OPINIÃO
02/04/2019 20:43 -03 | Atualizado 02/04/2019 20:43 -03

Fundos para o GovTech: ideias inovadoras precisam e merecem mais apoio

"Colocar na pauta nacional a criação de fundos 100% destinados ao fomento dessas empresas poderia começar a tirar o Brasil das amarras da burocracia."

10'000 Hours via Getty Images

O evento “GovTech Brasil”, organizado em agosto de 2018 pelo BrazilLAB e outros parceiros, teve o objetivo de contribuir a implementação de uma agenda digital para o país. Durante dois dias, reuniu em São Paulo dezenas de especialistas brasileiros e estrangeiros nesse tema.

E uma das grandes atrações do encontro foi o americano Bill McGlashan, fundador e principal executivo do fundo de investimento com maior impacto do mundo, o The Rise Fund. Criado em 2016, o fundo tem como sócios o cantor Bono Vox, vocalista da banda U2, e Jeff Skoll, primeiro presidente do eBay, entre outros nomes (e dispõe de mais de 2 bilhões de dólares). Sua missão é investir em startups com impacto social e ambiental na Índia, América Latina e Ásia – uma grande iniciativa.

Em quase uma hora de palestra, McGlashan ressaltou a importância de se estabelecerem métricas quantitativas e metodologias confiáveis para saber, de fato, qual é a influência gerada pelas startups – afinal, medir impacto é algo bem mais complexo do que quantificar o retorno financeiro puro de um investimento. Também discorreu sobre as oportunidades existentes para que os empreendedores mais engajados busquem soluções para os complexos desafios vividos pela sociedade.

São pontos pertinentes para quem deseja se aventurar nessa área. Mas, ao ser perguntado sobre possíveis parcerias com o poder público para resolver temas sociais como saúde e educação, Bill McGlashan afirmou não acreditar que exista uma relação direta entre governos e investimentos de impacto social. Foi ainda mais enfático: disse que, devido a regras rígidas de compliance, seu fundo não pode investir em iniciativas que tenham relação com o governo.

Um comentário semelhante foi feito, no fim do ano passado, também em visita ao Brasil, pelo engenheiro Peter Diamandis, cofundador da Singularity University (instituição do Vale do Silício, nos Estados Unidos, e autor do best-seller Abundância: o Futuro é Melhor do que Você Imagina). Ao ser questionado sobre a importância da tecnologia para o avanço do setor público no mundo e como as startups podem ajudar a gerar impacto nos governos, Diamandis mostrou-se incrédulo, afirmando que acredita muito mais na função do empreendedor, do indivíduo e da iniciativa privada do que no papel do setor público.

Concordo com McGlashan e Diamandis quando eles dizem que startups engajadas não apenas em gerar lucro, mas também no impacto social, são fundamentais para o avanço da sociedade. No livro Conscious Capitalism: Liberating the Heroic Spirit of Business (Capitalismo consciente: liberando o espírito heroico dos negócios), os autores afirmam que um dos grandes marcos da sociedade atual é que as pessoas finalmente começaram a perceber que, quanto mais consciente se está sobre o funcionamento e a evolução do capitalismo, maior o potencial para conduzir e fazer os negócios prosperarem.

A partir dessa percepção, é possível investir em empresas baseadas em metas alinhadas com as necessidades de seu público, que tenham líderes a serviço não apenas dos interesses da corporação, mas também dos consumidores e do planeta. Essas companhias, alinhadas com o “capitalismo consciente”, tendem a construir um mundo melhor para todos nós, com prosperidade, compaixão e liberdade. Acredito muito nessa tese e, para quem ainda não conhece a obra, recomendo fortemente a leitura.

Quando falamos de progresso e desenvolvimento econômico e social, entretanto, estamos ignorando um “ator” extremamente importante nessa equação: o governo, que, no Brasil, representa cerca de 40% do PIB. Também estamos deixando de lado, por ceticismo e talvez excesso de precaução, oportunidades que as startups podem proporcionar junto ao setor público. Temos, sim, de apostar nas GovTechs e criar um ecossistema capaz de viabilizar esses empreendimentos – é aí que os fundos GovTech, destinados a investir em startups que fazem parcerias com os governos, podem exercer um papel fundamental.

Existe a necessidade de os fundos de impacto social se tornarem mais flexíveis e estabelecerem novas regras de compliance para investir também em startups GovTech. Ouso dizer que, atualmente, não existe nenhum fundo fazendo isso no Brasil. Nos Estados Unidos e na Europa, ao contrário, essa realidade começa a mudar e já temos bons exemplos. Um deles é o Govtech Fund, criado no Vale do Silício em 2014, pioneiro em financiar projetos focados em tornar governos mais eficientes.

Na Europa, o GovTech Summit 2018 reuniu em Paris quase 3.000 corporações, startups, investidores, acadêmicos e políticos para propor parcerias entre governos e iniciativa privada. Em uma das apresentações, Daniel Korski CBE, cofundador da PUBLIC, instituição que organizou o evento, previu que os 400 bilhões de dólares atuais da indústria GovTech vão crescer 15% ao ano e, em 2025, atingirão o montante de 1 trilhão de dólares ao ano, sobretudo em áreas como saúde e assistência social, energia, turismo, cultura, infraestrutura, educação, transporte e mobilidade, educação, cibersegurança, recrutamento e seleção de pessoal. No Reino Unido, maior mercado mundial dessa tendência, o crescimento já chega a 20% ao ano.

É preciso mudar a relação entre os setores público e privado para tornar nossos governos mais confiáveis e eficientes, de modo que eles cumpram a função primordial de proporcionar uma boa qualidade de vida à população. Nesse processo, a tecnologia pode ter um papel fundamental para garantir que essa relação seja transparente e idônea, algo tão necessário e urgente para nós, brasileiros.

As GovTechs são iniciativas inteligentes – e certamente necessitam de recursos (para mão-de-obra de primeira linha, entre outros ativos) para viabilizar suas soluções e apoiar mudanças seminais na eficiência de serviços públicos. Colocar na pauta nacional a criação de fundos 100% destinados ao fomento e crescimento dessas empresas e suas ideias inovadoras poderia começar a tirar o Brasil das amarras da burocracia e causar o impacto social necessário para colocar, de fato, o cidadão em primeiro lugar.

 

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.