OPINIÃO
02/04/2019 07:35 -03 | Atualizado 03/04/2019 14:17 -03

Quão perto o mundo está de passar fome?

Imprevisibilidade do clima, conflitos políticos e desaceleração econômica contribuem com insegurança alimentar.

A maior parte dos leitores provavelmente nunca teve que se preocupar em como conseguir comida além de ir para o supermercado. A alimentação é farta e disponível e provavelmente a maioria também nunca notou a ausência de um item essencial nas prateleiras. Falta de comida em si é praticamente um assunto inexistente pra grande parte da população; quase a totalidade das insuficiências alimentares no Brasil pode ser atribuída à falta de renda, não à falta de capacidade de produzir ou de ter o alimento próximo a si. Bom, tudo isso pelo menos até a greve dos caminhoneiros de 2018.

Em 10 dias de greve cresciam os relatos de itens faltando em mercados e a apreensão em torno disso se tornou comum. De repente as pessoas se lembraram que a comida precisa ser produzida, armazenada e transportada e que somos extremamente dependentes de um sistema de produção e logística complexos que liga produtores, atravessadores, vendedores e, por fim, nós.

Essa experiência recente pode fazer emergir alguns medos e algumas perguntas, mas talvez a mais crítica delas seja: quão longe estamos de passar fome?

Jonas Pereira/Agência Senado
Em meio à greve dos caminhoneiros, não faltou apenas gasolina, mas até o "X-Tudo" anunciado na faixa.

Situação da fome no mundo hoje

A boa notícia é que hoje a situação da segurança alimentar no mundo está muito melhor do que já foi: no começo década de 90, 18,1% pessoas viviam sob a insegurança severa frente a 10,9% hoje em dia, com notável avanço vindo das regiões mais carentes da Ásia, África e América Latina.

A má notícia é que, apesar dos avanços e do compromisso firmado na ONU pela erradicação da fome em 2030, nos últimos 2 anos invertemos a tendência de melhora para regredirmos aos níveis de 2010: aproximadamente 820 milhões de pessoas no mundo hoje enfrentam subnutrição e insegurança alimentar, ou seja, não sabem se e o que comerão na próxima refeição.

As razões são complexas, mas segundo a ONU existem 3 motivos principais: imprevisibilidade climática, conflitos políticos e desaceleração econômica. Não raro as 3 coisas acontecem ao mesmo tempo, sendo muito difícil dizer onde uma começa e a outra termina... São as 3 cabeças de um monstro chamado fome.

Marcelo Camargo/Agência Brasil
Eventos climáticos adversos sejam talvez a única parte "não humana" do desastre humanitário da fome.

Um exemplo batido é a Venezuela, único país sul-americano a, na média, piorar no quesito de segurança alimentar nos últimos 10 anos. Desde 2013 o país enfrentou severas secas, sendo inclusive de 2013 a 2014 o período mais seco dos últimos 60 anos e com uma previsão nada animadora para as próximas décadas. Some isso a uma crise política que se arrasta por anos junto a uma grave desaceleração econômica em decorrência da queda do preço do petróleo, principal fonte de renda do país.

Todos esses fatores somados tiram do produtor o que ele precisa: o mínimo de segurança para tomar os riscos de adquirir crédito no mercado e investir na produção confiante de que poderá prosperar, o que faz a roda da miséria girar mais uma vez: menor produção, menor renda, menos recursos, mais conflitos.

Considere também a indisponibilidade total de alimentos em algumas áreas, mas também à questionável qualidade desses alimentos. Os EUA são um país fora do mapa da fome do mundo, no entanto lá pode ser visto um fenômeno cada vez mais comum: pessoas obesas e ao mesmo tempo subnutridas, resultado de uma somatória de fatores que inclui o preço dos alimentos frescos e estilo de vida. Não é exatamente fome, mas um estranho estado de “super-alimentação e subnutrição”.

 

Um futuro desafiador e cheio de incertezas

Antes de falar sobre o futuro, gostaria de deixar claro que a visão nunca foi animadora nesse sentido. Thomas Malthus, no século 19, talvez tenha sido o primeiro profeta da catástrofe prevendo que a velocidade de crescimento populacional seria muito maior que nossa capacidade de aumentar a produção de alimentos. Ele, felizmente, errou ao não enxergar o quão tecnológicos seríamos e o quanto, por exemplo, a revolução verde (período no século 20 marcado pelo brutal aumento na produtividade no campo guiado por avanços científicos) seria capaz de sustentar um crescimento populacional nunca antes visto.

Dito isso, temos enormes desafios: uma população crescente que deve chegar aos 10 bilhões em 2050, cujos principais contribuintes estão na África, uma maior demanda por proteína animal (muito mais custosa ambientalmente que as alternativas vegetais) conforme as classes médias avançam no mundo e uma mudança climática que, no máximo, pode ser amenizada, mas que com certeza não trará um clima melhor que o atual e que contribuirá para as perdas de terras aráveis já em andamento.

Anders Broberg, sob Attribution-Share Alike 2.0 Generic License
Nigéria é um dos países que mais devem contribuir com aumento populacional nos próximos anos.

Equilibrar todos esses fatores ambientais, sociais e culturais não é tarefa fácil. Ainda mais se levarmos em conta que a maioria das ações que podem mitigar esses desafios depende de uma articulação global em torno de fatos científicos, mesmo estando num tempo em que há forte pressão para se colocar em xeque os organismos de coordenação internacional, como a ONU, e uma onda de negação à ciência muitas vezes endossada por autoridades.

 

O que tem sido feito?

O desafio e, consequentemente, a oportunidade está aí: haverá mais pessoas no mundo, boa parte delas querendo proteína animal, o clima não ajudará e o planeta, mais do que nunca, se mostra limitado para uma atividade de uso descartável dos seus recursos. A articulação global em torno do desafio do clima não está progredindo da maneira como seria ideal, a crescente animosidade entre as nações, especialmente as grandes potências econômicas, não tem colaborado para que consigamos discutir e avançar em assuntos em nível global. Do ponto de vista político, portanto, o curto prazo não parece promissor.

No entanto, outros atores da sociedade não estão esperando que os políticos ajam com a responsabilidade que lhes é devida e já se lançam em busca de alternativas. Cientistas e empresas de base científico-tecnológica do mundo todo já apresentam algumas soluções, ainda que parciais, mas que devem fazer parte do nosso pacote de sobrevivência nesse século.

A primeira e mais factível do ponto de vista técnico é a mudança da dieta da população para um regime de menos dependência de proteína animal. Cientistas de várias partes do mundo uniram esforços em um relatório com o objetivo de propor uma dieta que seja saudável e ambientalmente sustentável para 10 bilhões de pessoas. Entre as orientações há o óbvio que poucas pessoas gostam de escutar: limitação da ingestão de proteína animal, especialmente bovina, e ênfase na ingestão de vegetais. Há um enorme desafio educacional e cultural no estabelecimento dessa dieta, especialmente aqui, um dos países que mais consome carne no mundo.

Uma proposta interessante tem sido o desenvolvimento das chamadas “fazendas verticais”, prédios equipados para o cultivo de plantas sem o uso de solo, com baixíssima perda de água, melhor controle sobre fertilizantes, reduzido uso de agrotóxicos e uso luz artificial. Já existem algumas funcionando de maneira comercial, principalmente para a produção de hortaliças.

Além das vantagens já citadas, elas podem estar próximos aos centro de consumo, reduzindo a emissão de gases e perdas decorrentes de transporte. Os desafios são ainda: a pequena gama de produtos capazes de serem produzidos sob esse sistema, deixando de fora por exemplo a enorme variedade de grãos que consumimos, e o alto custo, sendo muito difícil no estado atual competir com cultivos tradicionais. São desafios que o próprio avanço da ciência e engenharia tem chances de tratar.

Uma outra alternativa interessante é a carne feita em laboratório. Seja por meio de células animais cultivadas in vitro, seja pelo uso de proteínas de origem vegetal engenheiradas para simular sabor, aspecto e textura, essas opções querem oferecer a experiência de comer carne sem a necessidade de criação e abate, o que reduziria alguns dos malefícios ambientais da cadeia de produção de proteína animal. Em especial, o uso da terra para criação de bovinos, um dos grandes responsáveis pelo desmatamento da Amazônia atual.

 

Um caminho mais que técnico

Apesar dessas soluções técnicas serem muito interessantes e provavelmente importantes para o futuro, os relatórios da ONU a respeito deixam claro que mesmo hoje nossa limitação não é exatamente capacidade tecnológica. Sim, existe uma influência muito grande política e econômica sobre a segurança alimentar. As decisões do governo que levaram à greve dos caminhoneiros, por exemplo, não diziam respeito diretamente à criação de animais ou plantio e, no entanto, atingiram severamente a produtividade de diversos setores agrícolas e o acesso dos consumidores aos produtos, levando por fim a um impacto na disponibilidade e nos preços que não se diluiu imediatamente após a volta das atividades dos transportadores. (neste link você tem um relatório do Ipea detalhando vários desses impactos)

Mais do que avanço científico e tecnológico, está claro que é necessário estabilidade para que possamos avançar para a meta de erradicação da fome em 2030. Nós já sabemos que essa estabilidade não virá do clima e, se nada for feito, há dúvidas sobre a capacidade da humanidade de prover estabilidade política e econômica no futuro próximo e dar condições de caminharmos na direção de um mundo sem o mais primitivo dos problemas da humanidade.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.