COMPORTAMENTO
09/06/2019 13:21 -03

Empresas e governos não estão preparados para mudanças no futuro do trabalho, diz especialista

April Rinne, especialista em inovação e economia, alerta que pessoas terão diversas carreiras ao longo da vida e que precisarão sempre desenvolver novas habilidades.

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Estamos no ano de 2019 e é quase impossível imaginar as opções de profissão que nossos filhos terão disponíveis daqui a duas ou três décadas. Na mesma medida, é quase ilusório acreditar que uma carreira de sucesso será sinônimo de um único emprego estável e duradouro.

“Antigamente, a gente tinha como única certeza que se você se dedicasse, tivesse boas notas, conseguisse um diploma, então, você teria a garantia de um bom emprego. Em muitos casos, as pessoas se agarravam a esse emprego e permaneciam fazendo a mesma coisa por um longo período de tempo”, observa a advogada e empresária americana April Rinne, especialista em inovação e economia. 

Hoje, ela alerta: as pessoas vão ter diversas funções e carreiras ao longo de suas vidas. “Os nossos trabalhos vão sempre exigir que a gente desenvolva uma nova habilidade. Alguns skills serão úteis em todas elas, outros serão úteis apenas por uma fase. E em alguns casos, a gente vai precisar desenvolver certos skills para aquela atividade do momento”, disse, em entrevista ao HuffPost Brasil.

Rinne, que vem ao Brasil participar do 8º Congresso Brasileiro de Inovação da Indústria, que tem início nesta segunda-feira (10), também destaca que “diversas plataformas mudaram o jeito com o qual as pessoas ganham dinheiro e fazem negócios”. “Isso era impensável antes de a gente ter o grau de conectividade que nós temos hoje”, afirma.

Em suas palestras e consultorias, a especialista defende, sobretudo, que o futuro do trabalho começa no hoje e que governos, empresas e indivíduos precisam se preparar imediatamente para os efeitos dessas transformações.

“As empresas e os governos não estão suficientemente preparados para compreender os efeitos dessas mudanças. E ainda tem muitas pessoas que estão no mercado de trabalho, mas que simplesmente não estão conscientes de tudo isso”, diz.

Leia trechos da entrevista abaixo.

 

HuffPost Brasil - O que é o “futuro do trabalho”? Estamos mudando o nosso conceito coletivo e cultural do que significa um trabalho, um emprego?

April Rinne - O primeiro a ser dito é que não há respostas fáceis sobre esse tema. São nuances e detalhes que precisamos pensar sobre, todos juntos.

Mas a primeira coisa a ser dita é que o futuro do trabalho não é algo que necessariamente só vá acontecer daqui a 20 ou 30 anos. Grande parte das transformações já estão acontecendo e já estão sendo enfrentadas por todos nós. Só para a gente ter noção: a primeira rede de internet começou a funcionar há 30 anos, o primeiro smartphone foi lançado há 11 anos.

E é irreal deixar de lado os impactos que essas tecnologias imputaram na sociedade. Elas transformaram como as pessoas trabalham, quem pode trabalhar, como o trabalho é visto e como nós pensamos sobre o que é trabalho.

Quase todos os aspectos do trabalho estão mudando de algum jeito. Antes, a ideia que predominava era a de que você teria apenas um emprego por toda a sua vida. Agora, precisamos entender como criar uma rotina flexível e diversa de trabalhos. Nós assistimos a mudança de escritórios físicos e rígidos para espaços de trabalho 100% digitais. Nós assistimos uma ascensão significante de profissionais independentes, autônomos, freelancers, empreendedores. E isso tudo porque nunca foi tão fácil, ou tão barato, fazer isso. 

Diversas plataformas mudaram o jeito com o qual as pessoas ganham dinheiro e fazem negócios. E isso era impensável antes de a gente ter o grau de conectividade que nós temos hoje.

Um outro ponto importante quando falamos em futuro do trabalho, é pensar em qual direção as tecnologias estão caminhando.

Automatização, inteligência artificial, robôs. Será que a tecnologia vai eliminar empregos e habilidades? Qual o impacto disso para as sociedades? O que isso significa para os trabalhadores? E qual o papel das empresas e dos governos nessas questões?

Na minha opinião, as empresas e os governos não estão suficientemente preparados para compreender os efeitos dessas mudanças. E ainda tem muitas pessoas que estão no mercado de trabalho, mas que simplesmente não estão conscientes de tudo isso.

 

O medo do desemprego não é algo novo, nós o experimentamos em outros tempos. Mas agora temos o medo de fazer parte da massa de pessoas “irrelevantes”. Como você vê esse processo? As pessoas perderão sua relevância em relação à tecnologia?

Tecnologia é uma criação humana. Não é algo que caiu do nada na nossa sociedade. Não é algo que a gente não tenha como controlar.

Na realidade, nós temos completo controle sobre o papel que essas tecnologias devem desempenhar. E isso abraça diversos cenários, alguns mais otimistas, outros mais problemáticos.

Ninguém tem a resposta sobre qual vai se sobressair e aqueles que disserem que sabem a resposta, são com essas pessoas que a gente deve se preocupar.

O nosso grande desafio é entender como os indivíduos, como um todo, vão continuar sendo capazes de contribuir para o desenvolvimento da sociedade, como eles vão continuar a perseguir os seus potenciais como seres humanos.

Quando a gente olha para o futuro do trabalho em seu nível mais extremo, a gente também precisa olhar para o que a gente entende sobre aprendizado e educação. Antigamente, a gente tinha como única certeza que se você se dedicasse, tivesse boas notas, conseguisse um diploma, então, você teria a garantia de um bom emprego.

Em muitos casos, as pessoas se agarravam a esse emprego e permaneciam fazendo a mesma coisa por um longo período de tempo. Em geral, as habilidades e os aprendizados que você tinha eram suficientes para conseguir dar conta desse trabalho.

Mas, hoje em dia, a gente vive em um mundo em que esse cenário que foi descrito está acabando. Porque as habilidades, os skills que são demandados, aliados às tecnologias que estão disponíveis para você realizar o seu trabalho, tudo isso está mudando muito rápido.

A gente está deixando um mundo em que o aprendizado, a educação, era algo que você adquiria uma vez na sua vida, para exibir um mundo em que a gente precisa implementar o que chamamos de life-long-learning. Em resumo: a gente nunca vai parar de aprender, a gente nunca vai parar de crescer.

Os nossos trabalhos vão sempre exigir que a gente desenvolva uma nova habilidade. E as pessoas vão ter diversas funções e carreiras ao longo de suas vidas. Alguns skills serão úteis em todas elas, outros serão úteis apenas por uma fase. E em alguns casos, a gente vai precisar desenvolver certos skills para aquela atividade do momento.

As pessoas vão ter diversas funções e carreiras ao longo de suas vidas. Alguns skills serão úteis em todas elas, outros serão úteis apenas por uma fase. E em alguns casos, a gente vai precisar desenvolver certos skills para aquela atividade do momento

O conceito de “desemprego” é relativamente novo se você observar a história da humanidade. A ideia que você teria alguém com capacidade e habilidade suficiente para desempenhar uma função, mas de alguma forma essa pessoa não poderia desempenhá-la, isso é algo novo.

A gente viveu grande parte de nossas vidas em comunidades em que cada um tinha a sua função bem desenhada. Mas entender que existe alguém qualificado e que não pode trabalhar é simplesmente impensável.

O mundo precisa de todo mundo, de todas as boas ideias. A gente vai precisar se preocupar, sim, com o desemprego no futuro. Mas a gente precisa pensar também em como as pessoas podem contribuir e qual a compensação que a gente entrega para a força de trabalho.

Existe um elemento de identidade e dignidade em relação ao trabalho. E óbvio que você precisa pagar as suas contas, mas o ser humano tem a necessidade de se sentir necessário, de se sentir útil. De ter um propósito, de ter um legado.

Ao mesmo tempo que o mundo ultimamente parece ser tão intenso e, por que não, esmagador, as ferramentas que hoje a gente tem disponível para solucionar essas crises são mais inovadoras do que nunca. 

metamorworks via Getty Images

O mercado, as empresas e as startups têm alguma responsabilidade sobre isso?

Do ponto de vista do governo, é imprescindível que a gente pense em mudanças em nosso sistema de educação para garantir esse aprendizado de longa duração.

Também vamos precisar pensar na aposentadoria. Se antes a gente se aposentava aos 65 anos e a expectativa era de 70 anos, hoje, a expectativa está entre 80 e 90 anos. E as pessoas não necessariamente querem se aposentar mais cedo.

Outro ponto é pensar nos direitos dos trabalhadores. Os direitos sempre estiveram atrelados ao fato de você ter um emprego ou não. Mas olhando para um mundo em que as pessoas estão trabalhando cada vez mais de forma flexível e independente, esses a política de direitos também precisa ser atualizada.

Mas tudo isso depende de um movimento no mindset das pessoas e na consciência de que as coisas já estão em seu processo de transformação. Seja você um estudante, um empregado, um empresário ou um político. 

 

Estamos em 2019 e mal podemos imaginar os empregos dos nossos próprios filhos. Na sua opinião, quais são as “habilidades do futuro”?

Eu não acho que exista uma resposta certa ou errada. Mas o que a gente precisa é identificar as habilidades que são demandadas e conectá-las às pessoas.

Precisamos criar acesso para todos os tipos de pessoas. Só assim seremos capazes de inovar, de fato, e co-criar.

Eu acredito em 3 categorias de habilidades que serão essenciais:

Primeiro, as habilidades digitais.

Não é só saber programar ou ser um heavy user das suas redes sociais. A gente precisa desenvolver o que chamamos de inteligência digital. E isso significa saber quando você deve desligar o seu celular e ter uma conversa cara a cara com alguém.

Ou saber como usar com responsabilidade o seu tempo diante das telas. Ainda, saber quando usar a tecnologia ao seu favor. Mas obviamente que noções básicas de programação também são necessárias. E isso servirá para qualquer pessoa, já que esses códigos fazem parte de praticamente todas as esferas na nossa vida.

Segundo, precisamos ter noções de negócio.

A gente precisa falar sobre educação financeira, sobre como fazer um planejamento para o seu negócio e sobre como organizar a sua renda.

Basicamente, a gente precisa falar sobre dinheiro e como usá-lo. Qualquer pessoa precisa ter alguma noção de como desenvolver um plano de negócio. E não é porque todo mundo vai se tornar um grande empresário. As pessoas que vão trabalhar de forma autônoma acabam aprendendo isso na prática, mas um conhecimento prévio pode ajudar.

Terceiro, é preciso ter muita curiosidade.

Isso não é bobagem. Você pode ser curioso sobre qualquer coisa. Eu não estou preocupada sobre os temas que despertam a sua curiosidade. Eu me preocupo que você se mantenha curioso todo o tempo.

É realmente necessário refletir, questionar, buscar novos conhecimentos e acompanhar as tendências e discussões. Eu realmente acredito que a gente tem que trabalhar os nossos aspectos mais humanos, sempre.

 

Desde que o Uber entrou no mercado, a empresa mudou a maneira como as pessoas lidam não apenas com carros ou transporte, mas com tudo. Por exemplo, notamos a “uberização” de outras profissões e relações. Estamos condicionados a viver em uma sociedade em que colocamos em rankings e validamos com “estrelas” os nossos médicos, motoristas, amigos...?

O termo uberização é realmente apropriado, mas aqui não estamos falando só sobre o Uber. Diversas plataformas enfrentam esse mesmo dilema. Porque o grau de conectividade que nós temos hoje em dia está em todas as formas de tecnologias.

Vivemos na economia ‘on demand’, na economia do acesso, na economia do compartilhamento. E todos esses termos falam sobre como o relacionamento que nós tínhamos mudou. O que é engraçado com o Uber é que eles transformaram a mobilidade urbana, eles ajudaram a sociedade de certa forma, mas eles também criaram uma série de novos problemas. Eles aproveitaram uma necessidade de inovação e uma demanda que existia. Mas eles não se atentaram para todos os custos disso.

No caso do Facebook, por exemplo, eu sempre fico pensando como a pessoa que criou o botão de “like” se sente hoje em dia. Por que eu nem preciso te conhecer, eu não preciso falar com você, eu só preciso te dar um like e isso se torna suficiente.

A gente substituiu o que costumava ser relacionamentos com mais significado por relacionamentos que mais se parecem com transações. A gente está começando a aprender que, em um mundo com mais tecnologia, todos nós precisamos ser mais humanos.

 

Em São Paulo, o compartilhamento de bicicletas é uma realidade e um grande negócio. É fácil e sustentável, mas temos alguns problemas que ainda não estamos prontos para resolver, como a segurança dos ciclistas e como esses modais compartilham as ruas com carros e pedestres. Como você vê essa situação? Precisamos de mais regulamentação? 

As empresas, os trabalhadores e os governos precisam trabalhar lado a lado para melhorar como essas plataformas podem desenvolver a nossa sociedade.

A gente precisa de guias. Precisamos estabelecer responsabilidades. Ninguém tem culpa de nada sozinho, a responsabilidade é de todo mundo. E a capacidade de construir soluções também.

O que você descreve em São Paulo acontece no mundo inteiro. Mas é importante lembrar que a economia de compartilhamento não é sobre ter diversas leis, regulamentações ou decisões que vêm de cima para baixo. É mais sobre uma rede descentralizada de pessoas, de usuários.

Então a gente precisa construir consensos. Mesmo que tenhamos boas intenções, cometemos erros, somos seres humanos. E são nesses pontos que é importante colocar regras claras e simples na mesa sobre como a economia de compartilhamento deve operar. 

O que a economia de compartilhamento propõe não é algo simples. É uma mudança de mentalidade e de comportamento, mas elas levam algum tempo para se naturalizarem. Compartilhar bikes como meio de transporte é algo incrível. É bom para as pessoas, para a cidade, para o mundo. A gente quer encorajar isso, mas não podemos largar as pessoas sozinhas para decidir.

Então você precisa sim de algumas regulamentações. Mas, além delas, é preciso construir uma cultura. E isso é feito com coisas simples, como estabelecer limites claro de como e onde as bikes pode trafegar, renovar as ciclovias, falar sobre a importância de tudo isso. É preciso algum esforço para que as regras se tornem costumes.