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26/05/2020 02:00 -03 | Atualizado 26/05/2020 09:17 -03

Até que ponto as Forças Armadas estão com Bolsonaro?

Militares "políticos" estão com o presidente, mas comandantes defendem cumprir a Constituição e se incomodam com participação de Bolsonaro em atos antidemocráticos.

EVARISTO SA via Getty Images
Presidente usa com frequência imagem das Forças Armadas para se amparar em seus discursos, mas comandos militares se incomodam com isso. 

Embora o presidente Jair Bolsonaro, que vem colocando cada vez mais militares no governo, se valha das palavras “Forças Armadas” para fortalecer seus discursos para apoiadores, Exército, Marinha e Aeronáutica estão longe de apoiar o que o presidente diz e faz em sua totalidade.

Há pontos de convergência, como quando se fala em interferência de Poderes - algumas posturas recentes do STF (Supremo Tribunal Federal) incomodaram a caserna. Porém, quando o mandatário usa as Forças Armas com viés político em meio a palavras de ordem para manifestantes, os comandos militares veem com ressalva os gestos dele, de acordo com interlocutores do Ministério da Defesa e pessoas próximas aos comandantes.

São recorrentes as falas de Bolsonaro sobre a presteza dos militares, quando ele próprio eleva o tom contra outros poderes e participa de manifestações antidemocráticas. Esse comportamento constante de evocar as Forças Armadas tem deixado dúvidas sobre o real posicionamento dos militares. Afinal, Exército, Marinha e Aeronáutica apoiam as iniciativas contra o Legislativo e Judiciário, como defendido nos atos nos quais o presidente participa?

A avaliação é que há, por parte do presidente, uma “conveniência” em “transferir a imagem de Forças Armadas para a política”, mas isso não corresponde à realidade. 

No domingo (24), depois de participar de uma manifestação em que havia faixas com pedido de fechamento do Supremo — “Supremo é o povo”, dizia uma delas —, o presidente apareceu em frente ao Palácio da Alvorada para falar com sua claque ao lado do ministro da Defesa, Fernando Azevedo. 

“Nos momentos que a nação precisa, ele sabe fazer valer ali a força que as Forças Armadas têm na democracia, na liberdade. Também, o nosso maior Exército é o povo. E aqui hoje, em grande parte, é o ministro da Defesa quem conduz as 3 Forças Armadas, elas que sempre estiveram ao lado do povo, da democracia, da lei e da ordem. As Forças Armadas pertencem ao Brasil, não é ao presidente. O presidente é apenas o representante, é o chefe supremo das Forças Armadas, que obviamente sabendo o seu verdadeiro papel e tendo um homem à altura na frente delas, o Brasil tem tudo para dar certo. É um dos pilares da nossa estabilidade: as Forças Armadas sempre voltadas para os interesses da nação, do povo, do bem comum, do bem e da ordem”, disse Bolsonaro. 

Em seguida, o presidente perguntou ao ministro da Defesa, que em muitos momentos de sua fala olhou para baixo em aparente desconforto, se ele gostaria de falar algo. A resposta de Azevedo: “não”.  

Ao posar ao lado do ministro de Azevedo e envolver as Forças em mais uma fala política, Bolsonaro rememora o que fez quando esteve em cima de uma caminhonete branca, no domingo, 19 de abril, em frente ao QG do Exército, destacou uma fonte muito próxima ao ministro e aos comandos das Forças.

“O ministro disse algo? Não. No QG do Exército, alguém do Exército apareceu? Não. O Fernando [Azevedo] é ministro. Tem que ir quando é chamado. Mas há uma formação de ter postura institucional, e é isso o que acontece”, argumentou o interlocutor do general ao HuffPost.

Os comandantes da Marinha, Exército e Aeronáutica, respectivamente, almirante Ilques Barbosa, general Edson Pujol, e comandante-brigadeiro do ar Antonio Carlos Bermudez, já conversaram com o vice-presidente da República, o general Hamilton Mourão, e com o ministro Augusto Heleno sobre o incômodo com o presidente tentar envolver as Forças Armadas nos atos contra Congresso Nacional e Supremo. Chegaram a levar o caso, de forma mais ponderada, ao próprio presidente.

Militares políticos X Caserna 

O ministro Fernando Azevedo já divulgou 3 notas em menos de um mês e meio - a primeira em 20 de abril, quando frisou o compromisso das Forças com o cumprimento da ordem constitucional.

Desta última vez, no fim de semana, apoiou a nota emitida na sexta-feira (22) pelo general Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, na qual este acusou o STF de interferir no Executivo. 

O posicionamento de Heleno ocorreu em resposta a um pedido do ministro Celso de Mello, da Suprema Corte, à PGR (Procuradoria-Geral da República) para que se manifeste sobre a possibilidade de apreensão do celular de Bolsonaro. O procurador-geral da República, Augusto Aras, afirmou que vai se pronunciar a respeito até o fim da semana. Cabe, contudo, a Mello decidir sobre pedir ou não o recolhimento do aparelho. 

Na nota, Heleno usa termos como “inconcebível”, “inacreditável” e “afronta” para se referir ao que disse ser um pedido de apreensão do celular do presidente. Continuou afirmando que “tal atitude é uma evidente tentativa de comprometer a harmonia entre os poderes e poderá ter consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional”.

A nota foi muito criticada no meio político. O chefe do GSI pode ser alvo de um inquérito do Ministério Público por causa do texto. Várias lideranças o acusaram de infringir a lei da segurança nacional e ameaçar um golpe. Parlamentares estudam convocá-lo para se explicar no Congresso. 

Fernando Azevedo disse em entrevista à CNN que o Ministério da Defesa soube da nota antes da divulgação e concordou com o teor, porque o celular do presidente é um “assunto de segurança institucional”. “A simples ilação da apreensão do celular do Presidente da República, na visão dele, é absurda. Afronta a segurança institucional. O MD [Ministério da Defesa] está extremamente preocupado com a tensão entre os poderes”, acrescentou o chefe da pasta em mensagem à emissora no sábado (23). 

Militares da reserva, também no fim de semana, divulgaram uma carta de apoio à nota de Heleno. O texto fala em “interferências descabidas, ilegais, injustas, arbitrárias, violentas contra o Exmº Sr. Presidente da República, seus ministros e cidadãos de bem”. E chega a mencionar uma “guerra civil”.

Faltam a ministros, não todos, do STF, nobreza, decência, dignidade, honra, patriotismo e senso de justiça. Assim, trazem ao País insegurança e instabilidade, com grave risco de crise institucional com desfecho imprevisível, quiçá, na pior hipótese, guerra civil.

Fontes ouvidas pelo HuffPost deixam claro que militares da reserva e integrantes do governo exercem um papel mais político do que institucional das Forças Armadas. Eles costumam apoiar todas as medidas do presidente. Entretanto, a visão deles não reflete o que pensam Marinha, Exército e Aeronáutica.

Os comandantes das Forças Armadas defendem oficialmente — e também nos bastidores — estar ao lado da lei, da ordem constitucional. Posicionam-se por meio do ministro Fernando Azevedo em alguns momentos, como defenderam a nota de Heleno no que tange à independência dos poderes. Porém, não apoiam integralmente Jair Bolsonaro, sobretudo em sua participação em atos contra STF e Congresso.