uma postura ativa no combate ao assédio, no combate a qualquer tipo de intolerância e preconceito. Quero que o maior número de pessoas esteja consciente da importância de enfrentar esses problemas”.

Quero que cada vez mais lugares e pessoas estejam conscientes de que é importante você se preocupar com a diversidade.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
A Transcendemos surgiu para ajudar empresas a serem mais inclusivas, a lidar e construir esse respeito às diferenças.

Um problema que ela conhece muito bem. Mulher trans, Gabriela relata que passa por situações de constrangimento e discriminação praticamente toda semana. Foi um desses episódios, aliás, que a motivou a fazer algo a respeito. A Transcendemos é uma empresa de consultoria sobre diversidade e inclusão que nasceu após uma dessas experiências. Ela lembra que, há cerca de dois anos, foi comemorar o aniversário da mulher em uma festa e enfrentou problemas no momento da revista. “Logicamente fomos para a fila feminina e quando chegou a minha vez a mulher perguntou se eu era mulher. Falei que sim e ela pediu para eu provar. Perguntei se realmente era necessário isso e que ela só precisava ver minha bolsa e ela disse que não podia me revistar e eu tinha que ir para a fila masculina”. Foi. Sob os olhares e risos de parte das pessoas que também aguardavam para entrar, mais um constrangimento. “Esperei minha vez de novo e o cara falou que também não ia me revistar e não sabia o que fazer. Tiveram que chamar um coordenador e foi uma situação horrível. E eu fiquei pensando o que eu podia fazer a respeito”.

Diante de diversas situações como essa que já sofreu como cliente, achou que atuar com as empresas era um bom caminho já que acredita que deveria ser preocupação de todos os gestores realizarem treinamentos e preparação dos colaboradores para que não ocorram episódios desse tipo. “Foi aí que surgiu a ideia da Transcendemos, para ajudar as empresas a serem mais inclusivas, a lidar e construir esse respeito às diferenças”. Atualmente, os três principais pilares de atuação da consultoria são LGBTs, mulheres e pessoas negras, mas as ações não são voltadas apenas a esses grupos. Segundo Gabriela, o objetivo é sempre expandir a discussão.

A Transcendemos para ajudar as empresas a serem mais inclusivas, a lidar e construir esse respeito às diferenças.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
"Tem que ter uma postura ativa para combater esses males do assédio, LGBT fobia, racismo e todos os tipos de preconceitos."

Foi assim que surgiu a história da caixinha. Essa iniciativa faz parte de uma campanha da Transcendemos, o Empresa de Respeito. “Me dei conta de que se falava de diversidade nas universidades, principalmente nas mais elitizadas, com coletivos mais organizados, mas não ultrapassava os muros. E em empresas também, algo restrito a um grupo de diretores e isso começou a me incomodar e queria massificar, queria que mais lugares estivessem discutindo isso”. Assim começou a campanha.

Com a caixinha, Gabriela conversa com as proprietárias e proprietários de comércios, lojas, diretores de empresa. Aqueles que resolvem participar, selam um compromisso de colocar em prática ações voltadas a inclusão e ao combate à discriminação. “Oferecemos um kit com manuais de bolso para os colaboradores e uma plaquinha. A gente entende que essa ação precisa ser efetiva, as pessoas precisam estar conscientizadas e isso precisa ser sinalizado para quem é de fora”.

A placa não serve apenas para mostra um posicionamento da empresa, mas para trazer segurança para os clientes. “Eu, como mulher trans, fico com o pé atrás de ir a alguns lugares, não sei se vou ser bem tratada. Se for sinalizado, quem é de fora sabe que pode confiar, pode ir lá e também pode levar um currículo, procurar trabalho e não vai ser motivo de piada. A campanha pretende ser efetiva nesses dois sentidos”. E trabalha ainda a transparência de quem participa. Junto com o selo de Empresa de Respeito, há um link que fala sobre as iniciativas específicas da empresa em relação a diversidade. “E isso é um incentivo para que desenvolvam cada vez mais ações”. Podem participar empresas que já realizam esse tipo de trabalho ou aquelas querem desenvolver algo na área e todos podem indicar uma empresa para a campanha pelo site da Transcendemos. 

Eu, como mulher trans, fico com o pé atrás de ir a alguns lugares. Se for sinalizado, quem ‘e de fora saber que pode confiar, pode ir e também pode levar um currículo e não vai ser motivo de piada.
Caroline Lima/Especial para o HuffPost Brasil
Ela sabe que há desafios no caminho e muitas empresas não sabem por onde começar. Mas parte do trabalho está em ter coragem de fazer algo.

Ainda é um trabalho recente, mas Gabriela está feliz com os resultados. Formada em Direito, não chegou a trabalhar na área porque logo começou a dedicar seu tempo e energia a esse projeto maior. Atualmente espera, além de ajudar nesse debate, mostrar para as empresas e a sociedade que olhar para a diversidade e a inclusão é positivo para todos. “Sempre tento mostrar para o gestor ou gestor que se preocupar com a diversidade gera um benefício para todo mundo, a pessoa trans, a negra, a mulher, o dono, o colaborador, é o que a gente chama de valor compartilhado, uma visão de benefício social que uma empresa pode gerar”.

Ela sabe que há desafios no caminho e muitas empresas não sabem por onde começar. Mas parte do trabalho está em ter coragem de fazer algo. “Ainda hoje muitas empresas tem um pé atrás na hora de contratar uma pessoa trans, por exemplo, e pode ser cruel pegar uma pessoa trans e colocar em um lugar que não está preparado, não tem conscientização, a empresa não sabe como fazer com a questão do banheiro, coisas básicas, mas tem que agir e fazer algo a respeito e não só não contratar”.

Por isso ela faz o que faz. “Tenho me empenhado e concentrado minhas energias na mudança. Tem que ter uma postura ativa para combater esses males do assédio, LGBT fobia, racismo e todos os tipos de preconceitos. Todo mundo tem a ganhar com isso”. Faz o que pode com a sua caixa embaixo do braço - e quer muito mais do que isso. Quer mostrar que é possível, sim, ultrapassar muros. Sair da caixa é só o primeiro passo.