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09/04/2020 04:00 -03 | Atualizado 09/04/2020 04:00 -03

Como o mundo pode sair do isolamento imposto pelo coronavírus

Países europeus como Áustria e Dinamarca traçam planos para retomar a rotina após a Páscoa. Se forem bem sucedidas, fórmulas podem ser reaplicadas no resto do mundo.

A Áustria se tornou o primeiro país europeu a traçar planos para começar a flexibilizar a política de isolamento imposta para conter o avanço do novo coronavírus, fornecendo um possível plano de como outros países podem começar a permitir que suas rotinas sejam retomadas quando a pandemia estiver em grande parte controlada.

“O objetivo é que, a partir de 14 de abril, (...) lojas menores de até 400 metros quadrados, bem como lojas de ferragens e jardins, possam abrir novamente, sob rigorosas condições de segurança, é claro”, anunciou o chanceler austríaco Sebastian Kurz em uma coletiva de imprensa na última segunda-feira (6). 

No dia 1º de maio, todas as lojas, shoppings e cabeleireiros também poderão ser reabertos. No entanto, será permitido que haja apenas um comprador por 20 metros quadrados de espaço comercial.

Restaurantes e hotéis não abrirão até meados de maio, e nenhum evento público será realizado até, no mínimo, o final de junho, disse Kurz.

“Reagimos mais rápida e restritivamente do que outros países e, portanto, pudemos evitar o pior”, disse Kurz. “Mas esta reação rápida e restritiva agora também nos dá a possibilidade de sair desta crise mais rapidamente.” 

Kurz e membros de seu gabinete chegaram à coletiva de imprensa usando máscaras, e o chanceler falou por trás de uma tela clara de proteção.

HELMUT FOHRINGER via Getty Images
Mulher caminha em frente à Catedral de Saint Stephen, um dos pontos turísticos de Viena que costumava ser mais movimentado.

Há três semanas, a Áustria fechou escolas, bares, restaurantes, teatros e lojas não essenciais. O público foi avisado para não sair e para trabalhar de casa, se possível.

O “lockdown” ajudou a reduzir o aumento diário das infecções para 1,6%, segundo o ministro da Saúde, Rudolf Anschober. O número de pessoas nos hospitais se estabilizou. Até a segunda-feira, havia 12.206 casos confirmados e 220 mortes na Áustria.

Kurz advertiu que seu plano dependia da evolução da situação nos próximos dias e instou a população a continuar seguindo as restrições gerais de isolamento. Se os índices de infecção começarem a piorar novamente, o governo poderia reintroduzir as medidas.

“A semana da Páscoa será decisiva para nós”, disse. “Ela vai determinar se a ressurreição após a Páscoa, que todos nós esperamos, pode realmente acontecer”, disse Kurz.

Outros países também estão começando a considerar o relaxamento das restrições. 

PHILIP DAVALI via Getty Images
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, fala com jornalistas sobre o novo coronavírus.

Na Dinamarca, um dos primeiros países da Europa a implementar as restrições, a primeira-ministra Mette Frederiksen disse na segunda-feira que o país começaria “uma abertura gradual, tranquila e controlada da nossa sociedade novamente” após a Páscoa, se o número de casos de coronavírus e mortes permanecer estável.

Creches e escolas primárias para crianças da primeira à quinta série serão reabertas no dia 15 de abril, o que permitirá aos pais retornar à rotina de trabalho.

Todas as restrições restantes, incluindo a proibição de reuniões com mais de 10 pessoas, permanecerão em vigor até pelo menos 10 de maio, enquanto a proibição de reuniões maiores permanecerá em vigor até agosto.

Em entrevista à emissora estatal dinamarquesa DR no domingo, Frederiksen enfatizou que, mesmo com o levantamento das restrições, a vida não poderia simplesmente voltar ao normal.

“Vamos ter muitas mudanças em nossas vidas”, disse Frederiksen, segundo o The Local. “Não vamos voltar à Dinamarca de antes de 6 de março”. 

Frederiksen disse que seria preciso fazer ajustes na forma como as pessoas trabalham, vão à escola e socializam umas com as outras.

“Não vamos poder nos espremer em trens, ônibus e metrôs da maneira como costumávamos”, disse Frederiksen. “Ou ficar muito próximos uns dos outros e fazer uma festa”. 

Ela acrescentou: “Teremos que trabalhar de uma forma mais escalonada do que estamos acostumados, nos reunindo em momentos diferentes”. A curto prazo, não consigo ver como todas as crianças poderão frequentar a escola, ou todos os jovens poderão iniciar a educação ao mesmo tempo”.

Como Kurz na Áustria, Frederiksen alertou que restrições poderiam ser impostas novamente se o vírus ressurgir.

“O castelo de cartas pode cair. E pode cair mais rápido do que imaginamos”, disse.

Na Alemanha, um documento do governo obtido pela Reuters mapeia um retorno à vida normal em fases após o fim do bloqueio, com medidas que incluiriam o uso obrigatório de máscaras em público, limites às reuniões e o rastreamento rápido das cadeias de infecção.

O plano de ação permitiria rastrear mais de 80% das pessoas com as quais uma pessoa infectada teve contato dentro de 24 horas após o diagnóstico. As pessoas infectadas e aquelas com as quais tiveram contato ficariam em quarentena, seja em casa ou em hotéis.

O documento assume que a pandemia vai durar até 2021.

Em troca, seria permitida a reabertura de lojas e escolas em regiões selecionadas, embora ainda houvesse estritas medidas de distanciamento social.

Os controles de fronteira seriam relaxados, mas grandes eventos e festas particulares permaneceriam proibidos, diz o documento.

Assim que houvesse máscaras de proteção suficientes, o governo exigiria o uso delas em trens e ônibus, bem como em fábricas e prédios públicos, diz o documento.

A chanceler alemã, Angela Merkel, disse na segunda-feira que era muito cedo para falar em relaxar o bloqueio, e que as restrições à livre circulação e fechamento de empresas, em vigor na Alemanha desde 22 de março, permaneceriam em vigor até pelo menos 19 de abril.

O bloqueio nacional da Itália dura oficialmente até, pelo menos, 13 de abril, e a expectativa é que seja prorrogado. No entanto, como o número de infecções por coronavírus começou a diminuir, as autoridades públicas também começam a olhar para a “fase dois”, quando as restrições poderiam começar a ser suspensas.

Segundo o ministro da Saúde, Roberto Speranza, esta segunda fase envolveria um contínuo distanciamento social, com maior uso de dispositivos de proteção individual, como máscaras faciais. Os sistemas locais de saúde seriam fortalecidos, para permitir um tratamento mais rápido e eficiente dos casos suspeitos de covid-19. Os testes e o rastreamento de contatos seriam ampliados, inclusive com o uso de aplicativos de smartphone e outras formas de tecnologia digital, e uma rede de hospitais dedicada exclusivamente ao tratamento de pacientes covid-19 seria criada.

Entretanto, o ministro da saúde reconheceu que algumas restrições provavelmente precisariam permanecer em vigor até que uma vacina estivesse disponível.

“Há meses difíceis pela frente. Nossa tarefa é criar as condições para viver com o vírus”, pelo menos até que uma vacina seja desenvolvida, disse Speranza ao jornal La Repubblica.

Yui Mok - PA Images via Getty Images
Mulher se exercita na Millennium Bridge, em Londres, durante período de confinamento no Reino Unido.

No Reino Unido, autoridades disseram ser “muito cedo para dizer” se o bloqueio do coronavírus foi bem sucedido na redução da propagação da doença.

“Está funcionando, mas a grande questão é: A propagação do vírus está diminuindo o suficiente para que as internações hospitalares se estabilizem e depois caiam?”, disse na segunda-feira a vice-conselheira científica do Reino Unido, Angela McLean.

Chris Whitty, o assessor-chefe médico do país também disse que “seria um erro” começar a falar sobre a próxima fase da pandemia. “O segredo é chegar ao ponto em que estamos confiantes de ter alcançado o auge”, disse Whitty.

Na França, o primeiro-ministro Edouard Philippe levantou, na semana passada, a possibilidade de uma reabertura gradual. Mas vários políticos criticaram a declaração, dizendo que ela envia sinais errados para o público em um momento em que as pessoas precisam ficar em casa.

Marie Lebec, membro da Assembléia Nacional e aliada próxima do presidente Emmanuel Macron, denunciou “esta corrida política pelo ‘próximo mundo’ quando a guerra ainda está longe de ser ganha”.

″É claro que estamos trabalhando no que vem depois, nas questões de soberania, ecologia, etc. Mas não é aconselhável falar publicamente sobre esta questão enquanto a crise ainda está em curso. É uma regra de decência que estabelecemos”, disse outro deputado do partido de Macron ao HuffPost France.

Os trabalhadores da área de saúde também dizem que é difícil contemplar o retorno à normalidade em um momento em que ainda estão sendo confrontados com os efeitos devastadores da epidemia no dia a dia.

“Não entendo por que já estamos falando do fim do confinamento, mas isso acontece o tempo todo”, disse à AFP uma enfermeira da região de Paris durante o fim de semana.

“Estamos exaustos”, disse outra enfermeira de um hospital em Paris ao HuffPost France. “O confinamento mal está funcionando”, e a equipe médica “não vai conseguir segurar” se as restrições forem relaxadas muito cedo, disse ela.

Qualquer conversa sobre acabar com as restrições e retomar a vida normal é prematura, ela enfatizou. É “cedo demais”.

 

Com reportagens do HuffPost France, HuffPost UK, HuffPost Italy e Reuters.

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