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11/09/2020 02:00 -03

A batalha pelos eleitores latinos da Flórida pode decidir a eleição nos EUA

Após enfrentar ataques implacáveis e ser acusada de "socialista", a campanha de Joe Biden está transmitindo uma nova mensagem: Trump é o ditador que muitos latinos da Flórida temiam.

AP PHOTO/ANDREW HARNIK

Na Convenção Nacional Republicana, Jeanette Nuñez, vice-governadora da Flórida, descreveu um cenário terrível de como seriam os Estados Unidos sob o comando de Joe Biden. Relembrando a história da família, que fugiu de Cuba, ela alertou sobre o iminente “domínio socialista da nação” e incentivou os eleitores a apoiar o presidente Donald Trump.

“Podemos seguir por um caminho sombrio e caótico com controle total do governo ou podemos escolher o caminho da liberdade e da oportunidade, estabelecido por pessoas que sacrificaram tudo para preservar o sonho americano para as próximas gerações. Vamos apoiar o presidente na promessa de que a América nunca será um país socialista!”, disse ela.

Para vencer a eleição de 2020, Trump precisa da Flórida, já que nenhum republicano conquista a Casa Branca sem vencer no estado desde 1924. Com os números de Trump em queda nas pesquisas em vários campos de batalha importantes, é quase impossível chegar a uma combinação de resultados que faça o atual presidente atingir os 270 votos necessários do colégio eleitoral sem os 29 da Flórida.

Para vencer na Flórida, o presidente precisa de números semelhantes aos de 2016. Naquele ano, 54% dos eleitores cubano-americanos do estado, como Nuñez, apoiaram Trump, e não a candidata democrata Hillary Clinton. 

Tudo isso deu início a uma disputa acirrada entre Trump e Biden por esse grupo demográfico da Flórida, que pode não ser o maior bloco de eleitores latinos do estado, mas ainda é o mais influente. Além disso, o “socialismo” passou a ser o foco principal da disputa, principalmente com as batalhas dissimuladas de Trump para derrubar o presidente socialista da Venezuela, Nicolás Maduro, e acabar com o governo comunista em Cuba.

RICARDO ARDUENGO VIA GETTY IMAGES
Manifestantes carregam bandeiras cubanas, porto-riquenhas e costa-riquenhas durante um protesto antirracista em Orlando, na Flórida, após o assassinato de George Floyd. Depois de Trump acusar Joe Biden de favorecer o "socialismo

Ao contrário dos democratas nas últimas eleições, Biden não pode se dar ao luxo de ignorar as acusações de socialista. Ele tem uma pequena vantagem na Flórida, e as pesquisas da Fox News e da CNN mostram que ele está dois pontos à frente de Trump entre os latinos do estado, mas essa margem está bem atrás da obtida por Hillary em 2016. A relativa dificuldade de Biden com os latinos em todo o país demonstra que ele não fez o suficiente para conquistar os latinos que se opõem a Trump, mas que ainda não acreditam totalmente no candidato democrata. 

Biden está tentando virar o jogo contra Trump, mirando não apenas os cubano-americanos, mas também o segmento pequeno, porém cada vez maior, de venezuelano-americanos do sul da Flórida. Na semana passada, a campanha de Biden organizou uma mesa-redonda virtual com apoiadores que fugiram da Venezuela, de Cuba e de outros países antidemocráticos da América Latina e argumentaram que Trump representa o autoritarismo do qual muitos latinos da Flórida fugiram, o ditador que eles pensaram que tinham deixado para trás.

A resposta linha-dura do governo federal aos protestos antirracistas pode ajudar no argumento de Biden. Diego Scharifker, ex-líder de um movimento estudantil e ex-vereador em Caracas, que deixou a Venezuela em meio à repressão de Maduro a oponentes políticos e manifestantes, disse que as imagens de agentes federais disparando gás lacrimogêneo contra manifestantes em frente à Casa Branca em junho, para que Trump pudesse montar uma sessão fotográfica, foi uma lembrança preocupante de seu país de origem. 

“Desde que me mudei para os Estados Unidos, há três anos, sinto que estou vivendo um déjà vu”, disse Scharifker, um ex-membro da oposição venezuelana (que Trump apoia) e que agora faz parte do “Venezolanos Con Biden”, uma ramificação da base de campanha do candidato democrata, durante o evento de mesa-redonda. “Estou vivendo as mesmas situações que me fizeram fugir do meu país por causa da perseguição política e dos ataques à democracia”, completou. 

Daniela Ferrera, uma jovem de 22 anos que fugiu de Cuba e agora dirige o grupo “Cubanos Con Biden”, acrescentou que sua família “morre de medo” de Trump e de tudo o que a reeleição dele em novembro significaria para o país que adotaram como pátria. 

“Estamos revivendo o trauma que vivemos em Cuba. Perdemos uma pátria e nos recusamos a perder outra”, disse Ferrera.

Mais uma briga por causa do “socialismo” 

Trump lançou mão da narrativa do “socialismo”, imitando a estratégia que os republicanos da Flórida usaram contra os democratas em 2018. Naquele ano, eles conquistaram pequenas vitórias no Senado dos Estados Unidos e nas disputas para governador, em parte graças às altas margens entre os eleitores cubano-americanos no sul da Flórida, que haviam apoiado os democratas nas eleições anteriores.

A abordagem agressiva em relação a Maduro na Venezuela, ao atual governo de Cuba e ao presidente Daniel Ortega da Nicarágua, a chamada “Troika da Tirania” dos líderes latino-americanos de esquerda, ajudou a aumentar o apoio a Trump entre os cubano-americanos. Dois terços desses eleitores aprovaram o presidente em uma pesquisa realizada em novembro de 2019 pela Equis Research, uma empresa que se concentra nos eleitores latinos. Entre aqueles que chegaram aos EUA depois de 1993, um grupo que normalmente tem uma visão mais favorável dos democratas, três quartos aprovaram a abordagem de Trump em relação a Cuba e à Venezuela. 

A pesquisa sobre um hipotético confronto direto entre Trump e um candidato democrata revelou que o presidente estava à frente por 63 a 29, um resultado que, segundo estimativas da empresa, renderia 90 mil votos a mais em relação ao total que ele conquistou em 2016, quando venceu na Flórida por pouco mais de 100 mil votos. 

Frank Mora, professor de política e relações internacionais na Florida International University em Miami, afirma que o fracasso de Trump em derrubar Maduro e promover a nova democracia latino-americana que havia prometido, além da falta de competência na resposta à pandemia de coronavírus, que matou pelo menos 10 mil moradores da Flórida, não deixaram muita escolha, a não ser intensificar ainda mais esse discurso.

“É um discurso pautado na disseminação do medo e na tentativa de manipular as emoções das pessoas, que estão frustradas com a falta de mudanças na Venezuela e em Cuba. Quem tem pouco a oferecer, ou não tem um plano muito bem traçado para seguir, só pode recorrer a essa campanha do medo”, diz Mora.

As iniciativas de Biden para reagir também são influenciadas pelas derrotas de 2018 e pelo fato de que quase metade dos votos dos eleitores cubano-americanos ainda estão em disputa, de acordo com a Equis.

Dois anos atrás, muitos democratas acreditavam que manter o foco no sistema de saúde ajudaria a aumentar a aceitação do partido entre os eleitores latinos, principalmente nas cidades do sul da Flórida, onde vivem muitos cidadãos cubano-americanos e onde há um dos maiores números de inscritos no programa “Affordable Care Act” (conhecido popularmente como Obamacare) do país. Quando perderam as disputas para governador e senador, muitos democratas perceberam que, em 2020, teriam que fazer muito mais para conter a narrativa do “socialismo”, por mais cínica que parecesse. 

“Não houve um diálogo para definir o que é ou não é socialismo, nem mesmo uma conversa sobre autoritarismo e o que está acontecendo agora no país”, disse Stephanie Porta, diretora executiva do Organize Florida, um grupo de base progressista.

A falta desse diálogo em 2018 pode ter prejudicado as iniciativas democratas para mudar a narrativa da eleição. As pesquisas mostram que apenas um pequeno número de cubano-americanos considera a política externa de um candidato em relação a Cuba ao votar. No entanto, em grupos de discussão, os pesquisadores da Equis observaram que a “mera menção do socialismo” pode mudar as opiniões dos cubano-americanos sobre questões como saúde, onde as pesquisas mostram que muitos têm opiniões mais favoráveis a políticas progressistas. 

“Há assuntos que as pessoas nem consideram, como a expansão do programa de saúde social Medicaid, porque estão associados a outros sistemas [políticos] que não têm nada a ver com o momento atual”, disse Ana Sofía Peláez, ativista e escritora cubano-americana, que mora em Miami. Após as eleições de 2018, ela ajudou a lançar o projeto Miami Freedom para promover o posicionamento mais progressista entre os eleitores cubanos no sul da Flórida. “Realmente tentamos mudar o foco dessas conversas”.

Para tentar reduzir a possível popularidade de Trump entre os eleitores cubanos e venezuelanos indecisos, os democratas argumentaram que os rompantes autoritários de Trump fazem com que ele veja Cuba e Venezuela apenas como a extensão de uma agenda política e eleitoral interna hostil em relação à democracia e, especialmente, aos latinos. 

“Trump não fez nada para melhorar a situação em Cuba ou na Venezuela”, disse a deputada Donna Shalala, democrata de Miami que conquistou uma cadeira na Câmara pela Flórida em 2018. “O presidente pode gritar ‘socialista’ e ‘comunista’ o quanto quiser, mas as ações dele vão acabar se voltando contra ele”. 

Mais de 4 milhões de venezuelanos deixaram o país nos últimos cinco anos em meio a um colapso econômico e ao governo autoritário de Maduro, mas Trump e o Partido Republicano se recusaram a conceder Status de Proteção Temporária aos 200 mil migrantes do país que tentaram entrar nos Estados Unidos (Biden disse que concederia proteção temporária aos venezuelanos no início assim que começasse a governar).

Trump intensificou a repressão aos imigrantes cubanos, que por décadas tiveram status preferencial ao imigrar para os Estados Unidos. O país deportou mais de 1.100 cubanos em 2019, 10 vezes o número de imigrantes enviados de volta à ilha no último ano da presidência de Barack Obama. 

Segundo Shalala, as deportações fizeram com que a imigração, que costuma ser uma questão secundária na Flórida devido à predominância das comunidades porto-riquenha e cubana, assumisse um papel de destaque nas eleições deste ano.

Biden deu destaque às políticas de Trump na Convenção Nacional Democrata. “Ele deixou a comunidade latina na mão em várias ocasiões para satisfazer a direita perversa do partido dele, sempre incitando o ódio”, disse o candidato durante uma conversa com Lin-Manuel Miranda, protagonista do musical Hamilton.

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A estratégia de Biden tem como base as derrotas democratas na Flórida em 2018, quando o senador Ben Nelson (Partido Democrata) perdeu sua cadeira na Câmara porque os candidatos republicanos superaram as expectativas com os eleitores porto-riquenhos e ganharam grandes margens com os cubanos.

A pandemia mudou o panorama 

As comunidades latinas e caribenhas da Flórida não são um bloco único, e as derrotas dos democratas nas últimas eleições não podem ser atribuídas apenas às dificuldades para conquistar os eleitores cubano-americanos. Em 2016, o partido também perdeu espaço entre os haitianos e, em 2018 não conseguiu atingir o número de votos esperado de porto-riquenhos, que constituem o maior grupo de eleitores latinos na Flórida, já que milhares deles se mudaram para o estado depois do furacão Maria. 

Os esforços para conquistar os eleitores cubano-americanos não servem necessariamente para ganhar terreno entre os outros eleitores latinos, e falar de “socialismo” não ajuda o candidato a avançar muito fora do sul da Flórida. No entanto, destacar o autoritarismo de Trump pode ajudar. Este ano, a Equis Research descobriu em grupos de discussão que destacar as tendências autoritárias de Trump ajudou a aumentar a oposição ao presidente entre os latinos que vivem na Flórida e que não são cubanos ou venezuelanos. 

“Tenho idade suficiente para entender os princípios que caracterizam uma ditadura. Analisando o governo atual dos Estados Unidos, vejo os mesmos padrões que precisei enfrentar no meu país de origem”, disse Frandley Julian, advogado de Miami que nasceu no Haiti na época da ditadura de Duvalier no país, durante a mesa-redonda virtual na semana passada. 

Ao combater o ataque “socialista”, a campanha de Biden claramente espera mudar o foco da eleição para a pandemia de coronavírus, que afetou desproporcionalmente os latinos e causou um grande impacto econômico, elevando as taxas de desemprego e intensificando questões como moradia acessível e salário mínimo. 

“A comunidade hispânica foi extremamente afetada pela COVID. Eles perderam os empregos, não têm acesso a serviços de saúde de qualidade e estão começando a enfrentar a escassez de alimentos. O aluguel está subindo muito aqui, e eles sabem que sob a administração de Trump, a vida ficará ainda mais difícil”, disse a deputada Debbie Mucarsel-Powell, que é equatoriana-americana e conquistou o cargo pelo Partido Democrata no sul da Flórida em 2018.

No entanto, Trump ainda está em alta entre os latinos da Flórida pela forma de lidar com a economia, mesmo em meio à crise impulsionada pela pandemia. Recentemente, ele tentou reforçar sua posição nessa frente com uma agenda voltada para os latinos, além de anúncios criticando Biden por querer aumentar os impostos

“A comunicação contra Trump não é suficiente. As pessoas querem saber qual é o posicionamento de Biden”, disse Andrea Mercado, diretora executiva da New Florida Majority, um grupo de base progressista que trabalha para mobilizar e registrar eleitores latinos em todo o estado. 

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Em janeiro, o Partido Democrata da Flórida comprou um outdoor com a frase "Nunca se esqueça" em espanhol para lembrar aos eleitores porto-riquenhos a atitude desdenhosa de Trump em relação ao furacão Maria, que destruiu a ilha em 2017.

Em agosto, Biden divulgou sua agenda para a comunidade latina, que descreve propostas políticas detalhadas sobre uma série de questões econômicas, incluindo moradia acessível, acesso a serviços de saúde, empregos, salários e apoio a pequenas empresas latinas. 

“Vamos usar todas as ferramentas que temos à disposição para enfrentar as desigualdades que prejudicam os latinos”, disse Biden durante a conversa com Miranda. Ele também criticou Trump por “virar as costas” aos porto-riquenhos em relação ao furacão Maria, prometendo que, como presidente, “nunca faria isso”. 

Ainda existem preocupações, principalmente entre os progressistas, de que Biden não tenha feito o suficiente para mobilizar os líderes da comunidade latina ou os jovens eleitores que poderiam ajudar a garantir uma vitória democrata. Além disso, a campanha e o partido ainda estão muito concentrados em conquistar moderados às custas da base. “Nossos eleitores indecisos não são pessoas que deixam de ser republicanas e passam a ser democratas, são pessoas que não sabem se votam ou ficam em casa”, disse Mercado. “Essa é a nossa tarefa: conversar, mobilizar e expandir o eleitorado”.

O Partido Democrata da Flórida não atingiu a meta de registrar 1 milhão de novos eleitores antes da eleição de 2020. No entanto, mais de 107 mil novos eleitores latinos se cadastraram em 2019, de acordo com o gabinete do secretário de estado da Flórida. Embora quase metade não tenha escolhido uma filiação partidária, 33% deles se inscreveram como democratas, quase o dobro do número que escolheu o Partido Republicano.

A participação nas eleições primárias estaduais de agosto foi especialmente alta no sul e no centro da Flórida e, pelo menos em Miami, os novos eleitores marcaram presença nas urnas. De acordo com Christian Ulvert, um veterano estrategista político da Flórida, cerca de um terço das cédulas eram de eleitores de primeira viagem. 

Segundo ele, 70% dos eleitores democratas e não afiliados que votaram pela primeira vez eram latinos.

Tara Golshan colaborou. 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.