OPINIÃO
02/01/2020 01:00 -03 | Atualizado 02/01/2020 01:00 -03

'Frozen 2' pode não ter 'Let it Go', mas é, em alguns aspectos, até melhor que o primeiro

Trama mais complexa e sombria pode não agradar a todos, mas transforma o filme em algo muito maior do que uma mera sequência.

Após um período chamado de “renascença”, iniciado em A Pequena Sereia (1989) e que durou 10 anos, até Tarzan (1999), a Disney entrou - com exceção de Lilo & Stitch (2002) - em uma fase de baixa criativa e sucessivos fracassos de bilheteria.

Foi nessa época que um novo estúdio, a Pixar, inovou com animações geradas por computador e tramas menos “tradicionais”, que quebravam paradigmas de gênero, como, por exemplo, a eterna donzela em perigo ou a princesa que buscava seu príncipe encantado.

A solução encontrada pela Disney foi a adotada por qualquer conglomerado poderoso ameaçado: adquirir a concorrência. Assim, em janeiro de 2006, a Pixar passou a ser um braço da poderosa Disney.

Com o antigo “inimigo” trabalhando a seu favor, a casa do Mickey passou a lançar excelentes e bem sucedidas animações como Ratatouille (2007), WALL-E (2008) e Up - Altas Aventuras (2009). Mas viver apenas dos louros de seu novo parceiro não era algo que pudesse satisfazer o legado da Disney, que, inspirada com as mudanças criativas propostas pela Pixar, passou a repensar suas convicções.

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Anna, Kristoff e Elsa encaram uma floresta mágica cheia de mistérios que traz mais densidade à trama de "Frozen 2".

Foi aí que, mesmo de forma mais tímida, a gigante fez uma criativa releitura da “princesa Disney”, um tipo de personagem que representava a alma do estúdio, mas mantendo o estilo tradicional de animação que o diferenciava da Pixar. A Princesa e o Sapo (2009) não teve uma repercussão tão grande nas bilheterias, mas chamou muito a atenção da crítica e concorreu a vários prêmios, tornando-se a semente de uma ideia que foi germinando e ganhando força com o passar dos anos.

A partir daí surgiu Enrolados (2010), uma grande aposta que mesclava os estilos Disney e Pixar de animação e trouxe uma nova visão sobre o papel da figura da princesa em um dos contos de fadas mais populares no mundo todo: Rapunzel. O absurdo sucesso da produção mostrou que o estúdio estava no caminho certo e culminou em um de seus títulos mais icônicos três anos depois.

Frozen foi o auge desse conceito. Combinando o que a Disney sabia fazer melhor com uma tecnologia mais moderna de animação, que naquele ponto já estava mais do que estabelecida. As aventuras da princesa “amaldiçoada” Elza e de sua irmã, a determinada Anna, foi um fenômeno.

Há anos a Disney não emplacava um hit como Let It Go e não tinha uma princesa tão popular como Elsa, e que não tinha nada a ver com a figura frágil de personagens clássicos do estúdio, como Branca de Neve, Cinderela ou A Bela Adormecida. Ela era independente e não precisava de um príncipe para ser feliz. Ao contrário, Elsa queria mesmo era ser feliz sozinha, e virou uma febre e modelo para meninas (e meninos) por todo o mundo.

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O boneco de neve Olaf ganha um papel bem mais consistente em "Frozen 2", sendo o vetor para a discussão de temas profundos, como o da morte, por exemplo.

Dito isso, uma continuação era algo tentador para a Disney, mas, ao mesmo tempo, um risco muito grande, pois poderia “manchar” a reputação de uma animação tão popular que se transformou na maior galinha dos ovos de ouro do estúdio na última década.

Felizmente, a Disney foi cautelosa e demorou o tempo necessário para desenvolver um produto à altura de seu antecessor. E, seis anos depois, lançou Frozen 2, que estreia no Brasil nesta quinta (2).

Mas esse cuidado rendeu um bom filme? Com certeza. E foi além. A trama de Frozen 2 é mais complexa e bem resolvida que a do primeiro filme, dando mais profundidade a personagens como a própria Elsa e, principalmente, Olaf, o boneco de nove que, na animação de 2013, era apenas uma criatura fofinha que tinha a função de mero alívio cômico.

Na trama, logo voltamos à infância das irmãs Elsa e Anna em Arendelle, ainda governado pelo pai das garotas, que, para entretê-las antes de dormir, conta uma história envolvendo uma aliança entre seu reino e um povo de uma floresta mágica. Mas algo dá errado, e, por um motivo misterioso, os aliados passam a guerrear. Os elementos mágicos da floresta se revoltam e isolam o local com uma bruma intransponível.  

Anos depois, já adulta, Elsa passa a ouvir um chamado estranho, que ela sente que poderá ser a forma de entender seus poderes de gelo, e parte em direção àquela floresta encantada da história que seu pai lhe contou quando criança. Anna, porém, se preocupa com a segurança de sua irmã mais velha, e convoca sue namorado Kristoff (junto de sua inseparável rena Sven) e o boneco de neve Olaf para acompanhar Elsa nessa aventura.

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Elsa em sua busca para compreender a si mesma em uma das sequências mais impressionantes do filme, quando ela encontra um dos elementos da floresta mágica.

Com relação às músicas, que são uma parte importante da “franquia”, Frozen 2 pode não ter uma canção tão marcante quanto Let It Go (mesmo que Into the Unknown se esforce muito para tal), mas traz alguns números musicais muito bons e até surpreendentes, como a bonitinha When I Am Older e a propositadamente brega Lost in the Woods, em que Kristoff e Sven vivem um dos momentos mais engraçados do filme.

Anna e Kristoff perdem um pouco de espaço para Elsa e Olaf, que são bem mais desenvolvidos que na trama de 2013, mas a profundidade que esses dois personagens ganham aqui é mais do que suficiente para mostrar que a trama de Frozen 2 - que sabe quando rir de si mesmo - é superior à do primeiro filme. 

Ou seja, valeu a pena esperar esses longos seis anos pela sequência de Frozen. E mesmo com essa história mais complexa e sombria, o público está respondendo muito bem, já que, até aqui, Frozen 2 foi o terceiro filme mais visto em 2019 (já havia estreado nos EUA), atrás apenas de Vingadores: Ultimato e O Rei Leão. E os números tendem a subir, já que a produção segue estreando em diferentes países pelo mundo, como o caso do Brasil.