MULHERES
24/12/2019 06:00 -03 | Atualizado 24/12/2019 08:36 -03

Futebol feminino no Brasil alcançou um novo patamar após a Copa de 2019?

Especialistas afirmam ao HuffPost Brasil que, após a Copa da França, o que ficou foi a visibilidade e quebra de dogmas — mas investimento ainda é pífio e necessário.

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Marta (à esq.) celebra com suas companheiras de time após marcar um gol no jogo contra a Austrália em Montpellier, na França, durante a Copa feminina.

Sete de julho de 2019. O estádio de Lyon, na França, lotado. Quase 58 mil pessoas nas arquibancadas para assistir à final da Copa do Mundo Feminina de futebol. Após a vitória dos EUA sobre a Holanda, o evento ainda não tinha terminado: “Equal pay” (Equidade de pagamento, em tradução livre), gritavam os torcedores. Organizados. O mundial, que bateu recordes em diversos sentidos – público, audiência, venda de camisas femininas, entre outros – levantou bandeiras. E essa sobre a igualdade entre homens e mulheres foi uma das mais importantes. Além dos gritos, diversos cartazes com o mesmo pedido estampavam e davam o tom do que pode resumir um mês de competição.

“Quando você termina uma Copa com o estádio gritando ‘equal pay’ é um negócio que arrepia, que é muito significativo e mostra o poder que temos de levantar essa luta e essa bandeira. Foi emocionante do início ao fim. Vimos uma coisa que todo mundo duvidava que aconteceria”, diz Renata Mendonça, co-fundadora do blog Dibradoras, especializado em futebol feminino.

Ela cobriu a Copa do Mundo in loco neste ano, que considera histórica para a modalidade e também se tornou colunista do jornal Folha de S. Paulo para falar especificamente sobre o tema: um dos motivos é o crescimento da visibilidade no esporte e do engajamento gerado quando as mulheres estão em campo.

É claro que ainda existem muitos desafios, mas de modo geral é possível dizer – ou ao menos acreditar – que após 2019 o futebol feminino não será mais o mesmo.

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Megan Rapinoe (abaixo, de braços abertos) celebra ao lado de Alex Morgan, na final da Copa feminina, em jogo entre Estados Unidos e Holanda. A seleção nore-americana saiu vitoriosa e, meses depois, Rapinoe foi eleita a melhor jogadora do mundo pela Fifa.
Foi emocionante do início ao fim. Vimos uma coisa que todo mundo duvidava que aconteceria.Renata Mendonça, jornalista e co-fundadora do Dibradoras

“Foi um ano histórico. De certa forma, quem trabalha com isso esperava mesmo que essa Copa fosse um momento de virada, mas acho que superou todas as expectativas. A gente não esperava tanto impacto e nem os recordes que ela ia alcançar em termos de audiência e nem o tanto que a visão sobre as pessoas tinham sobre futebol feminino e a seleção se transformou”, diz Renata.

A visão de que o ano foi especial é realmente unânime entre especialistas e profissionais do esporte. Aline Pellegrino, diretora da Federação Paulista de Futebol e ex-jogadora da seleção, destaca as conquistas do período.

“Acredito que estamos encerrando uma temporada fantástica, talvez a mais importante da história do futebol feminino do Brasil. A Copa do Mundo da França serviu como um grande impulsionador para a modalidade. Em 2019, tivemos a visibilidade que sempre nos faltou, e isso trouxe torcida, imprensa, parceiros, patrocinadores”.

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Aline Pellegrino, durante a partida contra a China na Copa feminina de 2007.

E, após os bons resultados, o ano continuou muito positivo para a modalidade. Samara Mozem, professora e técnica de futsal, lembra dos outros eventos no país que tiveram uma atenção inédita.

“Além disso [Copa Feminina] tivemos outros momentos importantes para o futebol feminino como a transmissão em canal aberto do Brasileirão e da final do Paulista, jogo que inclusive lotou o estádio do Corinthians”.

Nos dois casos, além de audiência houve público, torcida, pedido para fotos com as jogadoras. Houve procura e reconhecimento. 

Ninguém assiste futebol feminino, mesmo?

De quatro em quatro anos, o Brasil ― e outros países participantes ―-, para quando a seleção masculina entra em campo na Copa do Mundo. Além das ruas pintadas de verde e amarelo pelo País, comércios, bancos e repartições públicas fecham; fábricas paralisam atividades e funcionários são dispensados. Mas essa tradição não se aplicava, até agora, à Copa feminina.

Criado em 1991, o torneio mundial foi ignorado durante muitos anos não só por emissoras de televisão abertas e fechadas no Brasil, mas pelo público em geral. Até 1979, a prática do esporte era proibido para mulheres no País. Em 2019, pela primeira vez, quatro canais nacionais obtiveram o direito de transmissão ao vivo da competição e a Rede Globo transmitiu todos os jogos da seleção brasileira. Na Copa de 2015, apenas alguns jogos foram transmitidos pela Bandeirantes, SporTV e TV Brasil — e havia pouco interesse sobre o tema. 

Um legado claro que este ano deixa para a modalidade é este: o espaço na mídia. “O legado principal é a visibilidade. Porque a luta sempre foi forte, as histórias sempre foram fortes, o futebol feminino sempre foi forte. A diferença é que a mídia transmitiu, a mídia mostrou, a mídia deu visibilidade e isso fez com que mais pessoas tomassem conhecimento e se interessassem e os números mostram o potencial disso”, comenta Renata. Rafael Alves, criador e editor chefe do site Planeta Futebol Feminino, também destaca esse ponto. “Eu acho que o futebol feminino deixou uma impressão muito boa sobre a sua evolução e aquele papo de ‘ninguém assiste futebol feminino’ caiu por terra de vez”.

Além do espaço, outra mudança importante foi a abordagem dada ao evento. Talvez pela primeira vez, ele tenha sido tratado como um evento esportivo realmente profissional como todos os outros.

“Antigamente, quando se cobria uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada no futebol feminino tudo que se falava era sobre os jogos e aí vinha uma cobertura de ‘coitadinhas’ porque elas perderam e não tem estrutura nenhuma de investimento, nem tem onde treinar, não tem clube e era aquele coitadismo todo e acho que esse ano a abordagem foi muito mais em contar essas histórias e falar: ‘olha existem mulheres incríveis que estão lutando pelo espaço do futebol feminino que venceram muitos obstáculos para poder jogar bola’. E aí acho que essas histórias conquistam”, analisa Renata.

Audiência expressiva derrubou dogmas da modalidade

Futebol feminino não é chato e mulheres não sabem jogar? Não é bem o que a Copa feminina de 2019 mostrou. Dados divulgados em outubro de 2019 pela Fifa apontam que o Mundial hoje é mais do que um evento esportivo, é um fenômeno cultural, segundo Gianni Infantino, presidente da organização que gere as modalidades do esporte mais popular do mundo.

 

Levantamento aponta que 1,12 bilhão de pessoas acompanharam a Copa feminina de 2019 pela TV ou alguma plataforma digital. Em relação à Copa de 2015, realizada no Canadá, a média de audiência por partida mais do que dobrou – à época, cada jogo do Mundial foi visto por cerca de 8,39 milhões; desta vez, foram 17,27 milhões de espectadores por jogo.

 

E o Brasil teve um papel significativo para construir esses números. A final entre Estados Unidos e Holanda foi a mais vista da história do Mundial e a maior audiência foi registrada justamente em território brasileiro, com mais de 19 milhões de espectadores. Já a maior marca de audiência de todas as Copas femininas também aconteceu por aqui: mais de 30 milhões de pessoas assistiram a partida entre Brasil e França pelas oitavas de final.

A jornalista destaca ainda a importância da rede Globo, principal emissora do país, ter transmitido o evento e levado o assunto para a pauta de verdade e não deixando somente para programas esportivos. No entanto, ela lembra que isso também é um reflexo de uma luta e um trabalho maior.

“Não acho que a Globo resolveu transmitir a Copa porque um dia alguém acordou e falou que deve ser legal. Ela transmitiu porque ela foi cobrada para transmitir. Foi cobrada por patrocinadores, foi cobrada pelos espectadores e acho que cada vez mais as pessoas e as mulheres, principalmente, estão tomando uma consciência e por isso é um ano histórico.”

O futebol feminino está em um novo patamar após 2019?

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Marta durante jogo contra a França, realizado em Le Havre, na França.

Apesar do clima muito positivo, bons números e motivos para nunca esquecer deste ano, é possível dizer que a modalidade não será mais a mesma após isso tudo? “Acho que o processo de mudança do patamar do futebol feminino está em andamento e não tem mais volta”, opina Aline. Rafael tem a mesma opinião. “Certamente não será o mesmo. O que nos deixa dúvidas é se depois da Olimpíada essa adesão toda irá continuar. Mas é fato que o futebol feminino entra com muito mais força em 2020 do que em 2019”.

Renata também concorda, mas lembra que há uma parcela de atletas que são um pouco mais céticas com a questão. “Principalmente para as jogadoras mais velhas e mais antigas, elas sentem que é difícil falar que não vai ser mais o mesmo porque já teve outros momentos em que elas sentiram que iria mudar e não mudou. Eu entendo o ceticismo delas. Eu sou um pouco mais otimista porque acho e sinto que esse movimento não é uma coisa pontual justamente porque ele vem com um conhecimento e uma cobrança das pessoas que agora estão conhecendo a importância do feminismo e do empoderamento da mulher e agora estão cobrando isso no esporte”, pondera.

Além disso, todos reconhecem que ainda há muito a se fazer pela modalidade e pela mulher no esporte como um todo. “Há um trabalho complexo que vem acontecendo há alguns anos no Estado de São Paulo. O Campeonato Paulista está consolidado no calendário nacional, é a competição mais longeva do País, mas sabemos que é preciso avançar, há muito a ser feito. E é natural que haja muito a ser feito, afinal, a modalidade foi proibida no Brasil durante décadas, há um atraso considerável!”, diz Aline.

Ela lembra ainda do desafio de trabalhar as novas gerações no esporte. “Quando assumi a função, em 2016, minha primeira missão foi clara: fomentar as categorias de base. Já conseguimos inserir no calendário o Paulista Sub-17, que teve sua terceira edição neste ano, também realizamos o Festival Sub-14 e, talvez a grande novidade, foi a Peneira Sub-17, que reuniu mais de 300 meninas sob olhares de quase 20 times diferentes”.

E é natural que haja muito a ser feito, afinal, a modalidade foi proibida no Brasil durante décadas, há um atraso considerável.Aline Pellegrino, ex-capitã da seleção e diretora de futebol feminino da Federação Paulista de Futebol

Essa questão do trabalho de base é essencial para os próximos anos. Thiago Andre Rigon, pesquisador, técnico da federação paulista de futsal e fundador da Ludo Sport Education comenta que, apesar da modalidade ser outra, o futsal pode ser, muitas vezes, a porta de entrada para meninas que querem jogar futebol de campo, mas é preciso um olhar para isso. “Acredito que vá haver uma abertura de possibilidade para as meninas e para as mulheres praticarem essa modalidade de forma massificada, [mas] temos que olhar para questões mais profundas, olhar para formação de base”, diz.

Ele completa falando sobre as possíveis mudanças na área após esse bom ano. “Acredito que podemos esperar sim um aumento de procura. Eu, trabalhando num contexto escolar, percebi que o futsal feminino há tempos tem uma abertura bem significativa enquanto modalidade. O futsal feminino é forte no ambiente escolar, muitas meninas praticam. O que me parece é que com essa discussão gerada a partir desse ano, que a procura vai se intensificar e naturalmente outros centros de formação como clubes e academias vão olhar para essa questão da mulher no futebol com mais cuidado e mais carinho, até como um negócio”, espera.

E esse tipo de mudança ajuda numa possível profissionalização e no aumento de espaços para a prática de esporte para mulheres. “[Por isso] falo da luta além das quatro linhas do campo. Essa tradição de determinar um gênero para as cores, as roupas, os brinquedos, brincadeiras e atividades, essas exigências sociais do que chamam de ‘comportamento feminino’ acaba afastando as meninas da cultura de movimento e esportiva. Isso tem um impacto direto no número de praticantes e na experiência motora na formação das mulheres, e é por isso que dentre muitas outras lutas essa é uma que deve urgentemente ganhar atenção. A luta é para que todas as crianças tenham a oportunidade de serem convidadas e tenham espaço para poder gostar de esporte, independentemente do seu gênero”, defende Samara.

Com essa atenção, é possível acreditar em um desenvolvimento e crescimento da modalidade mais regular. “Os clubes estão se adaptando à gestão do futebol feminino, e vão entender como fazer e onde podem ser melhores. Acredito que esse processo vai acontecer de forma natural ano a ano, porque clubes de futebol sabem como fazer gestão de futebol e o feminino é apenas mais uma categoria dentro do clube”, lembra Aline.

A luta é para que todas as crianças tenham a oportunidade de serem convidadas e tenham espaço para poder gostar de esporte, independentemente do seu gênero.Samara Mozem, professora e técnica de futsal.

Para os próximos grandes eventos – Olimpíada de 2020 e a próxima Copa do Mundo, em 2023 – as expectativas também seguem altas. 

“Espero uma cobertura mais igualitária, que o futebol continue tendo essa visibilidade porque só assim a gente consegue cobrar melhorias. Porque se ninguém fala de futebol feminino, os clubes, federação fazem o que querem porque ‘ninguém se importa’. Quando começa a repercutir na mídia começa a mudar alguma coisa. E nas redações também espero ver mais mulheres ocupando esses espaços e espaços de protagonismo mesmo”, finaliza Renata.

Rafael também está nessa torcida. “Na próxima Olimpíada, espero que tenhamos uma outra campeã que não seja os Estados Unidos [risos]. Espero um torneio que mostre ainda mais o quanto seleções médias diminuíram a distância para as principais potências e mostrando ainda mais competitividade. Já para a Copa de 2023, espero ver ainda mais adesão do público, imprensa, e que seja um ciclo em que o futebol feminino se estabeleça de vez”.

Durante o torneio deste ano, a Fifa aprovou a expansão da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 24 para 32 equipes na edição de 2023, e reabriu o processo de candidatura de sedes em potencial. O torneio vem aumentando constantemente o número de seleções. A primeira edição, em 1991, na China, contou com 12 seleções. Com a ampliação para o próximo evento, a competição se equipará à versão masculina, que tem 32 times desde 1998.

Nesta semana, Gianni Infantino, presidente da Fifa afirmou que estuda a proposta de realizar Copa feminina a cada dois anos por acreditar que esta seria uma forma de impulsionar o futebol feminino ainda mais. A ideia foi dada pelo presidente da Federação Francesa de Futebol e é vista com bons olhos. Atualmente, o torneio ocorre a cada quatro anos assim como o masculino.

Sendo assim, na verdade, esse ano de 2019 não trouxe algo exatamente novo. Não se trata da descoberta do futebol feminino ou da explosão pela procura da modalidade. Formiga, Marta, Cristiane e tantas outras. Essas mulheres sempre estiveram em campo. Mas, neste ano, elas foram, enfim, vistas.