MULHERES
05/03/2020 02:00 -03

'Sou fisiculturista. Quando postei esta foto amamentando, as pessoas surtaram'

"Se você perguntar a um médico sobre amamentação e fisiculturismo, ele provavelmente dirá que é má ideia tentar realizar as duas coisas ao mesmo tempo."

Courtesy of Jordan Musser
Jordan Musser amamentando sua filha depois da Competição de Biquíni do Comitê Nacional de Fisiculturismo, em Pittsburgh, onde ela ganhou dois títulos de primeiro lugar, em setembro de 2019.

Imagine a seguinte situação: você está de pé sob holofotes fortes, sobre um palco, diante de algumas centenas de pessoas. Está nua com a exceção de um biquíni minúsculo e cintilante que custou US$ 400 (o equivalente a R$ 1.840) e foi colado sobre seu peito e seu bumbum.

Você está cor de laranja e com cheiro forte de bronzeador em spray, que recebeu quando se postou totalmente pelada diante de uma desconhecida armada de uma pistola de spray que lhe pediu para separar suas nádegas para ter a certeza de o bronzeador alcançar todas as fendas de seu corpo.

Você vai caminhar até o centro do palco usando salto de 10 cm, para ser julgada por uma equipe de cinco pessoas que vão ficar de olho para flagrar qualquer átimo de gordura, qualquer marquinha de celulite, qualquer músculo pouco desenvolvido ou assimétrico, para determinar seu lugar no ranking de competidoras. A maioria das pessoas em volta vai estar torcendo contra você.

Isso soa como seu pior pesadelo? Para mim, é emoção, é atenção concentrada, é loucamente instigante. É nesse ambiente que eu cresço e me sinto forte.

Faço parte da indústria do fitness há quase dez anos. Encaro a parte menos visível desse setor como o fitness extremo, um mundo formado pelo esforço incansável de aumentar seus músculos e encolher quaisquer depósitos remanescentes de gordura que tenham ousado permanecer em seu corpo. É exaustivo. É uma coisa que faz suar, que é altamente cansativa, toma muito tempo e custa caro.

Seu corpo dói e sua mente parece te enganar, convertendo cada olhar rápido no espelho em uma dissecação completa de qualquer imperfeição física. Seus músculos vão crescendo, e seu ego fica ainda maior. Você é capaz de andar no meio de uma multidão e pensar “eu sou a pessoa mais esbelta, mais forte, mais musculosa aqui”, e, então, voltando para casa, olhar-se no espelho e pensar “sou uma mixaria, sou lamentável, não tenho a menor chance”. É a guerra física e psicológica que você trava consigo mesma. Eu adoro isso.

Preparar-se para uma competição de bodybuilding, ou fisiculturismo, requer manipulação altamente detalhista de sua alimentação, quantidades rigorosas de cardio e longas horas passadas na sala de musculação. Nas minhas fases mais intensas, cheguei a passar quase três horas por dia levantando pesos e fazendo cardio. Consumi a mesma refeição de frango, pepinos e vinagre duas vezes por dia durante semanas a fio. Levei recipientes de comida insossa, com os macronutrientes balanceados, para festas e jantares, onde desviei os olhos do macarrão com queijo e das sobremesas das outras pessoas para, em vez disso, mastigar mais um pedaço de frango frio.

É uma coisa que faz suar, que é altamente cansativa, toma muito tempo e custa caro. Seu corpo dói e sua mente parece te enganar, convertendo cada olhar rápido no espelho em uma dissecação completa de qualquer imperfeição física.

Uma parte muito grande do fisiculturismo competitivo enfoca o corpo físico, ao mesmo tempo em que segura com firmeza as rédeas do eu mental. Debaixo do chuveiro, penso no meu levantamento terra; vou dormir ensaiando mentalmente a sequência que sigo no palco: “Garotas, virem para trás. Garotas, virem para a frente”. Curve para trás, contraia os glúteos, contraia o core, repita de novo, e mais uma vez, mais uma vez, mais uma vez até que não haja mais como errar. É uma coisa que me consome, que toma conta de minha vida.

Eu estava no meio desse regime de treinamento competitivo quando descobri que estava grávida. Como você pode imaginar, gravidez e fisiculturismo competitivo são duas coisas que não combinam. Abri mão temporariamente do meu sonho de competir. Continuei a levantar pesos ao longo de toda a gestação, com a barriga de grávida aparecendo debaixo das minhas camisetas enquanto eu fazia repetições de abdominais ou levantava halteres. Eu ficava ridícula andando pela sala de musculação como pata choca, tentando conservar algum resquício de músculos ou força enquanto minha barriga crescia sem parar. Tive um parto em casa horrível. Atribuo o fato de eu ter conseguido passar por aquilo ao exercício físico que não parei de fazer durante toda a gravidez.

Então entrei no ritmo da vida como mãe. Perdi o peso extra rapidamente e fui pouco a pouco retomando os exercícios. De repente, subir ao palco voltou a ser uma possibilidade no meu horizonte. Entrei em contato com meu treinador, e juntos traçamos um plano. Só havia um problema: eu estava amamentando e não pretendia parar.

O fitness extremo e a amamentação raramente dividem o mesmo espaço. São duas coisas que inerentemente não combinam. Uma presume dureza, agressividade e emagrecimento controlado. A outra cultiva imagens de vitalidade, calor humano, acolhida e flexibilidade feminina.

Muitas mulheres perdem o leite se têm uma queda no seu nível de gordura corporal. Eu estava planejando uma perda quase completa de gordura corporal. Estava planejando passar horas levantando pesos e correndo, além de seguir uma dieta de controle calórico rígido. É quase impossível fazer sua gordura corporal cair para zero e continuar a produzir leite, mas eu estava determinada a fazer isso acontecer.

Courtesy of Jordan Musser
Jordan Musser (à esquerda) dois meses depois de dar à luz e (à direita) 15 dias antes de sua primeira competição depois de dar à luz. As fotos foram feitas com pouco menos de um ano de diferença entre uma e outra. 

Eu não hesitava em contar às pessoas que era fisiculturista e amamentava minha filha. No dia de minha primeira competição depois de dar à luz, contei ao grupo de mulheres no backstage que eu ainda estava amamentando. Um silêncio se fez entre o grupo. Todas se voltaram para me olhar, com expressões de espanto em seus rostos bronzeados demais.

Eu tinha um certo prazer em provocar a reação de incômodo que sempre havia depois de eu soltar essa informação. As reações inevitavelmente se dividiam em três tipos. Havia o pessoal que dizia “vai lá, garota!”, que achava que o que eu estava fazendo era uma loucura, mas muito bom. Havia as pessoas que diziam “oh, você ainda está amamentando”, que provavelmente nem aprovavam o aleitamento materno em primeiro lugar, e com certeza não aprovavam uma mãe ainda estar dando de mamar à sua filha de 10 meses de idade. E havia pessoas que reagiam com choque, dizendo “será que isso é saudável?”

Essa última reação me incomodava, isso porque, para falar a verdade, a pergunta é válida. É saudável? É justo querer que a partir do frango e espinafre que lhe estou fornecendo meu corpo ainda por cima produza uma substância para alimentar minha filha pequena, em constante crescimento? É justo correr atrás de uma meta que nasceu de minha própria vaidade, se isso possivelmente se dá às custas de minha bebê? Vale a pena? Se meu leite secar porque eu intencionalmente não consegui manter o equilíbrio corporal necessário para produzir leite, isso significa que terei fracassado como mãe?

Que espécie de mãe corre o risco de não conseguir nutrir sua filha para ter a oportunidade de se exibir em um palco quase nua e ganhar um troféu barato? Que espécie de mãe reserva tanto tempo para si mesma que consegue passar horas diárias na academia – o tempo necessário para ganhar um físico musculoso, endurecido ―, sendo que a maioria das mães mal consegue arrumar tempo suficiente para si mesma para tomar um banho? Será que amamentação e fitness extremo são tão incompatíveis que não podem coexistir? E será que estou fazendo algo de errado?

Se você perguntar a um médico sobre amamentação e fisiculturismo, ele provavelmente dirá que é má ideia tentar realizar as duas coisas ao mesmo tempo. A maioria dos profissionais médicos desaprova o próprio fisiculturismo. Trata-se, afinal, de passar fome de maneira controlada. É uma espécie de transtorno alimentar com a finalidade de ganhar um troféu. É um mundo estranho e que muitas vezes é mal compreendido.

Courtesy of Jordan Musser
Musser e sua filha exercitando-se juntas.

Existem maneiras responsáveis de tentar alcançar resultados tão extremos, e eu me orgulho de ser o mais saudável possível dentro do meu estado pouco saudável. Mas a realidade é que quando você está treinando para alcançar um corpo com nenhuma ou praticamente nenhuma gordura, preparado para expor sobre um palco, você está privando seu corpo de coisas que ele necessita. Às vezes você fica carente de vitaminas e nutrientes. E fica completamente carente de combustível.

A amamentação requer combustível. A amamentação ocorre melhor quando a mãe possui uma reserva calórica. Em última análise, seu bebê se alimenta daquilo que você se alimenta, e, quando sua dieta é composta de vinagre e frango, seu leite materno reflete isso. Seu corpo vai priorizar a alimentação de seu bebê e vai criar o leite mais rico em nutrientes que ele consegue, mas há um limite ao que ele consegue.

No auge de meu preparo competitivo, minha filha ainda estava sendo alimentada principalmente com meu leite materno. Eu estudei nutrição. Eu sabia que, se não me alimentasse de uma maneira que beneficiasse tanto o corpinho crescente dela quanto minhas metas de fitness, poderia privá-la de nutrientes.

Ao longo de meu trabalho de preparação para competir, meu foco principal foi consumir gordura. Segui uma dieta de alta gordura, alta proteína, rica em nutrientes (que incluía frango, peru e carnes vermelhas magras, ovos inteiros, leite e laticínios gordos, batatas doces, verduras de folha em grande quantidade, smoothies verdes e ocasionais shakes de proteínas) e monitorei minha produção de leite cuidadosamente, assistida por meu treinador. Ele controlava as mamadas de modo detalhado e cuidou para eu consumir uma abundância de gorduras até o própria dia antes da competição. Uma coisa que eu jamais teria previsto era que pelo menos duas vezes por semana um homem me perguntasse “como anda seu leite?”, mas foi o que aconteceu, e fiquei grata por isso.

Não pude tomar nenhum dos suplementos que eu tomaria normalmente, com a exceção de creatina, devido à possibilidade de chegarem ao meu leite materno. Não tomei nenhum tipo de droga, medicamento ou produto para realçar meu físico, e evitei completamente os diuréticos que são uma parte tão comum da preparação para competições. Muitas vezes os competidores tomam diuréticos para chegar ao palco com o corpo enrijecido. Quando você está amamentando, ficar desidratada não é uma opção.

Eu sabia também que as substâncias químicas do bronzeador em spray não devem ser ingeridas, especialmente não por um bebê, por isso tomei o cuidado de, antes de fazer o bronzeamento, cobrir qualquer parte de meu corpo que pudesse entrar em contato com a boca dela. Minha pele ficou com a aparência muito estranha, mas isso impediu minha filha de ingerir qualquer coisa que pudesse lhe fazer mal.

De certa forma, pelo bem de minha filha, eu estava dificultando ao máximo a tarefa de me preparar para subir ao palco. Eu não tinha vantagem nenhuma. Não tinha atalhos. Estava tentando encontrar aquele equilíbrio delicado entre nutrir meu corpo para poder nutrir o corpo de minha bebê e esgotar meu corpo sem esgotar o dela.

Courtesy of Jordan Musser
Musser e sua filha cerca de três meses após a competição de biquíni em 2019.

Eu me debatia constantemente com o egoísmo do fitness extremo justaposto com o altruísmo da condição de mãe de um bebê. Me perguntava se eu não deveria estar sentindo aquela mudança de prioridades, um processo ligado à evolução, que leva a mulher a deixar de enfocar a si mesma, obrigando-a a enxergar apenas a seu filho.

No final, cheguei a duas conclusões que me acompanham até hoje:

1.Vou fazer o que for melhor para minha filha e farei o que for preciso para isso, mas...

2.Para me manter fiel às minhas próprias necessidades, desse modo podendo ser uma mãe mais física e emocionalmente disponível, vou priorizar a mim mesma e meu tempo para o fisiculturismo. 

Eu via muitas mães se perdendo na potencial monotonia da condição materna e se reduzindo cada vez mais como seres humanos. Elas se perdiam em prol de seus filhos. Pode ser que haja algo de admirável nisso, mas senti que, sem conservar o norte do que eu mesma preciso, eu acabaria por ficar ressentida com essa pessoinha que o teria tirado de mim.

O fitness é o que eu sou. É tão inerente a mim quanto respirar ou dar risada. Se eu perder o fitness, terei perdido a mim mesma. Se eu não for a melhor versão de mim mesma, minha filha não vai ficar bem, não vai crescer feliz. Para poder me despejar em minha filha, preciso estar repleta, eu mesma. O fitness me preenche. Então vou lavar a louça, vou trocar as fraldas, vou ler o livrinho bobo sobre o trenzinho pelo menos 12 vezes por dia e vou correr atrás de minhas metas de fisiculturismo.

Com tudo isso em mente, postei na minha conta de Instagram a foto que está no alto deste texto. Nela, estou sentada nos degraus de pedra diante do local da competição onde eu tinha acabado de ficar em primeiro lugar nas duas categorias em que competi. Estou com aquele bronzeado falso alaranjado, usando biquíni roxo com strass, segurando dois troféus –espadas ridículas―, com minha filha no meu colo, mamando. Meu cabelo está loiro oxigenado e desarrumado, e estou sorrindo, feliz com o que realizei.

O bem-estar de minha filha é minha responsabilidade, e eu sempre vou fazer o que for melhor para ela. Eu fiz algo que praticamente ninguém fez até hoje. Fiz de maneira saudável. Fiz de maneira responsável. Fiz de maneira que beneficiou tanto à minha filha quanto a mim, como ser humano, como mulher e como mãe.

Durante algumas horas chegaram as curtidas normais de amigos e parentes. Então, como se uma torneira tivesse sido aberta, centenas de desconhecidos inundaram minha página de comentários e likes. A grande maioria dos comentários foi positiva. Mulheres de todo o mundo me deram apoio, se disseram impressionadas e a favor da amamentação. Mas sempre há as pessoas que desaprovam.

Quando você é mãe, a desaprovação é ainda mais angustiante. Isso te faz reavaliar cada decisão minúscula que você tomou, rever cada conclusão à qual você chegou depois de muito refletir. Algumas pessoas de minha família ficaram perplexas com o que eu fiz e reagiram mal. Mulheres me mandaram mensagens dizendo que ficaram chocadas porque eu coloquei a saúde de minha filha em risco, dizendo que elas jamais fariam a mesma coisa, que elas acharam assustador. Até mesmo algumas pessoas de minha comunidade de bodybuilding acharam que o que eu fiz foi bizarro e pouco sadio. Mesmo elas, o nicho do nicho, acharam que eu fiz algo que fugiu demais do normal.

A decisão de lutar pelo fitness extremo e amamentar minha filha ao mesmo tempo coube a mim mesma e mais ninguém, e o resultado dela, bom ou ruim, é responsabilidade exclusivamente minha. O bem-estar de minha filha é minha responsabilidade, e eu sempre vou fazer o que for melhor para ela. Eu fiz algo que praticamente ninguém fez até hoje. Fiz de maneira saudável. Fiz de maneira responsável. Fiz de maneira que beneficiou tanto à minha filha quanto a mim, como ser humano, como mulher e como mãe.

O corpo feminino é espantoso. Eu amamentei minha filha enquanto me preparava para a competição, enquanto fazia todo o cardio e cortava as calorias da alimentação. Meu leite nunca diminuiu nem um pouquinho, e nunca faltou nutrição para minha filha. Sobre o palco, recebendo meus troféus de primeiro lugar, eu sorri e peguei minha filha, que estava na plateia, para dar de mamar a ela ali mesmo. Foi uma vitória para minhas duas metas, meus dois amores na vida: este corpo capaz, esculpido, musculoso, e minha menininha doce, fofa, querida.

Jordan Musser vive em Williamsport, Pensilvânia, e é competidora de fitness, defensora do aleitamento materno, personal trainer e coach de nutrição. Ela passou seis anos na Força Aérea dos EUA e hoje se dedica à sua família crescente e a seu programa de fitness no pós-parto, Badass Mothers. Para saber mais sobre ela, vá para thebadassmothers.com e ao Instagram de Jordan. 

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

Eleições nos EUA
As últimas pesquisas, notícias e análises sobre a disputa presidencial em 2020, pela equipe do HuffPost