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06/06/2020 11:56 -03 | Atualizado 10/06/2020 07:15 -03

Flexibilização do isolamento no Brasil tem início na pior fase da epidemia de covid no País

País ultrapassou EUA em número de mortes diárias e se tornou epicentro da doença; 'Brasil é o único que está colocando o pé no acelerador', diz pesquisador.

O cenário é desolador. No momento em que o Brasil se torna o epicentro das mortes pela pandemia de covid-19 no mundo, contabilizando recordes diários de mais de 1.000 óbitos, grandes centros urbanos, como São Paulo e Rio de Janeiro, iniciam a flexibilização do isolamento social. Capitais de estados no topo da lista de vítimas fatais, como o Amazonas, fizeram o mesmo nos últimos dias.

Na decisão mais recente, o governador do Rio, Wilson Witzel, determinou, por decreto publicado na noite de sexta-feira (5), que poderiam reabrir em todo o estado, com algumas restrições, shoppings centers, restaurantes e bares, cultos religiosos e jogos de futebol. No entanto, a Justiça do Rio de Janeiro chegou a suspender essas atividades nesta segunda-feira (8), mas na terça (9), outra decisão da Justiça derrubou a liminar e autorizou o relaxamento do distanciamento social. 

Desde o início do mês, o País já somou 5.712 mortes confirmadas em 5 dias. Os Estados Unidos, que registram mais óbitos no total, tiveram 4.492 mortes confirmadas no mesmo período.

Para o pesquisador Domingos Alves, do grupo Covid-19 Brasil – que reúne cientistas de universidades brasileiras e de centros de pesquisa como a Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e a Universidade Johns Hopkins (EUA) –, há um enorme descompasso entre a situação que o País, “entrando na pior fase da epidemia”, e as decisões dos governantes.

“Houve um apagão entre os cientistas que estavam monitorando esse cenário e o que os gestores estão falando. E a população não sabe o que fazer. Já está cansada de ficar em casa e está sendo deixada levar, quando, na verdade, estamos entrando na pior fase da epidemia no Brasil”, afirma Alves, professor do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo).

O grupo Covid-19 fez uma projeção na qual os municípios do estado de São Paulo que reduzirem o distanciamento social podem ter um aumento de até 150% no número de infectados e mortos pelo novo coronavírus em dez dias. O estado de São Paulo já soma 8.842 mortes, o pior cenário do País. O governo anunciou recentemente um plano de reabertura em 5 fases, de acordo com a situação de cada município.

A simulação do grupo sobre São Paulo é feita com base em diferentes estudos. Um deles, com dados da cidade de Blumenau (SC), mostra um crescimento de 244% dos contaminados na cidade entre 13 de abril e 4 de maio, período após a reabertura de lojas comerciais e dos shopping centers. 

Já um relatório do Imperial College de Londres, com foco específico no Brasil, prevê que, se as intervenções para reduzir a circulação de pessoas forem ampliadas em 50%, o número diário de infecções diminui em torno de 3 vezes em 15 dias. Por outro lado, se houver um relaxamento em 50%, o número diário de infecções aumentaria em torno de 11 vezes no mesmo período. Outro estudo alemão alerta que a contenção do surto é muito mais lenta do que sua expansão, mesmo com medidas contundentes do poder público.

Quais os critérios para flexibilizar o isolamento?

Com base na experiência de diversos países que já passaram pela fase mais aguda da pandemia, a OMS (Organização Mundial da Saúde) estabeleceu alguns critérios que devem ser seguidos para governantes flexibilizarem o isolamento social. São eles:

  1. Transmissão do vírus controlada; 
  2. Sistemas de saúde com capacidade de detectar, testar, isolar e tratar todas as pessoas com coronavírus e os seus contatos mais próximos;
  3. Controle de surtos em locais especiais, como instalações hospitalares;
  4. Medidas preventivas de controle em ambientes de trabalho, escolas e outros locais que as pessoas precisam frequentar;
  5. Manejo adequado de possíveis novos casos importados;
  6. Comunidade informada e engajada com medidas de higiene e novas normas.
  7. Reduzir a possibilidade de ocorrência de transmissão intensificada de SARS-CoV-2 em territórios e populações com maior vulnerabilidade social.

A análise dos boletins epidemiológicos evidencia que a transmissão não está controlada. A testagem no Brasil também deixa a desejar: 8.737 exames por milhão de habitantes, contando testes moleculares e sorológicos já processados. Nos Estados Unidos, por exemplo, o indicador é de 37.188 testes por milhão de habitantes.

A maioria do material distribuído pelo Ministério da Saúde são os testes rápidos: 7,5 milhões até a última sexta. Esse tipo identifica se há anticorpos no corpo. Já os testes moleculares RT-PCR, somam apenas 3,1 milhões no mesmo período. Eles detectam a presença do vírus no organismo. São mais precisos, mas também mais caros e demorados para informarem o resultado porque passam por análise laboratorial.

A baixa testagem também se reflete na subnotificação. Estudos estimam que o total de contaminados pode ser cerca de 10 vezes superior aos dados oficiais. A grande maioria dos exames moleculares é direcionada a casos graves. O sistema de saúde tampouco tem sido eficaz em fazer uma busca ativa para acompanhar os contatos próximos de infectados. 

O colapso em alguns hospitais tem afetado não só pacientes, como também as equipes. De acordo com o Conselho Federal de Enfermagem, são 17.522 profissionais infectados e 173 mortos.

Quanto à informação, o governo federal não só não promoveu uma campanha nacional para conscientizar a população, como o presidente Jair Bolsonaro minimiza a pandemia e critica reiteradamente o isolamento social. A principal medida voltada para a população em maior vulnerabilidade social, o auxílio emergencial, por sua vez, tem apresentado diversas falhas para, de fato, garantir uma renda que permita às pessoas ficarem em casa. 

Há também um represamento no repasse de verbas. O Ministério Público Federal determinou a abertura de um inquérito civil público para apurar a baixa aplicação de dinheiro público do governo federal em ações voltadas à pandemia.

De acordo com os procuradores, de R$ 11,74 bilhões disponibilizados para execução direta, pelo Ministério da Saúde, somente R$ 2,59 bilhões haviam sido empenhados e apenas R$ 804,68 milhões foram efetivamente pagos até 27 de maio, o que significa que apenas 6,8% dos recursos disponíveis haviam sido gastos.

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Estudo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), prevê um novo pico, mais intenso que o primeiro, no início de junho. 

Que cidades estão flexibilizando o isolamento?

A projeção para o aumento de 150% dos casos de covid-19 nos municípios paulistas considera o plano de 5 fases anunciado pelo governo de João Doria (PSDB), cujos critérios são criticados por especialistas. 

Na fase mais rígida, a vermelha, os estabelecimentos permanecem fechados. A seguinte, laranja, permite a abertura de parte do comércio, incluindo shoppings, com horário reduzido. A terceira, amarela, libera bares, restaurantes e salões de beleza. Todas cidades paulistas foram classificadas nesses três níveis, de acordo com a ocupação dos leitos de unidades de terapia intensiva (UTI) e a evolução dos casos confirmados da doença.

A capital paulista está na fase laranja e já permitiu a reabertura de parte do comércio. Escritórios e concessionárias de veículos foram autorizados a reabrir nesta sexta.

Para Alves, no entanto, a situação ainda vai ser mais crítica onde não há um plano tão detalhado. “O Rio vai ser bem pior. Amazonas vai ser bem pior, porque nem critério eles têm”, alerta.

O prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), anunciou um plano em 6 fases, que começou com a liberação de atividades ao ar livre e parte do comércio. 

Um dia antes do anúncio do prefeito do Rio, a Fiocruz publicou uma nota técnica em que alerta que não é o momento para reabertura. O estudo identifica que há  “tendência ainda de crescimento do número de casos novos, tanto no estado do Rio de Janeiro, quanto no Brasil”. “Uma flexibilização das medidas, muitas das quais não integralmente adotadas em todo estado e municípios, pode alterar as tendências atuais, fazendo novamente a transmissão ser aumentada nas próximas semanas”, diz o documento.

Os pesquisadores também alertam para a situação do sistema hospitalar. “A fila para acesso ainda é muito grande e se observa incapacidade de atendimento hospitalar de todos os pacientes com covid-19 que o demandam. A mortalidade é elevada como resultado da dificuldade no acesso aos cuidados de saúde necessários”, diz a nota.

Devido à forma de transmissão e à estrutura da rede de saúde – em que o hospital de um município é referência para atender à população de cidades ao redor – flexibilizar as medidas de controle em uma cidade ou estado coloca em risco o entorno, “tanto pela facilitação da difusão do vírus em direção de interior, quanto pela produção de uma demanda extra de serviços de saúde, que recairão sobre estas grandes cidades”, de acordo com a Fiocruz.

A recomendação dos especialistas é que indicadores como a taxa de ocupação de leitos, por exemplo, devem ser estar estáveis por pelo menos duas semanas para se pensar em qualquer tipo de relaxamento. O mesmo prazo vale para dados epidemiológicos.

A falta de coordenação dos planos ocorre tanto entre prefeitos e governadores quanto na esfera nacional. O Ministério da Saúde não informa critérios claros para orientar a flexibilização.

Além do Rio, Manaus também iniciou a abertura na última semana. A cidade que foi primeiro cenário do colapso do SUS (sistema único de saúde) é a única no estado com leitos de UTI (unidade de terapia intensiva).

Estudo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), prevê um novo pico, mais intenso que o primeiro, no início de junho. De acordo com a pesquisa, há pelo menos, 85 mil pessoas infectadas na capital, o que representa mais de 10% da população. 

Brasil é epicentro da pandemia do novo coronavírus

De acordo com Alves, além de Rio, São Paulo e Amazonas, outros estados em situação grave são Espírito Santo, Pernambuco, Amapá, Acre, Roraima e Maranhão, considerando a curva por 100 mil habitantes com número de casos e número de óbitos. O pesquisador destaca que é importante analisar a evolução dos dados e não números absolutos.

“No sábado passado, em todos os estados, tirando Ceará, a situação era de aceleração do número de casos e óbitos. Estamos talvez na situação mais crítica da história da epidemia no Brasil”. Alves destaca que o Rio é a unidade da Federação com maior taxa de letalidade e a capital fluminense é a cidade com maior letalidade na comparação com outras capitais, com base em dados das secretarias estaduais.

Somos o único país no mundo em que o número casos e óbitos está acelerando. Todos os países a partir do dia 50 estava num processo de desaceleração, começaram a colocar o pé no freio. O Brasil é o único que está colocando o pé no aceleradorDomingos Alves, pesquisador do Covid-19 Brasil

No ranking de números absolutos, São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará, Pará e Pernambuco estão no topo do total de mortes por covid-19. Na análise que considera o tamanho da população, Amazonas liderava com 516 mortes por milhão de habitantes, de acordo com dados compilados até 3 de junho. Em seguida, aparecia Ceará (395), Pará (371), Rio de Janeiro (348), Pernambuco (315), Amapá (292), Roraima (205), Acre (194), São Paulo (180) e Espírito Santo (174).

As 10 capitais com maior taxa de óbito causado pela covid-19 por milhão de habitantes com dados até 3 de junho eram Belém (932 por milhão de habitantes), Fortaleza (874), Recife (681), Manaus (645), Rio de Janeiro (604), São Luís (486), São Paulo (373), Rio Branco (322), Maceió (311) e Vitória (301).

O Ministério da Saúde deixou de fazer uma análise detalhada nas coletivas de imprensa sobre a gravidade da crise sanitária. Na última quinta, por exemplo, o então secretário substituto de Vigilância em Saúde, Eduardo Macário, admitiu que há um aumento crescente de casos e mortes por covid-19 a cada semana, mas não respondeu quando será o pico da pandemia. 

No mesmo dia, a pasta informou que o Brasil contabilizava 2.779 casos da doença por milhão de habitantes e 155 óbitos por milhão de habitantes. Os indicadores variam dentro do território, sendo que a região Norte está na situação mais crítica, com 333 óbitos por milhão de habitantes. 

O relaxamento também contrasta quando comparamos o Brasil com outros países. ”Somos o único país no mundo em que o número casos e óbitos está acelerando. Todos os países a partir do dia 50 estava num processo de desaceleração, começaram a colocar o pé no freio. O Brasil é o único que está colocando o pé no acelerador”, destaca Alves.

A partir do 54º dia, o Brasil é o país com a maior taxa de crescimento de casos confirmados, de acordo com dados analisados pelo grupo de pesquisadores. Países como Espanha, Suíça e França experimentaram uma taxa de aceleração muito alta no início, mas agora têm um comportamento de desaceleração. Além do Brasil, os únicos países que não têm diminuído os números de casos e mortes são Irã, Índia, Rússia e Austrália.

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Brasil é o país com a maior taxa de crescimento de casos confirmados.

Como evoluiu a pandemia dentro do Brasil?

São Paulo foi a primeira unidade da Federação a apresentar um caso do novo coronavírus, registrado em 26 de fevereiro, além do primeiro óbito, em 17 de março, embora uma pesquisa da Fiocruz tenha revelado que o patógeno já estava em circulação no País cerca de um mês antes.

Na primeira semana de março, foram notificados casos confirmados na Bahia, no Distrito Federal, Espírito Santo e Rio de Janeiro. O último estado a confirmar um diagnóstico foi Roraima, em 22 de março. Já Tocantins foi o último a confirmar uma morte causada pela doença, em 15 de abril.

De acordo com boletim epidemiológico do Ministério da Saúde publicado em 29 de maio, as regiões Nordeste e Sudeste apresentam um padrão semelhante à curva brasileira de contágio nacional. As demais regiões encontram-se em uma fase anterior da epidemia, porém mostrando incrementos importantes nas últimas semanas.

Ao longo do tempo, houve uma interiorização da epidemia. Segundo informações divulgadas pelo Ministério da Saúde nesta quinta, 4.222 (75,8%) dos municípios brasileiros registraram casos de covid-19 e 1.821 (32,7%) confirmaram óbitos causados pela doença. Em 28 de março, apenas 297 registravam a presença do vírus.

O ministério não divulga informações atualizadas das mortes ocorridas no dia, apenas mortes confirmadas no dia. Segundo dados divulgados pela pasta na última semana, 12 de maio foi o dia com maior número de óbitos em um único dia: 670. Essas informações são constantemente atualizadas, então há variação dos dados.

A expectativa é que o número atual de óbitos causados pela covid-19 no Brasil seja ainda maior do que os balanços divulgados diariamente devido à demora no resultado dos exames.

Como o HuffPost vem noticiando, a lentidão no processamento de testes laboratoriais, que detectam tanto a causa da morte quanto se a pessoa foi contaminada, leva a um atraso nos dados oficiais. Há uma subnotificação de diagnósticos também devido à limitação de testes de diagnóstico.