COMIDA
03/07/2019 14:44 -03 | Atualizado 04/07/2019 08:49 -03

Frangos com salmonela barrados na Europa voltam e são vendidos no Brasil, diz ONG

Mais de 1 milhão de frangos brasileiros foram vetados por não atenderem aos padrões sanitários europeus, que são mais rigorosos do que os daqui, revelou Repórter Brasil.

REDA&CO via Getty Images

Nos últimos 2 anos, toneladas de frangos congelados com salmonela foram barradas na Europa e voltaram ao Brasil, onde foram vendidas in natura ou processadas no mercado nacional. 

A informação é resultado de uma investigação conjunta entre o jornal inglês The Guardian, Bureau of Investigative Journalism e a ONG brasileira Repórter Brasil. Entre abril de 2017 e novembro de 2018, cerca de 1 milhão de aves congeladas foram vetadas no Reino Unido por não atenderem padrões sanitários da Europa. As aves continham salmonela, bactéria encontrada na carne crua que pode ser fatal. 

Na última quarta-feira (4), a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, confirmou a devolução dos frangos contaminados e argumentou que esse tipo de medida é comum e ocorre na exportação de outros países. “A quantidade de exportação do frango brasileiro é enorme. Só 17 containers vieram com salmonella. Dois tipos só que têm problema para humanos. Isso [a denúncia] é desserviço aos produtos brasileiros”, declarou ontem.

Acontece que as exigências sanitárias no Brasil são mais brandas que na Europa. À ONG Repórter Brasil, o Ministério da Agriculta confirmou que o produto vetado no Reino Unido volta ao País e pode ser comercializado de duas formas.

Se o frango tiver bactérias com risco potencial à saúde humana, ele pode ser cozido e processado para ser usado em produtos como nuggets, salsichas e mortadelas. Esses frangos representam menos de 1% dos casos.

Já os frangos que têm bactérias que não apresentam risco à saúde, de acordo com os padrões brasileiros, podem ser vendidos “in natura” nas gôndolas dos supermercados e açougues. Existem mais de 2.600 tipos de salmonela, sendo algumas inofensivas para a saúde humana e 2 tipos potencialmente mortais.

Enquanto a regulação brasileira aceita uma taxa de 20% de contaminação, a agência europeia Food Standards Agency (FSA) tolera cerca de 3% de contaminação por salmonela em frangos. 

Autoridades brasileiras alegam que a taxa aceita no Brasil é segura e não tem risco para a saúde humana.

Desde o escândalo da Operação Carne Fraca, quando a Polícia Federal identificou diversas irregularidades na indústria frigorífica brasileira em 2017, o Brasil enfrentou sanções de diversos países. A União Europeia temporariamente embargou o frango de algumas marcas brasileiras e cobrou maior controle sanitário. A reportagem publicada hoje, no entanto, constatou que o Brasil após a operação continuou exportando carne contaminada com salmonela para a Europa. 

Desde abril de 2017, testes mostram que mais de 370 remessas de frangos e outras carnes enviadas ao bloco europeu continham salmonela. 

Só em 2019, 13 remessas de frango contaminado foram detectadas por inspetores nos portos do Reino Unido. Grande parte foi detida pela equipe de inspeção portuária e enviada de volta ao Brasil, onde foi revendida. 

Os documentos obtidos pela reportagem mostraram que os frangos contaminados foram exportados pelas maiores empresas brasileiros do setor, que são a JBS e a BRF. 

À ONG Repórter Brasil, ambas empresas negaram falhas em seus padrões de qualidade. “Não há registro de ocorrências reportadas por consumidores em seus diferentes mercados, nacional ou internacional, o que reitera a conformidade dos processos adotados pela empresa e a segurança dos seus produtos”, afirmou a JBS, detentora das marcas Friboi, Seara, Maturata, Doriana, entre outras. 

A BRF, dona da Sadia, Perdigão e Qualy, afirmou que cumpre as normas e exigências de qualidade estabelecidas na legislação brasileira e as determinadas do MAPA, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.