ENTRETENIMENTO
06/02/2019 01:00 -02 | Atualizado 06/02/2019 01:00 -02

Fyre Festival: As novidades sobre o golpe que virou filme da Netflix e do Hulu

"Não há no inferno fúria como a de um millennial desprezado", diz o advogado Ben Meiselas.

Illustration: Damon Dahlen/HuffPost; Photos: Netflix/Getty

Centenas de pessoas ainda estavam na ilha de Grande Exuma, nas Bahamas, lidando com o fato de que o primeiro “festival de luxo” Fyre Festival era um golpe, quando o advogado da Califórnia Ben Meiselas, do escritório Geragos & Geragos, começou a receber ligações, e mais ligações, e mais ligações...

O escritório, especializado em ações coletivas civis, representou consumidores lesados por empresas como a EOS, fabricante de protetores labiais, e CenturyLink, que oferece serviços de telecomunicações. Seus advogados estavam na agenda de muitos dos ricos brancos de 20 e poucos anos que estavam literalmente ilhados no Caribe.

“Ligaram pedindo ajuda para sair da ilha – gente que conhecíamos de Los Angeles e gente que nos encontrou fazendo uma busca no Google”, disse Meiselas depois da estreia de Fyre Fraud, documentário do Hulu, e alguns dias antes de Fyre: Fiasco no Caribeestrear no Netflix. Meisela aparece em ambos.

“Começamos a receber ligações de literalmente todas as pessoas que estavam na ilha e queriam se envolver no caso”, diz ele. “Acho que você pode dizer que não há no inferno fúria como a de um millennial desprezado.”

Era o dia 27 de abril de 2017, e Meiselas e sua equipe estavam recebendo notícias em tempo real do primeiro e último dia do festival de música mais flopado da história, idealizado pelo empreendedor-que-virou-estelionatário Billy McFarland e seus lacaios, incluindo o rapper Ja Rule.

O Fyre Festival seria uma experiência “imersiva e transformadora” em uma ilha privada que pertencera a Pablo Escobar, um evento com público A, acomodações opulentas, comida com estrelas Michelin e artistas de renome.

O que os dois documentários deixam claro é que, na realidade, o festival foi um grande golpe. Os participantes desembarcaram de um voo fretado de Miami em um canteiro de obras repleto de tendas usadas em casos de desastres naturais e sanduíches de queijo. Nada de mansões ou festas em iates com Kendall Jenner.

Depois da enxurrada de telefonemas, o Geragos & Geragos preparou uma ação coletiva de US$ 100 milhões, que foi apresentada ainda durante aquele fim de semana. O processo ainda está correndo na Justiça.

“O processo viralizou, assim como os tweets, em termos de chamar atenção para o que estava acontecendo”, diz Meiselas. “Aí começamos a receber as informações internas de que também havia fraude financeira.”

McFarland não só deu um golpe nas pessoas que compraram os pacotes do festival; ele teria fraudado investidores e funcionários em milhões de dólares. Agora, a história quase inacreditável do picareta que levou o dinheiro dos ricos e não-tão-ricos é contada não apenas em um, mas em dois documentários. Ambos viraram assuntos na internet e trouxeram de volta à tona o show de horrores que foi o Fyre Festival.

Fyre Fraud, do Hulu, é mais uma comédia sobre um crime real, que detalha a influência desmedida das redes sociais sobre o comportamento humano. Fyre, da Netflix, está mais preocupado com o golpe em si, relatado pelos funcionários da Fyre Media, empresa de McFarland, além das pessoas contratadas nas Bahamas e, é claro, os participantes.

Ambos têm problemas – o Hulu teria pagado a McFarland uma quantia não revelada para que ele desse uma entrevista exclusiva; a Netflix tenta dar uma disfarçada no fato de que a Jerry Media, uma das promotoras do festival, está envolvida no filme como produtora. Mas a conclusão dos dois documentários é a mesma: o golpe de McFarland é uma ótima alegoria para tudo o que está errado com o poder e a influência em tempos de pós-verdade.

 Na entrevista abaixo, Meiselas fala sobre os filmes e conta as novidades sobre a ação coletiva.

Hulu/Twitter
Ben Meiselas in "Fyre Fraud"

Como anda o processo?

Processos assim levam tempo. Uma das principais coisas com as que temos de lidar são os advogados e suas próprias versões do Fyre Festival – tentando entrar junto no processo de outros advogados ou entrando com processos idênticos ao seu. Então todas as ações coletivas foram consolidadas em Nova York, onde fui designado o advogado principal do caso. Estamos processando três réus – Grant Margolin [o responsável pelo marketing do Fyre Festival], Ja Rule [o sócio celebridade] e Billy.

O fato de eles terem decretado falência atrasa as coisas, o fato de ter havido uma investigação criminal atrasa as coisas, mas Ja Rule e Grant já entraram com petições basicamente dizendo que não fizeram nada errado. Nós refutamos, dizendo que, sim, eles fizeram. Estamos esperando algumas decisões do juiz. 

Quantos clientes estão na ação?

Provavelmente perto de 1.000. Não digo com precisão porque, numa ação coletiva, uma ou duas pessoas representam todas as pessoas que estavam lá. Mas, em termos de pessoas em nossa planilha que nos procuraram, digo que cerca de 1.000 ligam frequentemente e perguntam sobre as novidades.

Digamos que eu tivesse gastado milhares de dólares para ir até as Bahamas para um festival de luxo e encontrasse uma situação tipo O Senhor das Moscas. Sabendo que Billy é estelionatário e não tem mais dinheiro nenhum, como é que você vai conseguir que nos reembolsem, sem falar em pagamento de danos punitivos?

Você tem de encarar como um golpe da pirâmide. Pense em Bernie Madoff, MedCap, WorldCom, todas essas fraudes têm tamanhos e formatos diferentes. Mas um golpe da pirâmide é um golpe da pirâmide; as pessoas só pensam em maneiras criativas de aplicá-lo. Em geral, o responsável principal fica sem dinheiro, e é assim que eles são pegos. Em geral são picaretas contumazes. Então você olha o ecossistema em volta dessas pessoas, procurando outros que possam tê-las ajudado e facilitado o golpe.

Neste caso, estamos investigando onde está o dinheiro e quem sabia do golpe, quem ajudou. Algumas dessas questões são remediadas pelos advogados da ação coletiva, outras, pelo executor da falência. O advogado indicado pelo tribunal tem a autoridade para realizar investigações, fazer perguntas e descobrir onde estão as pessoas que ajudaram [na fraude]. Muitas vezes você investiga bancos, credores, outros profissionais – todos que possam ter envolvimento.

Isso inclui todos os investidores por trás de Billy e do Fyre Festival?

Pode ser. Estou sendo intencionalmente reservado porque faz parte da investigação. Mas, em geral, a resposta é: se existe uma parte – quem quer que seja, que sabia, que contribuiu, que participou da fraude e permitiu que ela fosse concretizada ―, sim. Sempre há o potencial de essa parte ser responsabilizada num caso como este.

Em nosso processo e nessa revolta [do público] ao assistir aos filmes, vemos quem eram essas pessoas e como era ridícula a fraude que elas cometeram.Ben Meiselas

Billy foi condenado à prisão por seis anos. Ja Rule e Grant também podem ser condenados à prisão?

Como sou advogado civil, não posso comentar no caso criminal. Mas não sei. Sei que, no meu caso civil, os responsabilizo pela parte monetária. Genuinamente acredito que, como resultado de nosso processo e a maneira como a fraude foi revelada*, o negócio dos festivais e do entretenimento mudaram. 

[*Nota do editor: Depois de a Geragos & Geragos entrar com a ação coletiva, em maio de 2017, Ben Meiselas afirma que delatores acusaram Billy McFarland de vários esquemas fraudulentos para manter sua fortuna. O FBI foi envolvido, e as autoridades descobriram que ele apresentou documentos falsos para inflar em milhões de dólares as receitas da Fyre Media. (A empresa faturava menos de 60 000 dólares. Ele também alterou um extrato relativo a ações do Facebook que ele detinha. Em vez de valer 2,65 milhões, elas valiam apenas 1.499 dólares. McFarland cumpre pena de prisão por enganar investidores, clientes e funcionários.]

Falando em processo criminal, Billy estava em liberdade condicional, mas continuava dando golpes, vendendo ingressos falsificados para o [torneio de golfe] The Masters, para o desfile da Victoria’s Secret e para o baile de gala do Met.

Ele ainda usa a mesma lista do Fyre Festival para tentar roubar as mesmas pessoas. O documentário do Hulu fez um ótimo trabalho ao mostrar isso de todos os ângulos e conectar tudo com o zeitgeist. Não sou imparcial, mas uma das minhas frases preferidas [do documentário] é: “Todo dia acontece um Festival Fyre na Ala Oeste [da Casa Branca]”.

Em nosso processo e nessa revolta [do público] ao assistir aos filmes, vemos quem eram essas pessoas e como era ridícula a fraude que elas cometeram.

São dois documentários concorrentes sobre o Fyre Festival, e você aparece em ambos. Como te procuraram para participar dos filmes?

Recebi e-mails dos dois [risos], dizendo: “Quer participar do meu documentário?” E disse: “Sim, claro. Falo com prazer”. Literalmente todo mundo que me escreve pedindo para conversar, digo as mesmas coisas que estou dizendo para você, palavra por palavra: não posso discutir alguns aspectos por questões de confidencialidade, mas em geral dou uma boa geral sobre o caso.

Foram duas entrevistas separadas. Falei com a equipe do filme da Netflix na Califórnia e com a do Hulu, em Nova York. Elas duraram mais ou menos o mesmo tempo, mas ainda não assisti o filme da Netflix, então não sei qual é meu papel ou com que frequência apareço. 

Você aparece mais para o fim, quando falam das repercussões negativas para Billy. Falando dele, aparentemente, o Hulu pagou para que ele desse entrevista, mas a Netflix se recusou. Ainda assim, o filme da Netflix é produzido pela Jerry Media, responsável pelas redes sociais do Fyre Festival.

Eu não deveria estar te fazendo perguntas, mas você achou [o filme da Netflix] mais positivo para Billy e Jerry?

Netflix

Ele tem mais informações de bastidores, eu diria. Funcionários da Jerry Media e da Fyre Media dizem ter sido enganados por Billy. Ele os teria feito acreditar que participariam de algo incrível. Esses funcionários dizem que acreditaram em Billy, então também foram vítimas, de certa forma. Mas todos estavam com ele até o final, apesar de saber que daria uma merda enorme.

Sim [risos]. Sem dúvida... Dei uma entrevista em Chicago, esqueci o nome da apresentadora, mas ela se autoproclama a voz da cidade. Ela disse: “Esses millennials são muito burros! Pablo Escobar?! Você quer ir para a ilha de um traficante?” Eu respondi: “Discordo, estou processando. Não fiz o marketing, não fui para a ilha!”

Mas alguns dos seus clientes são as pessoas que caíram no golpe.

Bem... há uma frase minha [no documentário do Hulu]: “Seria hilário e espantoso, se não fosse criminoso, e é criminoso, mas ainda é espantoso e um pouco hilário”. Eu tenho um pouco de senso humor a respeito disso tudo. Não sou um daqueles advogados empertigados que acham que estão defendendo um caso perante a Suprema Corte que vai virar precedente. Mas, no fim das contas, é um caso importante do ponto de vista cultural.

Também houve implicações de saúde importantes. Era um pouco de Schadenfreude, uma história engraçada, mas as pessoas ficaram presas na ilha. Estavam ficando doentes. Poderia ter havido mortes ou ferimentos graves. Você vê os penhascos no documentário, poderia ter sido muito, muito, muito horrível. E aí começaram a mandar cartas ameaçadoras para as pessoas que estavam pedindo ajuda no Twitter. Foi aí que as coisas ficaram sérias para mim. Foi quando comecei a simpatizar com os clientes, que são as verdadeiras vítimas.

É o pesadelo de todo pai ou mãe ver seus filhos nessa idade presos em uma ilha, sem ter como sair dali. É assim que encaro os diferentes pontos de vista: millennials ricos presos numa ilha, mas, ao mesmo tempo, vítimas de fraude. Foi tudo uma fraude, desde o princípio. 

Algum dos seus clientes foi procurado para ser entrevistado para os documentários? Eles teriam te procurado para pedir orientação?

Estou tentando lembrar. Não tenho certeza, mas eles não precisariam de minha autorização. Pelo que vi no documentário do Hulu, não reconheci nenhum cliente. 

O que você realmente acha desses documentários concorrentes?

Estou recebendo muitas mensagens de texto e e-mail, e meio que estou virando um meme no Twitter. Veja, de várias maneiras, a nossa ação e o evento criaram esse momento cultural. A esperança é que os documentários façam as pessoas serem mais cautelosas em relação ao que veem nas redes sociais, não simplesmente comprarem o que diz este ou aquele influenciador. Precisamos olhar duas vezes, pensar duas vezes, em relação à publicidade e seus padrões. O Fyre Festival foi pego por vários motivos – particularmente por ter permitido que as pessoas fossem para as Bahamas ―, e Billy é tão narcisista e idiota que tudo virou esse desastre de proporções épicas. Mas acontecem Festivais Fyre todos os dias. Não podemos processar todos. Temos de escolher nossas batalhas.

O que os documentários e o festival dizem sobre a geração millennial e nossa obsessão pelas redes sociais? Os millennials são ingênuos?

Sim, essa é a resposta direta. Mas sempre fomos ingênuos. Nossas leis, regulamentações e capacidade de detectar e aumentar a sensibilidade dessa ingenuidade muda de geração para geração. Agora estamos lidando com forças diferentes, fóruns diferentes, novas variações, diferentes influências. Acho que, de várias maneiras, isso está sendo investigado separadamente por um procurador independente [que apura o caso da influência dos russos na eleição de Donald Trump]. Já houve indiciamentos. E você tem de pensar nas contas falsas de Twitter, o poder dos tweets e dos bots, dos algoritmos usados para fazer publicidade.

As pessoas são ingênuas – e posso ser um eterno otimista – porque todo mundo quer ser feliz, fazer o bem, sorrir e sentir-se protegido em um mundo em que esses sentimentos nem sempre estão presentes. Você liga a TV e todo dia tem uma história terrível: atentados suicidas na Síria, o presidente servindo Big Macs na Casa Branca, é tudo muito deprimente. As pessoas querem fazer diferente! Vemos coisas que nos dão a sensação de felicidade e segurança, e quando isso nos é entregue de forma agressiva, num sistema aperfeiçoado por cientistas sociais... isso nos atinge, nos afeta. As pessoas querem se divertir.

Espero que, conforme vamos evoluindo enquanto cultura, comecemos a encarar esses anúncios como os do Joe Camel [camelo que era mascote da marca de cigarros Camel.] Que possamos enxergar o que eles realmente representam. Pessoas vendendo poções mágicas sempre existiram, assim como os compradores. Só estamos vendo outros formatos, outras manifestações.

Os influenciadores que promoveram o Fyre Festival deram golpe, mas também foram vítimas de um golpe. Você acha que eles são vítimas ou inimigos?

Acho que existe um meio termo. Não acho que eles sejam os inimigos. Acho que eles acreditavam estar promovendo algo que fazia sentido para eles. Mas eles têm de fazer as perguntas difíceis ou antes de receber ou antes de associar seus nomes a alguma coisa. Você sempre ouve falar que os punhos de um boxeador treinado são basicamente armas letais. De certo modo, a influência dos influenciadores é a força de suas vidas profissionais. Mas, quando eles sabem que viraram propagandas ambulantes e assumem esse papel em suas vidas diárias nas redes sociais, têm a responsabilidade de no mínimo fazer perguntas. “Com o que estou associando meu nome? Será que esse produto é seguro?” Porque muitas vezes esses produtos estão sendo vendidos justamente por causa da influência. Fica difícil separar-se completamente deles e não assumir responsabilidades.

Mas também temos de dizer que o Fyre Festival aconteceu numa época em que esse negócio da influência ainda estava sendo aperfeiçoado.

Algum cliente está processando celebridades por promover o festival?

Isso não é objeto de nosso caso agora. O que você teria de determinar é: houve algum tipo de negligência grosseira aqui? No fim das contas, tudo isso será revelado nas investigações, e chegaremos lá. Em termos dos elementos, se eles foram verdadeiramente vítimas de fraude, então não é o caso. Mas, se eles soubessem ou devessem saber e se facilitaram a fraude, podem ser responsabilizados.

50 Cent provavelmente estava certo sobre Ja Rule desde sempre. 50 Cent nos advertiu sobre Ja Rule em 2003.Ben Meiselas

O documentário da Netflix se concentra um pouco mais nos trabalhadores das Bahamas e como eles foram afetados pela confusão. Você tem algum tipo de contato com essas pessoas?

Não. Se pudesse defendê-las, o faria. Mas elas vivem em outro país, e não posso trabalhar como advogado nas Bahamas. Ficaria feliz em defendê-las contra Billy e todas as outras vítimas da fraude, porque elas provavelmente foram as pessoas mais afetadas. É muita exploração ir para lá e pisotear a cultura, o bem estar, a indústria do turismo. Foi um constrangimento tão grande para as Bahamas, para as Exumas e para a população local. Eles foram associados com uma história com a qual jamais deveriam ter ligação.

Quanto tempo você acha que essa ação vai durar até que haja resolução?

A resolução provavelmente leva um ou dois anos de litígio.

O documentário do Hulu mostra um clipe em que [o humorista] Dave Chappelle faz piada com Ja Rule. Você encontrou Ja Rule?

Sim, ele é defendido por vários advogados neste caso. Ele apresentou uma petição dizendo que não fez nada, mas você assiste os filmes e pensa: “Fala sério, cara”.

50 Cent provavelmente estava certo sobre Ja Rule desde sempre. 50 Cent nos advertiu sobre Ja Rule em 2003.

Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.