MULHERES
22/06/2019 01:00 -03

Na França, ainda é complicado ter espaços para que meninas joguem futebol

O lugar ocupado pelo campo de futebol nos espaços recreativos em escolas está longe de ser insignificante.

Rebecca Nelson via Getty Images
Desde a infância ocorre uma espécie de cisão entre os garotos, que jogam futebol, e as meninas, que raramente ousam aventurar-se no campo.

No pátio da escola, os garotos batem bola no campo de futebol situado ao meio, enquanto as meninas brincam nas laterais. Esse esquema não é sistemático, mas ainda é o que se vê concretamente em muitos playgrounds ou espaços multiesportivos.

Desde a infância ocorre uma espécie de cisão entre os garotos, que jogam futebol, e as meninas, que raramente ousam aventurar-se no campo.

Diante da Copa do Mundo de Futebol Feminino, que ocorre agora em junho, o HuffPost França procurou a geógrafa Edith Maruéjouls, que estuda os pátios e playgrounds escolares desde 2010, para saber mais sobre o que acontece nos campos de futebol das escolas e, mais tarde, nos espaços multiesportivos urbanos.

Em uma conferência TedX Women em novembro de 2017, a geógrafa explicou que o espaço escolar é dividido de maneira desigual. Como consequência, os meninos jogam esportes coletivos no centro desses ambientes, enquanto as meninas ficam nas laterais.

Para a geógrafa, vários fatores podem explicar a evolução lenta do futebol entre as mulheres, a começar pela fato de Pierre de Coubertin ter proibido a participação feminina nos Jogos Olímpicos no início do século 20.

É também um problema mais global. “Será que realmente damos ouvidos ao que as meninas querem? Será que elas não gostariam de algo diferente? Elas têm realmente direito a jogar futebol?”, questionou a geógrafa.

Uma questão de justiça

Mas está claro para ela que um dos elementos da resposta se encontra na configuração dos espaços de lazer das escolas. “Quando colocamos o futebol no centro do espaço, prescrevemos um público legítimo e proscrevemos as outras pessoas”, ela postula, acrescentando que cabe aos adultos questionar esse mundo da infância.

“É uma questão educacional real. Para as meninas, é uma verdadeira questão de justiça. Não poderem ir ao centro do pátio escolar, não poderem atravessar o campo, isso é motivo de sofrimento infantil real”, ela diz.

Yves Raibaud, especialista na geografia do gênero, também constatou o sofrimento que essa separação pode provocar. “Nas escolas, o campo de futebol muitas vezes fica no centro do pátio, e os meninos tomam conta dele. Com a bola rolando de um lado a outro, as meninas aprendem a se esquivar, a praticar jogos e brincadeiras que não ocupam espaço”, ele explicou, contatado pelo Le Temps.

“Esse arranjo comunica um sentido, ele constrói a desigualdade, inscrevendo na educação a ideia de que os meninos ficam no centro e as meninas nas margens. Muitas vezes atribuímos às meninas a responsabilidade de não ‘gostarem’ de esportes. Mas quando perguntamos a elas sobre o assunto, elas relatam experiências dolorosas de exclusão e zombaria.”

Como as resistências que as meninas enfrentam não são conscientes, é ainda mais importante que os adultos questionem esse esquema todo. “É um processo demorado, mas em algum momento ele se torna legítimo ou pelo menos deixa de ser questionado. Elas tomam consciência da proibição e dizem que não têm direito”, diz a geógrafa. O problema é que esse “não tenho direito” se transforma, segundo ela, numa afirmação de ordem mais geral na adolescência: “Não tenho os mesmos direitos que os meninos”.

Do playground escolar aos campos multiesportivos

Outro problema: essa exclusão concreta do playground escolar se repete, mais tarde, nos campos multiesportivos urbanos. 

Um blog publicado no final de abril na Alternatives économiques e intitulado “Por que as meninas se autoexcluem dos campos multiesportivos” permite lançar luz sobre esse processo. “Acho normal sair do campo quando os rapazes chegam, porque aquele é um lugar para se jogar futebol, não para ficar batendo papo com as amigas – podemos fazer isso em outro lugar”, explica por exemplo Aissa, 18 anos, aluna do último ano do ensino médio científico. “Às vezes acho injusto porque nós não temos um lugar que seja nosso, como eles têm ― um lugar onde a gente possa se reunir com outras meninas.”

No início de abril a construção de um campo multiesportivo no bairro de Montmartre, em Paris, levou à circulação de um abaixo-assinado. Uma mãe considerou que o campo “excluiria as crianças pequenas e um pouco maiores, e especialmente as meninas” – segundo ela, frequentemente expulsas desses lugares pelos rapazes.

O que fazer senão repensar os pátios escolares e playgrounds? Edith Maruéjouls dá o exemplo de uma professora que instituiu um mês sem bola. Os garotos ficaram furiosos? Na realidade, o que se constatou ao término dessa experiência é que alguns agradeceram à professora. Eles aprenderam outros jogos ou se lembraram de atividades que gostavam de praticar antes. É uma maneira de rever o lugar dado aos campos de futebol nos espaços de lazer, de modo a beneficiar a todos.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost França e traduzido do Francês.