“Começamos a escrever nossas próprias canções para podermos transformar as histórias que queríamos contar."
Manchul Kim for HuffPost
“Começamos a escrever nossas próprias canções para podermos transformar as histórias que queríamos contar."
LGBT
17/06/2019 01:00 -03 | Atualizado 20/06/2019 15:46 -03

Em busca da própria voz

G-Voice é conhecido como grupo do "K-pop que briga por direitos humanos" na Coreia do Sul.

Fotos por Manchul Kim

SEUL, Coreia do Sul – Integrantes do coral G-Voice se reuniram em uma tarde recente de domingo no salão onde eles costumam ensaiar, na pequena sede da “Chingusai” (“Entre Amigos”, em tradução livre) ― uma organização sul-coreana de defesa dos direitos dos homens gays.

Fundado em 2003, o coral já foi descrito como o “K-pop em defesa dos direitos humanos”. Mas seu repertório também inclui canções tradicionais do país, além de composições originais, que versam sobre a experiência de seus integrantes sobre como é ser um homem gay na Coreia do Sul.

“Não participo de um coral para brilhar individualmente, cantando sozinho”, disse Jeon Jae-woo, membro fundador e diretor musical do coral ao HuffPost Coreia. “O importante no coral é o processo de ajuste e harmonização de nossas vozes.”

Não há medidas de proteção às pessoas LGBTQ+ na Coreia do Sul, e a discriminação é amplamente vivenciada pela comunidade. Até 2003, a legislação do país ainda classificava a homossexualidade como “danosa e obscena”.

Em 2018, o Festival de Cultura Queer, promovido em Seul, atraiu mais de 120 mil espectadores, segundo a organização do evento. Mas foi marcado por protestos e violência. Grupos cristãos “anti-gays” invadiram o local do evento e agrediram participantes e, segundo relatos da época, a polícia foi omissa.

“A cultura de ódio presente na Coreia é voltada não apenas contra as pessoas queer, mas contra todas as minorias”, disse Kang Myeong-jin, organizador chefe do Festival de Cultura Queer de Seul, falando ao jornal The Korea JoongAng Daily à época. “Há quem queira eliminar esses grupos da sociedade. Mas não podem nos apagar. Estamos aqui e precisamos ser visíveis.”

 

“A jornada semanal para encontrar a mim mesmo”

Um dos ex-integrantes mais conhecidos do G-Voice é o diretor de cinema e militante dos direitos humanos Kim Jho Gwang-soo, uma das poucas celebridades que saiu do armário publicamente no país. O casamento gay não é legalizado na Coreia do Sul, mas em 2013 Kim Jho se casou com seu companheiro Kim Seung-hwan em uma cerimônia simbólica. Durante um show do grupo após a cerimônia, um homem subiu ao palco e jogou fezes e comida contra todos os integrantes do G-Voice, alegando que Deus o mandara fazê-lo.

Para a maioria dos músicos, o coral funciona como uma rede de apoio, algo que eles precisaram construir. “O G-Voice foi a primeira comunidade gay na qual ingressei”, comentou Owen, cuja voz é do registro baixo e que não quer informar seu nome real, porque ainda não saiu do armário publicamente. Ele canta no coral há seis anos. “Se eu não tivesse entrado para o coral, o Owen de hoje não existiria. Para mim, as tardes de domingo são a jornada semanal que faço para encontrar a mim mesmo.”

Eui-seok participou de sua primeira apresentação com o G-Voice dez anos atrás, quando ainda era calouro na faculdade. “Na época eu estava muito confuso em relação à minha identidade”, contou. “Eu não tinha amigos LGBT. Mas, depois de assistir a uma apresentação do G-Voice, ganhei confiança.”

Ele diz que o G-Voice virou quase uma experiência religiosa para ele. “É como ir à igreja, porque você tem sua comunidade.”

 

O K-pop que briga por direitos humanos

A maioria das canções do repertório do G-Voice foi composta pelos próprios integrantes do coral. Palavras que antes ficavam ocultas em seus corações agora viraram músicas que são compartilhadas com o público.

“Começamos a escrever nossas próprias canções para podermos transformar as histórias que queríamos contar”, disse Jeon, cuja música favorita é Confession. A letra da canção inclui estes versos:

Como devo dizer isso?

De manhã? À noite?

Numa carta? Durante o jantar?

Devo falar em voz alta? Ou com minhas lágrimas?

Ou devo simplesmente ficar calado?

Em março de 2019, o G-Voice lançou seu primeiro álbum completo em 16 anos de existência. O disco contém nove canções, entre elas Confession e Open the Closet (Confissão e Abra o armário, respectivamente, em tradução livre). Parte do valor pela venda dos álbuns será revertida para a ONG Chingusai.

Outras entidades coreanas que defendem direitos humanos, assim como o coral, estão dando apoio ao G-Voice e reivindicando proteções legais para as pessoas LGBT.

“As organizações politicamente conservadoras são nossas adversárias principais. Por isso, elas acabam por nos unir, de certo modo”, comentou Jeon.

Rindo um pouco, ele destacou que o coral já foi comparado ao grupo de K-pop tremendamente popular BTS. “Acho que foi a música que nos escolheu, e não nós que escolhemos cantar.”

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Coreia e traduzido do coreano.

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