MULHERES
18/06/2019 23:39 -03 | Atualizado 18/06/2019 23:51 -03

Na Copa feminina da França, assistir a um jogo do Brasil não é só sobre futebol

Brasil venceu a Itália nesta terça-feira (18), conseguiu se classificar com recorde de Marta e com crianças assistindo futebol feminino profissional pela 1ª vez

Ana Ignacio/Especial para o HuffPost Brasil
As melhores amigas Emma e Alyssa, de 10 anos, jogam futebol juntas na cidade em que moram -- e viajaram com seus pais para Valenciennes para ver o Brasil.

VALENCIENNES, FRANÇA - As melhores amigas Emma e Alyssa, de 10 anos, jogam futebol juntas na cidade em que moram, Feignies, próxima a Valenciennes, na França. Adoram o esporte e nesta terça-feira (18) foram ao estádio assistir o jogo entre Brasil e Itália. Emma estava enrolada na bandeira do Brasil, bem amarrada com um nó na altura do peito. Assim ficou a partida inteira. Já Alyssa usou o uniforme completo da seleção: camisa amarela e o calção azul. Felizes da vida, as duas torceram, comemoraram o gol – e a vitória do Brasil que garantiu a terceira posição do Grupo C.

Elas aplaudiram as boas defesas, roeram as unhas nos lances defensivos. Foram juntas pegar uma bebida, voltaram correndo para seus lugares. Não se desgrudam. Estão animadas. Curtem a Copa do Mundo Feminina de futebol em seu país e torcem para o Brasil como se fossem parte dele. Nesta noite, as seleções disputaram última partida da fase de grupos da Copa, o que garantiu uma vaga para o Brasil nas oitavas de final. Com torcida escancarada. 

Eu amo o Brasil! Amo jogar futebol e penso em ser jogadora, mas não sei se vou levar adiante. Mas jogo e já fui ao estádio várias vezes.

“Eu amo o Brasil! Amo jogar futebol e penso em ser jogadora, mas não sei se vou levar adiante. Mas jogo e já fui ao estádio várias vezes”, conta Emma ao HuffPost Brasil. Alyssa é mais tímida, sorri e concorda com o que a amiga diz com um aceno de cabeça. Principalmente quando o assunto é o gosto pelo esporte. E as meninas não tem dúvida. Acreditam que as mulheres jogam tão bem quando os homens. “Acho que são tão boas quanto eles porque elas podem fazer o que quiserem. Antes elas não podiam escolher e hoje elas podem. As mulheres estudam, trabalham e podem conseguir qualquer coisa”, explica Emma, certa do futuro que pode alcançar - se quiser.

E certamente. Após vencer a Jamaica por 3 a zero e perder para a Austrália por 3 a 2, a seleção brasileira não estava em posição tão confortável para passar para as oitavas de final no jogo desta terça (18) contra a Itália. Mas não só passou como protagonizou um jogo histórico. O gol de Marta que deu a vitória à seleção e fez com que a camisa 10 alcançasse mais um recorde em sua carreira. Ela se tornou a maior artilheira da história das Copas. Com 17 gols marcados no Mundial, Marta superou a marca do alemão Miroslav Klose.

Na partida anterior, contra a Austrália, a craque brasileira ― que já foi eleita seis vezes a melhor do mundo e tem o título de embaixadora pela igualdade da ONU ― havia igualado a marca do alemão, quando completou 16 gols. Também na partida contra a Austrália, ela já havia quebrado outra marca nesta edição do campeonato: se tornou a primeira jogadora, entre homens e mulheres, a marcar em cinco edições diferentes de Copa do Mundo. E Marta tinha ao lado dela outras, que abriram caminho. Andressinha, no lugar de Formiga. Debinha. Cristiane.

Ana Ignacio/Especial para o HuffPost Brasil
No estádio em Valenciennes, milhares foram assistir ao jogo do Brasil.

Nesta noite, foi a vez de mais uma marca importante. E as pequenas assistiram tudo. Ao vivo. Viram a história sendo feita. Talvez sem perceber. Assim como Emma e Alyssa, muitas meninas e meninos estavam vestidos da mesma forma nesta noite. Já nas ruas que conduziam ao estádio era possível perceber. As cores das roupas variavam muito. Não só havia o verde e amarelo. Mas todos vestiam essa escolha pelo esporte. Além das camisas dos times de coração (locais ou seleções), diversas crianças estavam com os rostos pintados, meias de futebol, uniforme completo mesmo. Prontos para a partida. Alguns até usavam camisas que batiam nos calcanhares – nítido que pegaram emprestada com o pai ou com a mãe. Nas costas, diversos nomes. Apesar da grande predominância dos craques dos times masculinos, já foi possível ver garotas e mulheres com nomes femininos estampados nas costas.

Muitas delas estão indo ao estádio pela primeira vez na vida. Pode-se dizer que a grande maioria – aí não somente as crianças – também veem pela primeira vez mulheres jogando futebol em uma Copa do Mundo. Mas as crianças chamam mais atenção. Na entrada do estádio, um grupo de garotas entre 8 e 12 anos posa para foto antes de passar na catraca.

Elas são meninas de uma cidade que fica a 15 km de Valenciennes. A técnica do grupo, Celine Acquaert, 34 anos, é jogadora e começou cedo. Antes dos 10 anos já jogava e sabe da importância desse incentivo. “É a primeira vez que elas assistem uma partida de futebol feminino e a Copa do Mundo sendo na França para elas é muito importante. Todas amam as jogadoras da equipe francesa. Assistir um jogo como esse é muito importante para qualquer garota que sonha em jogar futebol feminino”.

Quando Celine questiona ao grupo se elas gostariam de se tornar profissionais, todas respondem com um longo e sonoro “oui”, sim, em português. A técnica sorri orgulhosa e destaca a animação com essa partida em específico. “Elas amam o Brasil e hoje elas têm referências no esporte. As principais inspirações para elas são os Estados Unidos, o Brasil e a França”.

Ana Ignacio/Especial para o HuffPost Brasil
A técnica do grupo, Celine Acquaert (à esquerda) de 34 anos, é jogadora e começou cedo -- e deseja o mesmo futuro para suas alunas.

Mas os jogos não tem sido inéditos apenas para as crianças. O evento também tem é uma novidade para muita gente que nunca esteve tão próximo do futebol feminino profissional antes. Foi o caso de Jussara Bisoni, 31 anos.

Atleta da seleção brasileira de Bolão 16 – uma espécie de boliche de origem Alemã – ela estava fora do Brasil para uma competição e mobilizou parte da família para ir ao estádio. Primeira vez para ela, os pais e os tios que toparam embarcar na viagem. “Foi a primeira vez que eles assistiram também e foi muita emoção, é muito legal, uma energia de jogo, muito diferente ver assim”.

E o jogo pareceu realmente especial para muita gente. Os torcedores aproveitaram tudo que puderem. O clima de rivalidade existia, mas em tom de brincadeira e amenidades (muitos gritos de “pizza, pizza” pelos corredores e “Roberto Baggio”, em referência ao pênalti perdido pelo jogador italiano na Copa do Mundo Masculina de 1994, quando o Brasil foi Tetra). Ao fim da partida, muitos brasileiros se deslocaram para bem perto da saída das jogadoras de campo. Sem grades e nem alambrado. As atletas, pós-jogo, acenavam, bem perto do público. Brasileiros que haviam se conhecido durante a partida se abraçavam como velhos conhecidos. Um puxava um grito de “união dos brasileiros” para fazer um registro de quem estava ali ainda.

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Marta bateu recorde em jogo contra a Itália nesta terça-feira (18), e se tornou a maior artilheira de todas as Copas.

Na rua, as pessoas ainda conversavam e comentavam sobre a partida. Um bar próximo ao estádio reunia os torcedores. Tocava Banda Eva na caixa de som. Clima de futebol. “As meninas precisavam desse apoio”, avalia Jussara. “O futebol feminino está ganhando seu espaço e divulgação. Temos que apoiar cada vez mais. Tem que continuar desse jeito”. Parece que está indo no caminho certo. As próximas gerações já entenderam. Vestem seus uniformes. Sabem que podem.