OPINIÃO
23/03/2020 15:20 -03 | Atualizado 23/03/2020 15:20 -03

Por que Fina Estampa foi a única escolha possível para a Globo

Novela está sendo reprisada no horário das nove desde segunda-feira (23), no lugar de "Amor de Mãe".

Alex Carvalho/TV Globo
Pereirão (Lília Cabral) e Guaracy (Paulo Rocha) em "Fina Estampa".

As redes sociais receberam com surpresa a notícia de que a Globo escolheu a novela Fina Estampa para tapar o buraco entre as duas fases de Amor de Mãe durante seu recesso. Reclama-se muito porque, diante de um vasto catálogo de clássicos da televisão em seu acervo, a emissora poderia ter escolhido títulos superiores.

Não é tão simples assim. Alguns critérios foram levados em consideração: uma novela do horário das nove, sucesso de audiência e gravada em alta definição (HDTV) em formato de tela 16:9 — ou seja, de 2009 para cá. Fãs de Verdades Secretas, esqueçam: exibida na faixa das onze da noite, ela não tem classificação adequada para as nove. Fãs de A Favorita e Vale Tudo - eu incluso -, não foi dessa vez: já são consideradas antigas.

Quais opções sobraram? Por ordem cronológica: Caminho das Índias, Viver a Vida, Passione, Insensato Coração, Fina Estampa, Avenida Brasil, Salve Jorge, Amor à Vida, Em Família, Império, Babilônia, A Regra do Jogo, Velho Chico, A Lei do Amor, A Força do Querer, O Outro Lado do Paraíso, Segundo Sol, O Sétimo Guardião e A Dona do Pedaço

Desses títulos, descartamos as mais recentes (Segundo Sol, A Dona do Pedaço e O Sétimo Guardião); Avenida Brasil, que está no ar no Vale a Pena Ver de Novo; e Caminho das Índias, reprisada não faz tanto tempo. Lógico que precisava ser um sucesso, então descarta-se mais da metade das que sobraram.

Outro critério a ser observado é a temática branda e “familiar”. Entenda: uma novela para desopilar da realidade cruel que estamos vivendo, nada de textos muitos sofisticados ou sutis, tramas densas, reflexivas, dramas pesados, que mexam com tabus da sociedade, que abusem de sexo, drogas ilícitas ou violência ou que afrontem a moral e os bons costumes. 

Talvez Amor à Vida, de Walcyr Carrasco, que teve um personagem muito popular: Félix (Mateus Solano). O problema é que a novela teria de ser muito editada. Vale lembrar que Félix começou a história como um ser desprezível que odiava a família e que abandonou um recém-nascido na caçamba de lixo. Para os tempos atuais, este não é um começo auspicioso.

João Miguel Jr./TV Globo
Tereza Cristina (Christiane Torloni) e Crô (Marcelo Serrado), duo bem-sucedido de "Fina Estampa".

Salve Jorge, A Força do Querer e O Outro Lado do Paraíso foram também novelas muito populares, com ótimas audiências, mas que abordaram temas espinhosos demais para o que a Globo pretende. Sobrou só Fina Estampa mesmo, porque as demais, ou foram sucessos medianos ou abaixo da média.

Fina Estampa é uma novela de forte apelo popular, com personagens caricatos que caíram no gosto do público: o trio Pereirão, Crô e Tereza Cristina, vivido por Lília Cabral, Marcelo Serrado e Christiane Torloni. Tanto que - fato raro entre nossas novelas - Crô rendeu filmes. Tereza Cristina matou, mas era uma vilã risível, de desenho animado. 

Ainda o apelo da personagem de Lília Cabral, a mulher batalhadora, mãe zelosa que luta para sustentar a família sozinha. E que ainda tem o desprezo de um dos filhos, dando margem para dramas familiares rasgados e a compaixão do público.

De qualquer forma, se você não gostou da opção, pode escolher uma novela do catálogo do Globoplay para acompanhar na hora de Fina Estampa.