OPINIÃO
15/11/2019 03:00 -03 | Atualizado 15/11/2019 03:00 -03

Você não precisa entender de carros para gostar do ótimo 'Ford vs. Ferrari'

Filme estrelado por Matt Damon e Christian Bale é muito mais sobre pessoas que ousam nadar contra a corrente do que corridas.

Se o tema automobilismo faz com que você perca o interesse sobre Ford vs. Ferrari, que estreou nos cinemas brasileiros nesta quinta (14), não se preocupe. O filme estrelado por Matt Damon e Christian Bale pode ser curtido (e muito!) por quem não entende absolutamente nada sobre carros.

O próprio diretor da produção da FOX, James Mangold (do excelente Logan), confessou em entrevistas recentes que não é nada familiarizado com o universo das corridas automobilísticas.

Mas, então, por que diabos ele dirigiria Ford vs. Ferrari? Porque Mangold se interessa pelos dramas de seus personagens, o ex-piloto e projetista americano Carroll Shelby (Damon) e o piloto inglês Ken Miles (Bale), que são, na verdade, o motor que impulsiona a história do filme.

Ao contrário da mensagem que o trailer e toda a campanha de marketing do filme quer passar, Ford vs. Ferrari dá muito mais espaço para os bastidores da construção do lendário Ford GT40 do que nas corridas, mesmo que haja sim ótimas sequências de disputas nas pistas.

Falando assim, Ford vs. Ferrari pode parecer um filme chato, mas não é o caso. Aliás, muito longe disso. A trama consegue contagiar o espectador exatamente por gastar muitos minutos de suas duas horas e meia de duração no processo cheio de altos e baixos que levou a Ford, uma fabricante identificada por carros para o dia a dia, a concorrer de igual nas pistas com a Ferrari, uma fábrica que trata os carros como obras de arte sobre rodas.

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Matt Damon é Carroll Shelby, um ex-piloto e projetista esperto de fala mansa que dobra Henry Ford II e seus executivos.

Esse embate entre a visão romântica contra a corporativa é o grande mote do filme. Henry Ford II (Tracy Letts) é convencido por Lee Iacocca (Jon Bernthal) a olhar para Ferrari pela mais pura necessidade mercadológica. Mas quando a compra da marca italiana dá errado, Ford II atura um outsider como Shelby apenas para se vingar de Enzo Ferrari. Em uma cena muito boa e engraçada, Shelby mostra a Ford II o que é andar em um carro veloz. Algo que não fazia parte do mundo do herdeiro da Ford.

A trama vai desde a tentativa frustrada da americana Ford em comprar a italiana Ferrari, em 1963, até as 24 Horas de Le Mans de 1966, que é, até hoje, considerada uma das melhores edições da famosa prova automobilística.

O que acontece no meio desses dois momentos é o seguinte: Ford II dá a Iacocca, um de seus executivos, a incumbência de achar um projetista para um carro da Ford que vai acabar com a série de cinco vitórias seguidas da Ferrari nas 24 Horas de Le Mans. Seu escolhido é Shelby, um apaixonado por carros velozes e corridas que chama Miles para ser seu piloto de testes.

De temperamento difícil e sem papas na língua, Miles não conta com a confiança dos executivos da Ford. Principalmente de Leo Beebe (Josh Lucas), que fará de tudo para tirá-lo do projeto, mesmo com a resistência de Shelby, que é amigo de Miles e sabe de todo o seu potencial nas pistas e do quanto ele contribui no desenvolvimento do GT40.

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Christian Bale é o inglês Ken Miles, um piloto tão talentoso quanto difícil.

Ford vs. Ferrari não traz nada de inovador ou especial. É um drama com pequenas pitadas de esporte muito baseado na força de seus dois protagonistas, que estão realmente muito bem. Tanto a FOX inscreveu tanto Damon quanto Bale como aspirantes ao Oscar de Melhor Ator. com muita justiça, aliás. 

Outro ponto forte do filme é a edição extremamente fluida, que suaviza muito a experiência de encarar um filme de duas horas e meia, e a mixagem de som, que dá mais emoção às cenas de corrida, nos transportando para dentro dos carros. É impressionante. 

No final das contas, o filme poderia muito bem se chamar Shelby e Miles vs Ford, pois sustenta sua história no embate entre a visão romântica de Shelby e Miles contra a estritamente corporativa de Beebe e Ford II. O próprio “inimigo” Enzo Ferrari divide uma visão muito mais alinhada a de Shelby e Miles. É uma história simples, mas bem contada, sobre quem é diferente. Quem nada contra a corrente pelo que ama.