LGBT
23/08/2019 06:00 -03 | Atualizado 23/08/2019 12:10 -03

22 filmes e séries nacionais sem censura para exaltar o universo LGBT+

“Não tem cabimento fazer um filme com esse enredo, né?”, disse Bolsonaro em live. Edital com produções LGBT foi vetado.

O governo Bolsonaro publicou nesta semana uma portaria que suspende edital para TVs públicas da Ancine com a categoria “diversidade de gênero”. A decisão foi tomada após o presidente Jair Bolsonaro criticar nominalmente, em live no Facebook, projetos LGBT já pré-selecionados.

Entre as produções atacadas pelo presidente, estão os projetos Afronte, Transversais, Religare queer e Sexo reverso. O edital contemplaria 80 projetos, sendo que apenas 10 dos pré-selecionados faziam parte das categorias “diversidade de gênero” e sexualidade”. 

Portaria do Ministério da Cidadania publicada na última quarta-feira (21) veta o edital por seis meses, com possibilidade renovar veto pelo mesmo período; sua publicação culminou também com a saída de Henrique Pires, até então secretário especial de Cultura do ministério.

O edital ainda contemplava 12 categorias além de “diversidade de gênero”, como “qualidade de vida” e “sociedade e meio ambiente”; após a publicação da portaria, todos os eixos temáticos, sem exceção, foram suspensos.

Em texto da portaria, o veto é justificado pela “necessidade de recompor os membros do Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual”. O texto também determina que, após nova composição, “sejam avaliados os critérios de apresentação de propostas de projetos, os parâmetros de julgamento e os limites de valor de apoio para cada linha de ação”.

Após repercussão da decisão do governo, o Ministério Público Federal do Rio de Janeiro abriu uma investigação para apurar se houve censura. O Psol protocolou um Projeto de Decreto Legislativo para suspender a portaria. A Associação de Produtores Independentes do Audiovisual condenou a atitude do governo e chamou ação de “censura”. 

Em live no dia 15 de agosto, Bolsonaro afirmou que “não tem cabimento fazer um filme com esse enredo, né?”, ao se referir às produções inscritas no edital.

Abaixo, o HuffPost Brasil lista 22 produções nacionais ― produzidas com recursos públicos ou privados - que contam histórias dentro da temática LGBT:

1. Hoje eu quero voltar sozinho, de Daniel Ribeiro (2014)

Divulgação
Leonardo e Gabriel, respectivamente de cima para baixo, são interpretados pelos atores Ghilherme Lobo e Fabio Audi.

Na trama de Hoje eu quero voltar sozinho, Leonardo é um adolescente cego em busca de sua independência. Superprotegido pela mãe e por sua melhor amiga, Giovana, o filme conta como seu mundo se transforma com a chegada de um novo garoto na escola, Gabriel. O filme, baseado no curta Eu não quero voltar sozinho foi duplamente premiado no Festival de Berlim e teve pré-estreias lotadas em todo o Brasil, à época de seu lançamento, em 2014.

Atualmente está disponível no catálogo da Netflix.

2. Meu corpo é político, Alice Riff (2017)

Divulgação
Giu Nonato, fotógrafa que tem seu quotidiano retratado em "Meu Corpo é Político".

Meu Corpo é Político, primeiro longa da diretora Alice Riff, retrata o dia a dia de quatro pessoas trans da periferia de São Paulo com naturalidade e, sobretudo, normalidade ― sem deixar de expor desafios que esses corpos enfrentam, assim como as violências quotidianas.

Os personagens são Paula Beatriz, diretora de uma escola pública; Giu Nonato, uma jovem fotógrafa ainda em transição; Linn da Quebrada, atriz, cantora e professora de teatro; e Fernando Ribeiro, estudante que trabalha com telemarketing. Em comum: a vivência dissidente e na periferia da cidade.

3. Super Drags, de Paulo Lescaut, Marcelo Souza, Fernanda Brandalise, Chico Amorim e Vânia Matos (2018)

Divulgação/Netflix
É de Lemon, Scarlet e Safira a responsabilidade de espalhar purpurina no mundo.

A trama de Super Drags, produzida pela Netflix, gira em torno de Patrick, Donizete e Ralph, 3 amigos que trabalham durante o dia em uma loja de departamentos e à noite se transformam nas heroínas Lemon Chifon, Scarlet Carmesim e Safira Cyan, as Super Drags. É delas a responsabilidade de proteger a comunidade LGBT e espalhar purpurina pelo mundo.

Atualmente está disponível na Netflix. Leia mais.

4. Laerte-se, de Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva

Divulgacão/Netflix
Trajetória da cartunista Laerte (foto acima) é abordada em documentário.

Uma das maiores cartunistas do Brasil, Laerte Coutinho é a protagonista do primeiro documentário original produzido pela Netflix no País. 

Dirigido pela cineasta Lygia Barbosa da Silva e pela jornalista Eliane Brum, o filme – produzido pela Tru3Lab e exibido no festival É Tudo Verdade em 2017 – se aproxima com delicadeza dos mais variados aspectos da vida de sua personagem e de seu processo de transição de gênero.

Atualmente está disponível na Netflix.

5. Divinas Divas, de Leandra Leal (2017) 

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Rogéria (foto acima), sobre ser trans na época da ditadura: 'Eu não podia entrar em luta armada vestida de mulher, senão seria decapitada'.

Divinas Divas aborda a trajetória de oito artistas travestis que fizeram história no Rival, teatro que pertence à família de Leandra Leal, diretora do documentário, há gerações. São elas: Rogéria, Jane Di Castro, Divina Valéria, Eloína dos Leopardos, Brigitte de Búzios, Camille K., Fujika de Halliday e Marquesa.

Delicado e carregado de sentimento, o documentário é uma declaração de amor da diretora ao legado das divas, cujas carreiras já duram mais de 50 anos, e ao do Rival, nome que atravessa a vida artística da capital.“O Rival é a casa da minha família”, contou ao HuffPost. “A vida das divas está eternizada no longa, mas também está naquele espaço. E isso, para mim, é emocionante.”

6. Glória e a Graça, de Flávio R. Tambellini (2017)

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Carolina Ferraz (à esq.) contracena com a atriz e mulher trans, Viviany Beleboni.

O longa Glória e a Graça, de Flávio R. Tambellini conta a história da reaproximação da mulher trans Glória e sua irmã, Graça ― quando esta descobre estar com um aneurisma cerebral. Detentora dos direitos do filme, a atriz Carolina Ferraz disse que não foi fácil conseguir capital e que empresários não queriam patrocinar o filme. 

“Eu cheguei a escutar de vários executivos: ‘Carolina, você é tão bonitinha, não faz uma personagem dessa. Não se associe a esse tipo de imagem’. Mas isso nunca me paralisou porque eu nunca duvidei do meu desejo de contar essa história”, afirmou em entrevista ao jornal Extra.

7. Bixa Travesty, de Kiko Goifman e Claudia Priscilla

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Linn da Quebrada deixou que a câmera dos cineastas filmasse as partes mais íntimas de seu corpo para o longa "Bixa Travesty". 

Vindo do Festival de Berlim, onde venceu o prêmio Teddy, dedicado a obras com temática LGBT+, o longa Bixa Travesty de Claudia Priscilla e Kiko Goifman revela a intimidade e os pensamento da rapper Linn da Quebrada, que sacudiu o funk com letras gráficas que celebram o corpo enquanto dispositivo político.

8. Flores Raras, de Bruno Barreto (2013)

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Gloria Pires (à esq.) interpreta a arquiteta brasileira Lota de Macedo em "Flores Raras". 

Longa de Bruno Barreto é baseado na história de amor entre a escritora Elizabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo, interpretada pela atriz brasileira Gloria Pires. Ambientado no Brasil, na década de 1950, o longa expõe idas e vindas de do relacionamento amoroso e familiar das duas protagonistas e até a disputa política presidencial da época é colocada em perspectiva.

9. Madame Satã, de Karim Aïnouz (2002)

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A história se passa em 1932, quando o sonho de João Francisco, interpretado por Lázaro Ramos, de se tornar uma estrela do palco vira realidade.

Produzido em 2002, Madame Satã, de Karin Aïnouz, teve o nome emprestado do livro homônimo de Cecil B. de Mille, de 1930. O longa se passa em 1932, momento em que o sonho de João Francisco, interpretado por Lázaro Ramos, de se tornar uma estrela do palco vira realidade.

Na época, o termo “drag queen” ainda era pouco difundido, então Francisco se entende enquanto um “transformista”. Ele, negro, pobre, malandro, nordestino, homossexual, analfabeto ― e também pai de família, dá o tom do filme. 

10. Para Sempre Teu Caio F., de Candé Salles e Paula Dip (2014)

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Caio Fernando Abreu foi um dos nomes mais importantes da literatura brasileira

Que Caio Fernando Abreu foi um dos nomes mais importantes da literatura brasileira não é novidade. Em pouco tempo de vida ― morreu aos 47 anos, vítima da aids ― ele deixou uma imensidão de livros, poemas e dramaturgia que chegaram a ser traduzidos para 12 idiomas. Com depoimentos de amigos, familiares, o longa Para Sempre Teu Caio F., de Candé Salles e Paula Dip, baseado em livro homônimo, tenta contar a história do escritor, uma figura polêmica, homossexual e entendido como “genial” pelo público.

11. Vera, de Sérgio Toledo (1986)

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A atriz Ana Beatriz Nogueira, hoje global, é quem interpreta Vera, que passa por uma transição de gênero, em filme homônimo.

Anderson Herzer foi um escritor e poeta transexual brasileiro. Ex-interno da FEBEM (SP), teve a vida e versos publicados no livro A queda para o alto (Editora Vozes) ― próximo de Leonardo Boff e Suplicy, conseguiu se reerguer após passar um tempo na prisão. O filme Vera, de 1986, dirigido por Sérgio Toledo, é inspirado no livro de Herzer e tem trilha sonora do popular Arrigo Barnabé; a atriz Ana Beatriz Nogueira, hoje global, é quem interpreta Vera, que passa por todas as nuances da vivência de uma transição de gênero.

12. Praia do Futuro, Karim Aïnouz

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Praia do Futuro, dirigido por Karin Aïnouz, mostra a apaixonada relação entre um salva-vidas e um piloto alemão.

Praia do Futuro, dirigido por Karin Aïnouz, mostra a apaixonada relação entre o salva-vidas Donato (Wagner Moura) e o piloto alemão Konrad (Clemens Schick).  O longa já foi contemplado com o prêmio Sebastiane Latino, no Festival de Cinema de San Sebastián, na Espanha, criado pela associação de gays, lésbicas, transexuais e bissexuais do País Basco (Gehitu). Ele foi classificado como “um poema visual sobre a coragem necessária para aceitar os próprios medos e desejos” pela organização à época de seu lançamento.

13. Favela Gay, de Rodrigo Felha

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"Favela Gay" aborda as questões comuns a homossexuais e transexuais.

O documentário Favela Gay, dirigido por Rodrigo Felha, tenta retratar de forma fiel quais são as histórias e como se dá o cotidiano da comunidade LGBT nas favelas do Rio de Janeiro. “Gays existem em todo lugar, seja no morro ou no asfalto, mas aqui o assunto é tratado com a participação de outros signos – o tráfico, as igrejas evangélicas e a vizinhança”, diz sinopse do longa.

14. Dzi Croquettes, de Tatiana Issa e Raphael Alvarez (2009)

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O grupo "Dzi Croquettes" desafiava a ditadura militar no Brasil.

“Nem homem. Nem Mulher. Gente”, era assim que os 13 homens do grupo Dzi Croquettes se definiam. Peludos, másculos e escrachados, em plena ditadura militar, eles ousaram quebrar com a rigorosa censura vigente no Brasil ― além de colocar questões de sexualidade e masculinidade em pauta.

Dirigido por Tatiana Issa e Raphael Alvarez, o documentário retoma a história do grupo que revolucionou ao subir ao palco usando vestidos, meias-calças, saltos, maquiagem, cílios postiços em performances de dança, esquetes de comédia em espetáculo que arrebatava fãs por onde passava.

Está disponível no GlobosatPlay.

15. De Gravata e Unha Vermelha, de Miriam Chnaiderman (2014)

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Da esquerda para a direita: Dudu Bertholini, Walério Araújo e Miriam Chnaiderman.

Dirigido pela cineasta e psicanalista Miriam Chnaiderman, o documentário parte dos jeitos que cada LGBT se manifesta e encontra na construção do próprio corpo e existência a formação de uma identidade própria e singular ― em um universo pautado por relações patriarcais e heteronormativas.

O estilista Dudu Bertholini, que se define como genderfucker, guia o espectador por infinitas possibilidades de representação. Também estão no filme Rogéria, Ney Matogrosso, Laerte, Bayard, Letícia Lanz, Johnny Luxo, Walério Araújo e Candy Mel, que dão depoimentos sobre sua experiência.

16. São Paulo em Hi-Fi, de Lufe Steffen (2016)

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Lufe Steffen retoma a história das boates gays clássicas de São Paulo.

Dirigido por Lufe Steffen, o documentário explora as nuances sobre a noite gay paulistana desde a década de 60. Passando de raspão pelos anos 60, o filme faz quase que um tour por locais lendários das décadas de 70 e 80 da cidade ― quando a cena ganhou corpo e efervescência ―, como a Medieval, HS, Corintho e Nostromondo. Frequentadores da noite e empresários pioneiros, como Celso Curi e Elisa Mascaro, são entrevistados no documentário. 

  

17. Meu Amigo Cláudia, de Dácio Pinheiro (2009)

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Wonder foi vocalista da banda Jardim das Delícias e Truque Sujo, além de realizar performances em clubes noturnos em São Paulo.

Cláudia Wonder, uma das artistas mais importantes da cena LGBT nacional  durante as décadas de 1980 e 1990, está no centro do documentário Meu Amigo Cláudia dirigido por Dácio Pinheiro. Transexual, ela ficou conhecida por performances como cantora e atriz em São Paulo e também por sua militância em prol do livre exercício da diversidade sexual. Ela morreu aos 55 anos.

18. Elvis & Madona, de Marcelo Laffitte (2010)

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Em "Elvis & Madona", padrões de relacionamentos e sexualidade são questionados.

Em Elvis & Madonna, o destino de uma, que é fotógrafa e lésbica, e outra, que é uma travesti, se cruzam em uma história de amor que, para muitos, pode ser inusitada. Ambientada em Copacabana, Rio de Janeiro, a trama traz Elvis ― ou melhor, Elvira ― uma fotógrafa que começa a trabalhar como entregadora de pizza para juntar dinheiro ― que conhece Madona, uma travesti que sonha em ser uma grande artista e ter um palco só seu. Elas se apaixonam e uma série de questões surgem a partir dessa relação que questiona padrões de sexualidade.

19. Meu Nome é Jacque, de Angela Zoé (2016)

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No documentário, são mostrados os desafios enfrentados por Jacque (foto acima) e sua luta contra o preconceito.

A história da ativista e mulher transexual Jacqueline Rocha Côrtes, a Jacque, na época com 56 anos e convivendo com o vírus HIV, é tema do documentário Meu Nome é Jacque. No longa, são expostos desafios enfrentados por ela na luta contra o preconceito e a afirmação de sua identidade de gênero. Também são apresentados depoimentos de amigos, familiares e da médica da ativista.

20. Cazuza - O tempo não para, de Sandra Werneck e Walter Carvalho (2004)

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O ator Daniel de Oliveira interpreta o cantor Cazuza (foto acima).

Inspirado no livro Só as mães são felizes, de Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, o longa Cazuza - O Tempo Não Para retrata o percurso profissional e pessoal de Cazuza (Daniel de Oliveira), do início da carreira, em 1981, até a sua morte em 1990, aos 32 anos; o filme passa pelo sucesso dele ao lado da banda Barão Vermelho, sua carreira solo, o comportamento transgressor e a coragem de continuar a cantar, criando e se apresentando, mesmo abatido pela aids.

21. Corpo Elétrico, Marcelo Caetano (2018)

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O universo LGBT é retratado sem estereótipos e conta com participações da cantora Linn da Quebrada e da travesti Marcia Pantera (foto acima).

O título do filme de Marcelo Caetano faz referência ao poema Eu Canto o Corpo Elétrico, do americano Walt Whitman (1819-1892). No texto, o poeta celebra os dotes físicos de fazendeiros, nadadores, pugilistas e bombeiros. Já no filme, o diretor mineiro foca na diversidade de trabalhadores de uma fábrica de confecção na região do Bom Retiro, no centro de São Paulo. É lá onde o protagonista Elias (Kelner Macêdo) passa longas horas do seu dia. Após os expediente, o jovem paraibano encontra diversão na companhia dos colegas de trabalho e prazer em encontros fortuitos com outros homens.

Em Corpo Elétrico, o cineasta aborda questões de convívio e relações de trabalho, além de sexualidade e outras formas de amor que não o romântico. O universo LGBT, por sua vez, é retratado sem estereótipos e conta com participações da cantora Linn da Quebrada e da travesti Marcia Pantera.

22. Tatuagem, Hilton Lacerda (2013)

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Os atores Irandir Santos e Jesuíta Barbosa são os protagonistas do filme.

Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda, se passa no ano de 1978, durante a ditadura militar. Nela, um líder de um grupo tropicalista e um soldado se apaixonam ― e, a partir desta relação, um campo de possibilidades se abre para que o longa trate de diversas questões entre amor, opressão e liberdade.

Depois de ter feito sucesso em festivais nacionais como o de Gramado e o do Rio, o longa foi o único brasileiro indicado na categoria de “Melhor Filme” no festival Ibero – Americano da 29° edição do Prêmio Goya (Espanha).