COMPORTAMENTO
18/05/2019 02:00 -03

Todas as mentiras que a pornografia já te contou, segundo os próprios atores

Muito do que você vê nos filmes pornô é fantasia, começando pelos orgasmos exagerados.

Isabella Carapella/HuffPost
Se você está procurando educação sexual com a pornografia, não vai aprender muita coisa.

Tudo mundo lembra a primeira vez que viu um filme pornô: talvez tenha sido uma busca escondida na internet, que te levou a um filme curto, de baixa qualidade e que demorou uma vida inteira para carregar. Ou então algum amigo te emprestou uma Playboy, que circulou entre seus amigos como algo precioso e definitivamente muito usado.

A primeira vez da estrela pornô Kelley Cabbana foi uma revista Penthouse, e depois fitas de vídeo.

Como muita gente que foi apresentada ao sexo por meio da pornografia, a atriz americana não se conformava com o fato de tudo parecer tão fácil.

“As mulheres eram lindas, e todas as posições eram perfeitas”, diz ela. “Até os boquetes pareciam fáceis; as mulheres engoliam tudo como se fosse o sorvete mais delicioso do planeta.”

Agora, depois de 10 anos na indústria do pornô, Cabbana pode afirmar que essas performances são basicamente pura fantasia.

“Te digo: mentiram pra mim!”, diz a atriz. “Nunca vi um corpo perfeito, sem estrias, celulites ou com a pele imaculada.”

O mesmo vale para as posições que parecem saídas do Cirque du Soleil – elas simplesmente não acontecem na vida real. Para saber tudo o que é exagerado no pornô – e o que acontece nos bastidores ―, conversamos com Cabbana e outros atores. Eis o que eles nos contaram:

 1. Pênis enormes não são a regra.

“A média mundial do pênis é cerca de 15 centímetros, mas, no pornô, muitas vezes eles têm mais de 20. É engraçado, mas esqueço disso e às vezes fico surpreso quando encontro um cara com um pênis de tamanho normal. No pornô, até eu poderia me sentir fora do lugar, mas tenho de me lembrar que os atores são escolhidos por causa do ‘talento’, mais que por seus rostos ou habilidades artísticas. Não sei como as pessoas se sentem vendo só caras enormes, mas espero que elas lembrem que é tudo fantasia.” – Theo Ford, ator pornô há seis anos.

2. A maioria das mulheres não grita tanto quanto nos filmes.

“A gritaria dos orgasmos com certeza é exagero. Não grito nem ‘dou show’ desde que tinha 18 anos e tentava imitar os filmes pornô. Ninguém é tão dramático.” – Lindsey Leigh, atriz pornô há 11 anos.

3. Sexo anal quase nunca é espontâneo. 

“Há muita preparação envolvida nas cenas de sexo anal. Nenhum atriz pornô acorda de manhã (ou de tarde), pensando: ‘Hoje vou fazer anal!’. Você literalmente tem de mudar a dieta (se já não o fez), tomar uma mistura de laxativos e remédios antidiarreia para se limpar e impedir que seu intestino funcione. Aí você tem de se limpar no dia da filmagem e, acima de tudo, se preparar com um monte de lubrificante, o que quase nunca aparece na tela. Muitas das cenas que vejo dão a impressão de que o casal simplesmente decidiu fazer anal. Não é assim. A preparação da menina provavelmente levou o dia anterior todo.” – Ember Snow, atriz pornô há dois anos.

4. Nem todos os atores pornô gay são gays.

“O pornô gay exagera a sexualidade dos atores – muitos dos atores que fazem filmes gays na realidade são héteros e usam vídeos para ficar ‘prontos’. Ah, e o romance e a conexão que você vê nos filmes tende a ser exagerada no pornô gay. (O pornô hétero tende a ser vendido como algo mais físico e bruto.) Pode ser por isso que tantas mulheres se sentem atraídas por pornô gay.” – Pierce Pari, ator pornô há dois anos.

5. O trabalho é cansativo como qualquer outro. (E não, os atores e atrizes pornô não estão com tesão o tempo inteiro.)

“Os atores passam horas na mesma posição para conseguir a tomada ideal. Você fica dolorida depois de horas de gravação. O set é quente, a maquiagem derrete e você fica suada. Demora um bom tempo para conseguir o clipe perfeito de 15 minutos. Você aprende técnicas de boquete; não é chupar um pirulito. Você chega em casa com a mandíbula dolorida, depois de usar todas as partes da língua na cena. Mas o equívoco mais engraçado é achar que os atores e atrizes pornô estão sempre com tesão. Tem dias em que você não está interessada em sexo. Acontece e, se você não tomar cuidado, seu parceiro não vai saber por quê. Somos gente real, com vidas reais como todo mundo.” – Kelley Cabbana, atriz pornô há dez anos.

6. As bundas não são tão grandes quanto parecem.

“Muita gente acha que você tem de ter muitas curvas para ser atriz pornô, mas não é assim. Na verdade, o ideal é que você seja pequena, e a câmera cuida do resto. Acho que é por isso que você não vê tantas mulheres grandes; todo mundo sabe que as empresas não costumam escalar mulheres grandes com frequência. As lentes grande angulares aumentam o bumbum. Ninguém precisa fazer plástica! Os ângulos das meninas menores são tão bons que parecem coisa de outro mundo – o que é meio verdade.” – Jade Jordan, atriz pornô há quatro anos.

7. Muitas das posições malucas não acontecem na vida real, e o squirting também é bem raro.

“Em 10 anos transando antes de fazer pornô, nunca fiz o missionário em pé (a menina em pé, com uma perna sobre o ombro do cara) ou reverse cowgirl (a menina sentada de costas para o parceiro, que está sentado). Muitas meninas esguicham, mas nem todas como o que você vê nas cenas típicas de squirting (nas quais elas esguicham à distância, na boca de outra menina). O pornô é um mundo de fantasia. Todas as amigas gostosas da sua irmã, as meninas do trabalho, da faculdade e da praia querem trepar. Todo mundo trepa!” – Whitney Wright, atriz pornô há dois anos e meio.

8. Fora das telas, as atrizes trans não são necessariamente tão dominantes.

“Como trans negra, em geral faço papel de policial ou de dominatrix, para te algemar e te fazer meu. Eu era a menina por cima. Muitos dos meus fãs me dizem que estou dominando o mundo, uma bunda de cada vez. Na realidade, minha vida é o completo oposto. Sou tímida e introvertida e sofro de ansiedade social. Minha vida sexual não poderia ser mais diferente do que se vê nas telas. Sou totalmente submissa e prefiro ficar embaixo. Mas isso não vende na indústria trans. Esperam que as meninas sejam dominadoras e preferem uma menina que fique dura e goze. Mas, quando você está tomando hormônios, isso é praticamente impossível. Infelizmente, para a maioria das trans, isso pode ser um elemento decisivo na indústria.” – Amaya Jade, também conhecida como Honey FoXXX, foi atriz pornô durante 11 anos e hoje é fotógrafa.

“Muitas vezes, o pornô é a única interação que as pessoas têm com mulheres trans, então elas procuram pistas de como tratar as mulheres trans na vida real. Mas até mesmo sites progressistas como o Kink.com usam termos como “TS Pussyhunters” (transexuais caçadores de buceta) ou “TS Seduction” (sedução transexual). Isso alimenta o estereótipo dos predadores que querem seduzir homens cis ou saem caçando mulheres cis. Existe espaço para esse tipo de fantasia, mas, quando a representação é limitada, os estereótipos se perpetuam.” – Chelsea Poe, diretora e atriz pornô há cerca de sete anos.

9. Os corpos das estrelas pornô não são naturais.

“Não, nossos corpos não são perfeitos e sarados o tempo todo. A maioria dos atores toma suplementos e passa maior parte do tempo livre na academia.” – Luke Longly, ator e produtor de pornô desde 2003. 

10. Nem todo pornô é exagerado e nem todos os filmes objetificam as mulheres.

“Assim como não vivemos numa fantasia como ‘Harry Potter’ ou ‘Vingadores’, também não transamos como se vê no pornô. E tem muitos tipos para escolher. Como em qualquer mídia, se você acha que os filmes que está assistindo são sexistas ou opressivos, ou então não te excitam ou não criam conexão, mude de canal, documente suas próprias experiências, pegue uma câmera, procure conteúdos éticos, feministas e positivos (pornô ou não), pague por esses conteúdos. Vote com seu dinheiro. Existem vários filmes eróticos produzidos por cineastas feministas. Elas estão tomando o controle da narrativa e promovendo sexo seguro, comunicação, negociação e consentimento ativo e entusiasmado.” – Madison Young, autora de “The DIY Porn Handbook: Documenting You Own Sexual Revolution” e atriz e produtora feminista há 17 anos.

11. Finalmente? Aquelas cenas de gozadas loucas definitivamente podem ser exageradas.

“Já vi várias empresas usando seringas ou um tubo cheio de porra fake, como o SPUNK Lube. Aí, quando chega a hora de filmar a cena mágica, eles têm alguém controlando a seringa ... às vezes é preciso fazer várias tentativas.” – Aubrey Kate, atriz pornô.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.