LGBT
21/06/2020 06:00 -03 | Atualizado 21/06/2020 06:00 -03

40 diretores de cinema LGBT+ falam sobre o 1º filme queer que marcou vida e carreira

Estas são as memórias formativas de alguns dos maiores cineastas e showrunners de Hollywood.

Jaime Hayde for HuffPost
Os filmes representados nos quadros são, a partir da esquerda: “O Talentoso Ripley”, “A Cor Púrpura”, “A Família Addams 2”, “Almas Gêmeas”, “Meu Querido Companheiro” e “Henry & June – Delírios Eróticos”. O casal na cama são Rupert Everett em “Memórias de Um Espião” e Reuben Greene em “Os Rapazes da Banda”.

Por boa parte dos últimos 100 anos, foi por meio da cultura pop - por mais imperfeita que ela possa ser - que boa parte das pessoas LGBT, desde sua infância, confirmaram que não eram os únicos a sentir o que sentiam.

Dizer que a história queer do cinema é intensa e carregada seria dizer pouco. Mas mesmo nos primórdios de Hollywood o público LGBTQ vivia um encontro de almas por meio do cinema e da televisão. Greta Garbo e Marlene Dietrich beijaram mulheres na telona nos anos 1930, e desde então cineastas vêm tratando da condição queer de maneiras profundas, instigantes e também depreciativas.

Segundo a minha contagem, há 4 tipos de filmes que despertam o espectador para sua condição queer:

- Narrativas sobre adolescência e amadurecimento construídas em torno do sexo e do romantismo, frequentemente envolvendo personagens que estão descobrindo ou assumindo sua própria potencial condição queer (Almas Gêmeas, Pariah, Me Chame Pelo Seu Nome);

- Histórias verídicas ou realistas sobre pessoas queer que abraçam sua identidade apesar do mundo que os cerca (Os Rapazes da Banda, Meu Querido Companheiro, Minhas mães e meu pai);

- Grandes sucessos que levam a condição queer para o mainstream (A Cor Púrpura, Filadélfia, A Gaiola das Loucas);

- Filmes com bizarrices camp, ícones gays ou elementos queer codificados (Lawrence da Arábia, The Rocky Horror Picture Show, qualquer coisa com Judy Garland).

Com o Mês do Orgulho LGBT, o HuffPost foi buscar quais influências moldaram os diretores de cinema publicamente LGBT da atualidade. 40 cineastas e showrunners falaram sobre o primeiro filme queer pelo qual se apaixonaram.

Poucas de suas escolhas coincidiram, refletindo a diversidade de sensibilidades e o dinamismo da experiência (os filmes apontados incluem desde All That Jazz – o Show Deve Continuar e O Mágico Inesquecível até Perdidos na Noite e O Talentoso Ripley).

Veja abaixo as respostas. Elas foram levemente editadas para garantir correção gramatical, clareza e concisão:

Gus Van Sant (A caminho de Idaho, Milk - A Voz da Igualdade)

Sua escolha: Pink Flamingos

Quando foi lançado (1972), este filme foi escandaloso, barato e agradou tremendamente a seu público. O público em questão era uma turma muito maltrapilha das sessões de meia-noite em Nova York que me mostrou que a contracultura havia tomado conta do espaço em alguns lugares e tinha seus valores e seu pensamento próprios. Era uma cultura essencialmente gay, mas não uma cultura gay do mainstream. Pelo que eu entendi, o elenco era formado por piratas gays, o que para mim foi inspirador. Pink Flamingos me mostrou, também, que a comunicação moderna podia estar nas mãos dos piratas gays fashion: John Waters, Divine e Mink Stole.

Jill Soloway (Transparent, I Love Dick)

Sua escolha: Working Girls 

Como uma pessoa que só se identificou realmente como queer ou trans muuuuito tempo depois de começar a assistir a filmes, vou falar de um filme que me eletrizou até a alma. Quero chamar todas as atenções para Lizzie Borden e seu filme de 1986 Working Girls (não Working Girl, com Melanie Griffith, título brasileiro Uma Secretária de Futuro). Borden levou o espectador direto para o coração de um bordel em Manhattan e nos mergulhou na vida daquelas incríveis trabalhadoras sexuais. Ela satisfez meu anseio não identificado como tal de ver conteúdos que não viessem diretamente do olhar masculino hétero, que não buscassem bajular homens. Ver como Borden passou tempo sem filtros debruçada sobre o cotidiano de trabalhadoras sexuais foi, para mim, um raio pequeno, mas incrivelmente potente, que iluminou o tipo de trabalho que eu queria fazer com a arte e o cinema. Talvez eu ainda não soubesse disso na época. Talvez eu só soubesse que estava vendo algo que nunca antes ninguém havia capturado. Uma espécie de verdade sobre ser mulher e ser humana.

Bill Condon (A Bela e a Fera, Dreamgirls)

Sua escolha: Bonnie e Clyde

Uma das vantagens de crescer em Nova York no final dos anos 1960 era que muitos dos cinemas eram decrépitos demais (ou viviam muito vazios) para se dar ao trabalho de implementar a classificação por idade. E foi assim que consegui assistir a Bonnie e Clyde quatro ou cinco vezes quando eu tinha 12 anos, apesar de o filme ter classificação R (proibido para menores de 17 anos desacompanhados). Foi o primeiro filme que descobri por conta própria e o primeiro pelo qual me apaixonei. Eu já era cinéfilo, então já sabia que esse filme era considerado inovador e ousado. Mas minha obsessão pessoal estava mais ligada à sexualidade ambígua de Clyde, representado pelo belíssimo Warren Beatty. Anos mais tarde descobri que no roteiro original de David Newman e Robert Benton, Clyde era bissexual e tinha uma ménage à trois com Bonnie e C.W. (papel representado por Michael J. Pollard). Beatty mandou retirar essa subtrama, mas de alguma maneira uma parte suficiente da intenção sobreviveu para que até mesmo um garoto gay mal chegado à puberdade pudesse se deleitar com ela. Por conta disso, além do fato de o filme me ter apresentado ao ícone glorioso conhecido como Faye Dunaway, sempre pensarei em “Bonnie e Clyde” como minha primeira experiência cinematográfica gay. 

Bettmann via Getty Images
Faye Dunaway e Warren Beatty em "Bonnie and Clyde."

Jamie Babbit (Silicon Valley, Nunca fui santa)

Sua escolha: Almas Gêmeas

Almas Gêmeas foi uma inspiração enorme para mim. O filme mostra o amor lésbico como selvagem, perigoso, até assassino! As performances de Melanie Lynskey e Kate Winslet são inacreditáveis, e para esta queer do Meio-Oeste americano a sequência operática de orgia em Claymation criada por Peter Jackson foi puro deleite criativo. Almas Gêmeas merece figurar nas listas de filmes favoritos de todas as sapatas. 

Steven Canals (Pose)

Sua escolha: A cor púrpura

Frequentemente passado por cima nas discussões sobre o cânone cinematográfico queer, o filme de Steven Spielberg baseado no romance sublime de Alice Walker, que valeu um Prêmio Pulitzer à autora, é um dos meus favoritos desde que foi lançado. Na faculdade, quando eu estava lutando para aceitar minha identidade queer, eu encontrava consolo no cinema, apesar de raramente encontrar retratos precisos de pessoas queer não brancas. Quando abracei minha verdade, A Cor Púrpura foi o primeiro filme que me trouxe clareza. Apesar de já ter visto o filme muitas vezes antes, a jornada de Celie, e especificamente o beijo dela com Shug Avery, assumiu um significado mais profundo para mim. Como aquele beijo fez para Celie, “A Cor Púrpura” me deu a força necessária para assumir minha própria identidade. 

Michael Ochs Archives via Getty Images
Whoopi Goldberg e Margaret Avery em cena de "A Cor Púrpura", baseado em livro homônimo de Alice Walker.

Kyle Patrick Alvarez (Homecoming, The Stanford Prison Experiment)

Sua escolha: O talentoso Ripley

Praticamente não há nenhum elogio que se possa fazer a esse filme que já não tenha sido expresso, mas O Talentoso Ripley foi particularmente especial para mim. Não foi o primeiro filme queer que vi na vida, mas foi o primeiro que assisti nos cinemas e no dia de sua estreia. Eu não sabia nada de antemão sobre a história e não estava preparado para seu teor sexual. O modo como a trama entremeou um personagem queer num thriller clássico me deixou estarrecido. De certo modo, o caráter acessível do filme me permitiu apreciar seu lado mais aparente ao conversar com pessoas, ao mesmo tempo em que também podia curtir reservadamente seu lado gay (aquela cena na banheira). Eu podia “esconder” como curtia o filme, sem me trair. O Talentoso Ripley contribuiu em muito para meu interesse em contar histórias queer que sejam entremeadas com tramas de outro modo mais acessíveis. Essa qualidade de cavalo de Tróia, de atrair uma platéia com base em uma expectativa e acabar satisfazendo outra inteiramente foi o que mais me cativou. 

Paramount Pictures
Matt Damon e Jude Law em O Talentoso Ripley.

Kimberly Peirce (Meninos não choram, Carrie)

Sua escolha: 8 1/2

Sempre digo que “8 1/2”, de Federico Fellini, é meu filme favorito, aquele que me levou a ser diretora de cinema. 8 ½ expressou o desejo de maneiras que eu ansiava por exprimir, mas que nunca vira em nenhuma forma de arte. O filme abriu uma porta de oportunidade sobre o que podia ser feito, e como. Revi este filme tão amado durante a quarentena. Fiquei maravilhada. É deslumbrante, livre, poderoso e profundamente reflexivo de minha aspiração de criar arte sobre os relacionamentos humanos e a sexualidade, além de ser reflexivo de meu eu aos 13 anos e meu eu atual.

Eu amava mulheres. Marcello Mastroianni, no papel de Guido, amava e era amado por mulheres de todos os tipos, ícones de beleza que ele localizou dos tempos cinematográficos anteriores. Marcello sentia seu desejo e agia livremente – dentro e fora do casamento. Eu queria me deslocar no mundo como um homem italiano elegante dos anos 1960. Com seu cabelo grisalho elegante, seu terno preto justo, sua gravatinha preta fina, camisa branca engomada e sobretudo, o belo Marcello virou meu avatar.

Quando Marcello visita um spa italiano dos anos 1930, ele recorda um momento seminal quando o desejo o levou a fugir da escola católica com outros garotos e correr para a praia. Uma mulher encorpada, com seios fartos e cabelos desarrumados, emerge de uma cabana de pedra. O jovem Marcello lhe oferece uma moeda e pede que ela “dance uma rumba”. Ela lentamente expõe seus ombros e seus seios, que parecem montanhas, depois sacode os quadris e dança. Os garotos pulam como doidos quando a mulher chama o jovem Marcello para dançar e o levanta no ar.

Como Marcello e os garotos (sem falar no próprio filme), eu estava louca de tesão e desejo, sensual e sexual. E então tudo desaba. Como se fossem os Keystone Cops, os padres chegam de repente, agarram Marcello, o humilham e o castigam. É um momento traumático. Seu desejo é puro, mas ele fica assombrado pela sensação de estar pecando aos olhos do mundo. E repassa essa memória em sua cabeça inúmeras vezes.

É claro que, por serem homens héteros, o desejo de Marcello, Guidi e Fellini é codificado como o normal, e isso encerra benefícios de todos os tipos, a tranquilidade de ficarem à vontade em seu corpo de gênero conforme e de atraírem mulheres. Mas meu eu de 13 anos, homossexual e trans, se fixou sobre a vergonha, o elemento que tínhamos em comum, e o belo retrato que Fellini cria do AMANTE – que ama o desejo e a imaginação. A sociedade leva você a sentir que o desejo sexual é algo errado, e muitos filmes fazem o mesmo. Não é o caso de Fellini. Ele faz você sentir que tesão é muito, muito certo. Eu não tinha exemplos de cinema homossexual e/ou trans quando era jovem, por isso mergulhei fundo em Fellini, assumindo outra forma para poder satisfazer meu desejo e me expressar até finalmente conseguir criar minha própria história, Meninos Não Choram.

Adam Shankman (Hairspray, The Wedding Planner)

Sua escolha: Meu Querido Companheiro

O ano era 1990. Eu estava justamente saindo do armário. Sair do armário para pessoas fora do meu círculo íntimo talvez fosse menos doloroso para mim do que para outros, na medida em que minha família e meus amigos íntimos me amavam e apoiavam, mas, como sobrevivente de trauma de orientação sexual na infância (é melhor deixar esse assunto para outro artigo) e da realidade apavorante da crise da Aids, que estava explodindo na época, eu me sentia como uma minúscula canoa sendo jogada de um lado a outro num mar revolto sob uma tempestade sombria e catastrófica. O porto onde encontrei abrigo naquela época foi o maravilhoso Meu Querido Companheiro, com roteiro de Craig Lucas e direção de Norman René.

O filme era franco, com direção bela, emocionalmente devastador e, em última análise, uma master class catártica de empatia, conexão e comunhão. A atuação sensível, o estilo observador em que foi rodado, a música e aquele roteiro belo, tudo isso virou uma âncora para mim num momento em que eu estava confuso, buscando um senso de segurança e sentido na vida. Havia pouco disso em Nova York, onde eu estava vivendo como jovem dançarino, tentando realizar meus sonhos pequenos e descobrir como eu me enquadrava no mundo em que a sociedade com S maiúsculo me dizia que eu era uma aberração. Meu Querido Companheiro foi como um milagre. O filme mostrava pessoas como eu lutando para encontrar a felicidade em um mundo perigoso e fora de controle. Nunca vou poder agradecer os cineastas e o estúdio o suficiente por terem feito esse filme.

Mondadori Portfolio via Getty Images
From left: Stephen Caffrey, Campbell Scott and Dermot Mulroney in "Longtime Companion."

Liz Feldman (Disque Amiga para Matar, One Big Happy)

Sua escolha: “When Night Is Falling”

O primeiro filme sobre lesbianismo pelo qual me apaixonei perdidamente foi When Night Is Falling. Escrito e dirigido por Patricia Rozema, é um filme encantador e excêntrico de 1995 sobre uma bela professora de uma faculdade cristã que se apaixona por uma artista circense igualmente bela, e abalou profundamente meu mundinho gay. Eu tinha 18 anos, acabara de sair do armário e assisti a When Night Is Falling três vezes no Angelika, meu cinema de arte favorito em Nova York. Eu nunca antes vira um filme sobre lésbicas, muito menos uma cena de amor entre lésbicas. E aquela cena de amor entre lésbicas foi belíssima, rodada contra o pano de fundo de um circo canadense. Se eu tivesse que tentar classificá-lo numa categoria, diria que “When Night Is Falling” é como um cruzamento entre o Cirque du Soleil e Azul É a Cor Mais Quente, se esse filme tivesse sido dirigido por uma lésbica. E é isso que torna When Night Is Falling tão convincente: foi feito desde a perspectiva lésbica. E ainda consigo visualizá-lo perfeitamente.


Charles Rogers (Search Party, Fort Tilden)

Sua escolha: “A família Addams 2”

Me sinto um sujeito de sorte por ter sido um garoto gay no início dos anos 1990. Houve uma janela de tempo entre meados dos anos 1980 e meados dos anos 1990 quando o cinema abraçou o “camp” e voltou às suas origens em Blake Edwards. Aperfeiçoamos o gênero, mas depois, por alguma razão, agimos como se nada disso tivesse acontecido e abrimos caminho para uma grande onda de humor adolescente desajeitado que está conosco até hoje. Mas durante aquele período breve e maravilhoso, tivemos A Família Addams 2.

Não apenas é uma das poucas instâncias em que uma sequência é melhor que o original, como o filme é uma aula perfeita de “camp”. Vários roteiristas já me disseram que se você tem um mundo maluco, precisa de um personagem normal para enxergar esse mundo através dos olhos dele. Mas em Família Addams 2, mesmo os personagens normais são tão malucos quanto os Addams. Há uma cena em que a personagem de Joan Cusack passa sua primeira noite na casa dos Addams (na mesma noite em que é entrevistada para o emprego de babá na família) e é trancada numa cela de prisão, que é um quarto. Eis que o primeiro instinto dela é se acomodar na cama suja usando uma camisolinha de seda e devorar bombons de chocolate, bem sexy. Por puro acaso ela vê uma notícia na pequena TV do quarto explicando que sua personagem é uma viúva negra profissional procuradíssima. E a reação dela é dar um sorriso malicioso e comer mais um bombom. Poderia haver uma comédia melhor para a garotada queer da época? Como artistas queer, temos a oportunidade de orientar nossa plateia em um mundo no qual ela talvez não se sentisse bem-vinda se fosse real, dando-lhe um gostinho de como nós nos sentíamos quando éramos crianças. “Família Addams 2” pode não ser um filme abertamente queer, mas possui vários elementos assim. Há algo de muito especial no filme..

Paramount Pictures via Getty Images
Joan Cusack e Christopher Lloyd em A Família Addams 2

Andrew Haigh (Weekend, 45 Years)

Sua escolha: Delicada atração

Eu tinha 23 anos em 1996 e ainda estava profundamente no armário. Eu era lanterninha no National Film Theatre, em Londres, e Delicada Atração, de Hettie Macdonald, faria sua estreia mundial no Festival de Cinema Gay e Lésbico. Eu tinha organizado as coisas para trabalhar naquele dia, para poder ver o filme sem precisar comprar um ingresso. Achei que, se comprasse ingresso, eu estaria me revelando como gay. O filme é maravilhoso –hilário, sincero, genuíno. Quando terminou, e os espectadores levantaram aplaudindo, eu continuei sentado, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Foi a primeira vez que percebi que ser abertamente gay era uma possibilidade real para mim, e que, mais que isso, poderia ser uma coisa bela. Saí do armário com todo o mundo pouco depois disso. Por isso, obrigado aos The Mamas and the Papas pela trilha sonora e a Hettie Macdonald pelo filme.

 

Justin Simien (Dear White People, Bad Hair)

Sua escolha: O Mágico Inesquecível

Não é um filme abertamente queer, mas o vestido azul de Diana Ross, a trama que trata da compra de um salto-agulha e Ted Ross no papel do Leão Covarde, numa versão “diva” do papel, despertaram alguma parte de meu coração queer que não conseguiu mais adormecer. A sequência na Cidade Esmeralda, por si só, pode ser a razão porque sou gay, ou pelo menos porque sei em meu coração que ser gay é lindo. Alguma coisa nessa sequência de quase dez minutos com pessoas negras chiquérrimas (e acho que robôs também) dançando ao som de Quincy Jones e ironizando umas às outras em rap na adoração perpétua das cores de farol me disse que eu não devia ter medo. OK, talvez tenha sido um pouco declarado demais. 

Michael Ochs Archives via Getty Images
Diana Ross in "The Wiz."

Andrew Fleming (Todas as Garotas do Presidente, Jovens Bruxas)

Sua escolha: That Certain Summer, Cabaret, Parceiros da Noite e Depois de Horas.

Me lembro de ter assistido That Certain Summer, o Filme da Semana da ABC, com minha mãe. O ritmo era lento e havia muito diálogo, mas Martin Sheen era tão bonito. Naquele mesmo ano minha mãe me levou para ver Cabaret (será que ela estava tentando me fazer ser gay?). Esse filme revolucionou meu mundo. estava cheio de pessoas bonitas e espirituosas transando, sem se preocupar com quem era gay ou hétero. Acho que consegui inconscientemente recriar aquele relacionamento a três quando estava na faculdade, e depois fiz um filme sobre isso, mas isso é outra história.

Olhando em retrospectiva, foi apenas depois de ver Parceiros da Noite que eu senti que me havia visto ou havia visto um mundo que eu queria habitar. Era sexy e nem um pouco assustador – em parte, tenho certeza, porque minha irmã estava namorando Richard Cox, que fazia o assassino. Fora de papo. Em todo caso, no ano depois de Parceiros da Noite chegar aos cinemas eu me mudei para Greenwich Village e comecei a frequentar lugares como The Anvil e The Mineshaft. Greenwich Village era um lugar incrível na época. É claro que tudo isso ia mudar pouco depois, mas foi lindo enquanto durou. Um momento gay na telona que nunca vou esquecer foi quando Martin Scorsese mostrou dois caras sexies, com roupas de couro, se beijando num bar em Depois de Horas, com homens héteros em volta, sem darem a mínima para eles. Fiquei tão apaixonado por aqueles gays. Esse filme foi um misto de insanidade divertida e humor negro, algo que eu nunca antes tinha visto. Acho que venho tentando fazer esse filme eu mesmo desde a primeira vez que o vi.

Sunset Boulevard via Getty Images
Al Pacino em "Cruising."

Dustin Lance Black (When We Rise, Virginia)

Sua escolha: Garotos de Programa - A caminho de Idaho

Saí de casa aos 17 anos para fazer faculdade no sul da Califórnia. Estava profundamente no armário e perdidamente apaixonado por River Phoenix. Agora que estava a centenas de quilômetros de distância, minha mãe não podia mais policiar os vídeos que eu alugava. O primeiro filme que peguei na locadora em em L.A. foi Garotos de Programa, de Gus Van Sant. Eu não sabia que havia algo de queer na história, só sabia que River Phoenix estava no filme. A fita VHS entrou no aparelho, e apareceram River e Keanu beliscando mamilos. Apareceram as revistas Torso, Honcho, Male Call e Joyboy. Fiquei de olhos arregalados. E então, uma confissão dolorosa feita ao lado de uma fogueira, algo que meu próprio coração   encarcerado entendeu bem demais. Um chamado à ação. Aquele foi o primeiro filme LGBTQ que vi na vida. Ele me libertou. Dezesseis anos mais tarde, Gus e eu juntaríamos forças para fazer nossos próprios filmes queer. Os sonhos queer podem virar realidade. Obrigado, River.


N
isha Ganatra (“The High Note,” “Late Night”)

Sua escolha: Henry & June e Heavenly Creatures

Éramos crianças e não devíamos estar assistindo a esses filmes, mas acho que alguém que acabou virando minha namorada os roubou das estantes de seus pais: Henry & June e Almas Gêmeas. Vimos os dois filmes mais ou menos na mesma época. Ambos mostravam relacionamentos intensos de namoradas. É claro que quando você se depara com Kate Winslet em Almas Gêmeas, você pensa “quem é essa pessoa deslumbrante?” Enquanto Henry & June tem Uma Thurman sensualíssima saindo daquela lente esfumaçada e beijando a outra mulher. Aqueles dois filmes me causaram um impacto enorme..  


Jeffrey Schwarz (“Tab Hunter Confidential,” “I Am Divine”)

Sua escolha: Os Rapazes da Banda

Adoro Os Rapazes da Banda, a versão cinematográfica da peça de teatro de Mart Crowley sobre um grupo de amigos gays reunidos para uma festa de aniversário regada a álcool, na época pré-rebelião de Stonewall. Vi o filme pela primeira vez na TV tarde da noite quando eu era adolescente e ainda estava no armário. Foi meio apavorante, já que eu não conhecia gays. Os caras no filme pareciam infelizes e pareciam ter prazer em criticar uns aos outros. Mas hoje eu entendo o humor,  os personagens definidos com tanto brilho, a amizade, a camaradagem e a cápsula do tempo retratada com tanto brilho pouco antes da explosão da liberação gay.  

CBS Photo Archive via Getty Images
Cena de Os Garotos da Banda.

Paris Barclay (In Treatment, Glee)

His pick: Perdidos na Noite

Eu tinha 13 anos quando entrei escondido no cinema Nortown Theater, na minha cidade natal de Chicago Heights, Illinois, para ver Perdidos na Noite. Se tivesse sabido que o filme ganhara a classificação X (só para adultos) devido ao “quadro de referência homossexual” e “possível influência sobre adolescentes”, provavelmente teria ido até antes.

Evidentemente eu era um garoto precoce e curioso, e, apesar de ter pouquíssima experiência com o tipo de situação que explodiu diante dos meus olhos naquele filme, “Perdidos na Noite” me fascinou. As questões de identidade, a mistura dolorosa de sexo com dinheiro e, sobretudo, o amor entre aqueles dois personagens assombrados, confusos e cheios de falhas simplesmente deixaram minha mente ainda em formação assombrada. Havia tanta coisa no filme que eu nunca havia visto, mas que queria conhecer, e quase tudo era sombrio, sujo e, para mim, altamente atraente.

Hoje, como contador de histórias, olho para trás e percebo: o diretor John Schlesinger, o roteirista Waldo Salt e aquele elenco incrível me conduziram em uma viagem espantosa para um outro mundo, com palavras, música e imagens inesquecíveis, que ficaram gravadas em mim. Esse filme me influenciou possivelmente mais do que deveria. E não tenho nenhum problema com isso.

Rose Troche (O Par Perfeito, The L Word)

Sua escolha: All That Jazz

Tive uma infância e adolescência muito protegida, sem ter ideia de que eu era gay. Um dia, cabulei aula para ir ao M&R Fine Arts Theatre, no centro de Chicago. Na escuridão do cinema, vi todo um novo mundo se abriando diante de mim. As bebidas, as pílulas, os cigarros e as mulheres, mas não foi isso que mais me impactou. Foram os corpos, héteros e gays, entremeados com a paixão de um objetivo único – a noção de performance, tão importante para muitos de nós. Havia o anjo da morte, o confessionário, onde a consciência da transgressão pessoal estava ao lado da consciência de que tudo seria feito de novo. Havia relacionamentos não tradicionais, parcerias fortes e famílias alternativas. Naquele dia, sentado no escuro, vi uma versão do amor que era compassiva e tolerante. Sob muitos aspectos, o que vi naquele dia foi uma prévia de minha vida futura.

Bettmann via Getty Images
Roy Scheider em "All That Jazz."

Craig Johnson (Alex Strangelove, The Skeleton Twins)

Sua escolha: O Despertar de um Homem

Eu tinha 16 anos em 1993, estava no armário e fui ver um filme chamado O Despertar de um Homem. Ambientado na década de 1950, estava longe de ser um filme “queer”. Há um momento pequeno em que o adolescente Leonardo DiCaprio está tocando piano com seu único amigo, o “maricas” da cidade, Arthur Gayle, que é vítima de bullying. Os dois garotos estão sentados lado a lado, tocando e cantando com gosto, quando numa pausa breve Arthur se inclina e dá um beijo na bochecha do personagem de DiCaprio. DiCaprio fica espantado, sem saber como reagir. Ele dá um sorriso de quem entendeu tudo e continua a cantar e tocar piano. Ele não reage mal, não dá um soco em Arthur. Ele não beija Arthur de volta, mas ele entende.

Para mim, com 16 anos, a mesma idade dos personagens, aquele momento foi eletrizante. Eu nunca antes vira dois garotos se beijando na tela, o que dirá um beijo que não tem consequências horríveis. Um raio não caiu na cabeça deles. A Terra não os engoliu. Me lembro de ter saído do cinema me sentindo otimista, animado. Aquela cena foi pura possibilidade, foi uma fenda que se abriu em meu mundo adolescente totalmente hétero. Para mim, ela revelou que os pensamentos que eu vinha tendo em segredo poderiam realmente virar ação na vida real, e isso não seria o fim do mundo. Foi uma revelação que mudou minha vida.

Sunset Boulevard via Getty Images
Ellen Barkin e Leonardo DiCaprio em O Despertar de Um Homem. 

Alice Wu (Você Nem Imagina, Livrando a Cara)

Sua escolha: Tootsie

Meu filme favorito de todos é Tootsie. Embora não seja intencionalmente “queer”, ele foi queer para mim por dois motivos. Primeiro: vendo Jessica Lange em cima de um cavalo, galopando em câmara lenta, eu, ainda pré-adolescente na época, tive um “momento gay” total! Que eu reprimi na mesma hora. Segundo: há uma cena em que Dustin Hoffman, vestido de mulher para assumir o disfarce de Tootsie, descobre que vai dormir na mesma cama que Jessica Lange no fim de semana. Duas garotas fazendo um “sleepover”. Seu pavor de ser desmascarado – como homem e como homem que está louco por ela – ecoa o pavor que eu mesma sentia quando era adolescente e me convidavam para passar a noite na casa de uma amiga. Aquele misto de pijamas, segredos e dormir em um lugar não habitual parece cheio de perigos para qualquer pessoa que esteja no armário em relação a qualquer coisa. Olhando para trás, entendo como uma sapatinha asiática pré-adolescente poderia encontrar algo em comum com um homem judeu neurótico, hétero e de meia-idade – ambos tentávamos abrir caminho no mundo disfarçados de “mulheres” inofensivas.

ASSOCIATED PRESS
Dustin Hoffman em "Tootsie."

Matt Tyrnauer (Scotty and the Secret History of Hollywood, Where’s My Roy Cohn?

Sua escolha: O Conformista

Eu estava na 9ª série e meu professor de cinema, Jim Hosney, passou O Conformista, de Bernardo Bertolucci, para nossa classe. Achei o filme atraente por uma série de razões, entre elas a ambiguidade sexual entre os personagens principais. Estilisticamente falando, o filme ainda é ímpar em termos de fotografia, ambientações e figurinos. As imagens da arquitetura da Roma fascista (repartições públicas no distrito de EUR, interiores no estilo Art Deco, mansões da Belle Époque), tudo isso me levou a querer conhecer a cidade, que virou o pano de fundo de meu primeiro filme, Valentino: O Último Imperador. Foi O Conformista que primeiro me mostrou o estilo italiano sofisticado que sempre admirei, iluminado por Vittorio Storaro. Foi um filme muito ousado para seu tempo, por ter temas gays e lésbicos. Hoje esses aspectos de “O Conformista” seriam considerados sutis demais, mas para a sensibilidade do final do século 20 e para a minha, na 9ª série, foi impactante.

Darren Stein (Um crime entre amigos, G.B.F.)

Sua escolha: The Rocky Horror Picture Show

“The Rocky Horror Picture Show” talvez seja o longa mais queer já lançado por um grande estúdio. Declaradamente camp e menos preocupado com lógica narrativa que em “deixar-se levar pelo clima” e “entregar-se ao prazer”, Rocky é um dos filmes mais ousados, bizarros e transgressivos já feitos. Ainda não houve uma performance tão dinâmica, kinky e satanicamente singular quanto a de Tim Curry no papel do “Doce Travesti” Frankenfurter. E a sedução de Brad ainda é uma das cenas de sexo mais eróticas já vistas no cinema, excitante apesar de ter sido rodada inteiramente em silhueta. O filme foi um desafio tão grande para o time de marketing da 20th Century Fox que ela o divulgou com slogans abstratos do tipo “mandíbulas diferentes das normais” e “ele é o herói. Isso mesmo – o herói”, ou “’Rocky’ não é apenas um filme – é um estado de espírito”. Realmente, “fantasias sensuais para serem recordadas com prazer para sempre”. 

Movie Poster Image Art via Getty Images
Tim Curry, em "The Rocky Horror Picture Show."

Wash Westmoreland (Para sempre Alice, Colette)

Sua escolha: Minha Adorável Lavanderia

Foi ideia de minha namorada, na realidade, irmos ver Minha Adorável Lavanderia, o maior sucesso do cinema de arte no Reino Unido em 1985. Eu estava no segundo ano da faculdade, ainda tentando ser hétero. Ela estava muito à minha frente. Eu nem tinha conseguido decodificar como Daniel Day-Lewis e Gordon Warnecke olhavam no cartaz, de um jeito tão promissor.

O filme é um documento do Reino Unido nos anos 1980, com roteiro brilhante de Hanif Kureishi e direção populista inteligente de Stephen Frears. Seu ponto de vista, a partir de dentro da comunidade asiático-britânica, foi revolucionário. O estilo era divertido, inovador e comovente, e a história tratava diretamente, sem rodeios, de racismo, sexismo, homofobia e preconceito de classes.

Quando me recordo de como foi a experiência de assistir a esse filme, me imagino ficando boquiaberto. A história de duas pessoas que se reencontram como rapazes – um ex-skinhead do National Front e seu amigo de infância, britânico de origem asiática ―, sentindo uma atração mútua e vivendo essa atração com alegria. Ela dizia TUDO! O filme foi tremendamente inovador em termos de representação, anos-luz à frente de qualquer coisa mostrada na televisão. Daniel Day-Lewis estava tão sedutor com seu sotaque de Lewisham e seu cabelo em dois tons, e Gorden Warnecke, tão belo, tão louco para se soltar e tão no armário, como eu!

Na cena mais famosa do filme, o dia da abertura da lavanderia, Shirley Anne Field e Saeed Jaffrey dançam uma valsa na sala da frente enquanto os dois amantes gays clandestinos transam no quarto dos fundos. Day-Lewis toma um gole de champanhe Moët e cospe o champanhe na boca de Warnecke. Arrasou. Foi a coisa mais erótica que eu já tinha visto na vida. Ainda é! Entrei no cinema um estudante nerd e no armário. Saí dele um jovem gay que acaba de se assumir, puro como roupa lavada que acaba de sair do varal e louco para entrar em ação.

 

Daniel Karslake (“For They Know Not What They Do,” “For the Bible Tells Me So”)

Sua escolha: Memórias de um Espião

Apesar de eu ser documentarista e de “Paragraph 175” e “The Celluloid Closet” terem sido extremamente formativos para mim, o primeiro filme queer que transformou minha vida e acabou me levando a sair do armário para mim mesmo e para o mundo foi um longa-metragem narrativo chamado “Memórias de Um Espião” (“Another Country”).

Como estudante na Duke University em meados dos anos 1980, eu estava profundamente dentro do armário, mas havia acabado de conhecer um garoto na universidade ao lado, e a primeira vez que saímos para almoçar juntos foi simplesmente elétrica. Como eu estava tão profundamente no armário, pensei “acho que ele é apenas muito cool, e eu quero ser seu amigo”, sendo que na realidade muito mais que isso estava acontecendo por baixo da superfície para nós dois. Dois dias mais tarde aluguei uma cópia em VHS de “Memórias de Um Espião” (obrigado, Blockbuster!) e assisti várias vezes no meu quarto na universidade. A trama acontece num colégio de elite só masculino no Reino Unido, e quando James Harcourt e Guy Bennett (representados por Cary Elwes e Rupert Everett) saem para almoçar pela primeira vez, a cena é ao mesmo tempo loucamente romântica e carregada de tensão sexual. Foi naquele momento que percebi que o que eu sentia por aquele garoto de Chapel Hill era muito mais que amizade. Naquela mesma semana ele virou meu primeiro namorado.

John Krokidas (Versos de um crime, Star)

Sua escolha: Dublê de corpo

Quando eu tinha 6 anos e meus amigos estavam obcecados por Os Muppets – O Filme, fiz minha mãe me levar para ver Como Eliminar Seu Chefe, comprei a trilha sonora em vinil e assisti ao filme mais de 50 vezes antes de completar 7 anos. Não consigo entender como ninguém percebeu que eu era gay, nem eu mesmo, aliás. Mas meu destino foi decidido aos 12 anos, quando programei o aparelho de vídeo em segredo para gravar Dublê de Corpo, de Brian de Palma, que ia passar no meio da noite, e então assisti à cena em que Frankie, da banda Frankie Goes to Hollywood, leva Jake, o herói do filme, para um clube de sexo e canta a música Relax enquanto é pisoteado por uma dominatrix cercada por homens dançando, suados, vestindo roupas de couro. Jake passa por uma porta de banheiro marcada “SLUTS” (vagabundas) e encontra Melanie Griffith de body de couro e tanga combinando, rebolando e perguntando se ele fica excitado vendo-a esfregar-se sobre um poste invisível. A canção então chega ao clímax, e Jake também. Naquele momento, percebia que a Terra de Oz realmente existia e que eu só precisava encontrar uma estrada de tijolinhos amarelos que me levasse até ela.

Sunset Boulevard via Getty Images
Melanie Griffith em Dublê de corpo.

Jason Moore (A escolha perfeita, Irmãs)

Sua escolha: Maurice

Eu tinha 17 anos quando Maurice, dirigido por James Ivory, me mostrou a beleza e possível longevidade de um relacionamento entre homens. Lançado em 1987, num momento em que a amplitude da crise da Aids estava começando a ser entendida, a grandeza tranquila do filme, suas imagens dignas de um pintor, seu romantismo intenso, me mostraram um caminho de aceitação e amor ao qual eu podia aspirar. O filme te chama a não apenas reconhecer quem você é, mas fazer escolhas para viver como seu eu autêntico, e esse imperativo não saiu de minha cabeça quando fui à faculdade. Como Maurice, me apaixonei por um homem e embarquei no meu primeiro relacionamento. Apenas alguns anos mais tarde é que saí do armário e passei a viver abertamente, mas a promessa de felicidade no final do filme de James Ivory me deu a confiança necessária para esperar que eu encontrasse a felicidade na minha própria vida.

Rhys Ernst (Adam, Transparent)

Sua escolha: Velvet Goldmine

Assisti a Velvet Goldmine com 16 anos, mais ou menos. Foi uma das primeiras vezes de que eu me recordo de ter sido impactado pelo formalismo de um filme: como foi rodado e editado, como empregava modos cinematográficos diferentes para contar uma história. Velvet Goldmine é um filme de época e foi rodado no estilo da era que retrata, com uma dose grande de zooms ao estilo dos anos 1970 para criar um colapso caleidoscópico do tempo e dos personagens, tanto históricos (de Oscar Wilde a David Bowie) quanto fictícios. O filme é declaradamente queer, jogando com a masculinidade, androginia, gênero e sexualidade, que são todos ingredientes maleáveis em um grande panelão delicioso de cores pastéis. Ao mesmo tempo, o filme consegue não ser especificamente sobre esses temas. Em uma era em que tramas inteiras podiam ser simples veículos para mostrar um beijo gay (bom para a representação homossexual, mas entediante para o cinema), Todd Haynes fez do aspecto queer um elemento central, mas também incidental de seu filme visionário. 

ASSOCIATED PRESS
Jonathan Rhys Meyers em Velvet Goldmine.

Michael Lannan (Looking)

Sua escolha: Superstar: The Karen Carpenter Story

Como a maioria das pessoas, vi Superstar: The Karen Carpenter Story pela primeira vez numa fita de vídeo de décima geração. Eu ouvira falar do filme havia anos, mas, na era pré-internet, ele era uma raridade que você podia ou não ter a sorte de conseguir encontrar. Quando finalmente o encontrei num canto escuro da biblioteca da faculdade em meados dos anos 1990, “Superstar” mexeu comigo de muitas maneiras. Essa personagem feminina trágica vista através de uma lente queer refletia minha própria solidão profunda, como rapaz de 18 anos no armário. O filme era supercamp, e ao mesmo tempo extremamente emotivo. Eu achei divertido, mas também senti tristeza genuína por Karen. “Superstar” me apresentou a um mundo de música maravilhosa e ao mesmo tempo desconstruiu o brilho californiano daquilo. Mais importante ainda, talvez, era punk e improvisado de um jeito que me deixou estarrecido. Os processos na justiça movidos contra o filme eram legendários e faziam Todd Haynes parecer um herói fora da lei queer e mágico, que brandia as armas da criatividade e do humor para combater as forças sombrias da América corporativa. “Superstar” me ensinou que não existem regras. O que faz uma grande história não é o dinheiro, mas a criatividade. Todo o mundo tem o poder de fazer esse tipo de mágica. Não é preciso permissão. 

Rebecca Sugar (Steven Universe)

Sua escolha: Revolutionary Girl Utena: The Movie

Quando eu estava no colégio, fiz uma coisa que ninguém deveria fazer: vi o filme Utena antes de assistir à série Utena. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo, mas a única coisa que estava clara era que a personagem principal parecia ser bissexual e genderqueer, como eu. E o filme parecia estar dizendo que se você se esforçar o suficiente, se importar o suficiente e lutar o suficiente, você pode voar para o futuro como se estivesse pegando carona numa cauda de cometa, passando por toda a m.... do colégio, nua num trenó com a pessoa que você ama. Eu não podia entender o filme, mas consegui entender que nenhum trabalho de mídia jamais me fizera esse promessa antes.


Stephen Cone (Princess Cyd, Henry Gamble’s Birthday Party)

Suas escolhas: Filadélfia, A Razão do Meu Afeto, Essa Estranha Atração e Delicada Atração

Cheguei à maioridade em Florence, Carolina do Sul, uma cidade de tamanho médio a pouca distância da Darlington Raceway. Meu pai era (e ainda é) pastor batista. Uma experiência formativa que eu tive e que cito com frequência foi quando meu pai me levou para assistir a Filadélfia, quando eu tinha apenas 13 anos. Nós dois amamos o filme. Não me lembro de ter ouvido nenhum sermão depois. Simplesmente fomos para casa. Essa é a resposta técnica à pergunta colocada aqui. Porém...

Alguns anos mais tarde, eu estava comandando uma sessão de estudos da Bíblia no colégio, e ao mesmo tempo, nos fins de semana, mergulhando mais fundo no cinema queer e independente, tanto com meus melhores amigos (A Razão do Meu Afeto) quanto sozinho, nos períodos raros em que meus pais não estavam em casa (Essa Estranha Atração). Mas o filme que abriu o cinema e a condição queer para mim de modo mais pleno foi Delicada Atração, de Hettie Macdonald, que vi em VHS na casa de minha amiga Diane.

Columbia TriStar via Getty Images
Tom Hanks (à esq.) e Denzel Washington em "Philadelphia."

Tommy O’Haver (Uma Garota Encantada,  O beijo hollywoodiano de Billy)

Sua escolha: Making Love

Crescendo no Indiana, não tive muita exposição ao cinema queer. Houve uma noite em que assisti De repente, no último verão com minha mãe e pensei que havia algo de muito estranho acontecendo. Mas foi apenas quando vi Making Love em uma sessão da madrugada no Cinemax que eu entendi que havia outras pessoas no mundo exatamente como eu. E o fato de o filme ser estrelado por Harry Hamlin, ,minha primeira paixão no cinema, depois de ver Fúria de Titãs, só ajudou.


Marja-Lewis Ryan (The L Word: Generation Q, 6 Balloons)

Sua escolha: Tomates Verdes Fritos

Oh, Tomates Verdes Fritos! Amo tudo que tenha a ver com Fannie Flagg, mas há uma cena no filme que me provoca as emoções mais gays do mundo: quando vejo as calças marrons pregueadas de Idgie Threadgoode (Mary Stuart Masterson, super sexy) esvoaçando ao vento sulino. As abelhas esvoaçam em volta dela, que está trazendo um vidro de mel da colmeia. Ela oferece o vidro a Ruth Jamison (Mary-Louise Parker), que reage com prazer e preocupação. Depois de resistir, Parker olha para Masterson por baixo da aba de seu chapéu ridículo. Falando com sotaque sulino dúbio, ela diz: “Você não passa de uma encantadora de abelhas, Idgie Threadgoode. É o que você é. Encantadora de abelhas.” E meu coração gay derreteu. É tão bom, caras! É romântico, é queer, é carregado. Sem falar que Kathy Bates se embrulha em papel celofane e Cicely Tyson mata um racista com uma frigideira. É impossível não gostar. Aliás, vou assistir de novo agora mesmo. Feliz mês do orgulho! Towanda!

Archive Photos via Getty Images
Jessica Tandy (à esq.) e Kathy Bates em Tomates Verdes Fritos.

Stephen Dunn (Little America, O Monstro no Armário)

Sua escolha: Buffy, a Caça-Vampiros

Os super-heróis sempre me parecem desinteressantes, até eu descobrir Buffy Summers. Até então eu não via nada na TV que refletisse minha condição queer. Mas havia algo nessa adolescente loira e espirituosa vestindo calça de couro vermelho e jaqueta Yves Saint Laurent para sair à caça de monstros que me calou fundo, como uma estaca cravada em meu coração. Foi apenas na segunda temporada que a série se revelou como metáfora queer, quando Buffy “saiu do armário” para sua mãe, assumindo que era Caçadora. “Você já tentou não ser caçadora?” pergunta sua mãe, mexendo com os sentimentos de milhares de homossexuais pelo mundo afora. Buffy era uma adolescente normal que guardava um segredo sombrio, e eu também. Mas à medida que a série foi prosseguindo (oferecendo-nos um dos romances queer mais devastadores da televisão, com Willow e Tara), Buffy, a Caça-Vampiros me fez perceber que meu próprio “segredo” também era, de certa forma, um superpoder que me permitia derrotar meus próprios demônios..

Yance Ford (Strong Island, Trial by Media)

Sua escolha: Vivendo e Aprendendo

Quando eu estava crescendo, todos meus personagens queer viviam nas tramas de diversas séries de TV. A série que mais se destaca, para mim, é Vivendo e Aprendendo. A personagem Jo era tão obviamente sapata. Fala sério, uma garota de 16 anos com uma moto? Eu morria de inveja. A pessoa que criou essa personagem sabia exatamente o que estava comunicando por baixo do pano, e eu entendia tudo. É espantoso como um pouquinho de subtexto queer, intencional ou não, pode fazer uma diferença tão grande. Também reparei que Tootie, Blair, Natalie e a Sra. Garrett fazem questão de dizer que amam Jo do jeito que ela é. A série não foi obra de algum gênio, mas, como muitos seriados de televisão dos anos 1980, tentou tratar de questões como agressão sexual, classe social e racismo. Aplaudo seus criadores por tentarem.

Eu me identificava com as características de Jo pelas quais ela era ridicularizada – “pouco feminina”, diziam as garotas, ou “molecona demais”, diziam os rapazes. Estudei na mesma escola católica para meninas, da 2ª à 12ª série. A escola era como minha segunda casa. Tanto em casa quanto na escola, eu era aquela garota queer, atlética, no armário que estava sempre muito cheia de coisas para fazer, sem tempo para namorar garotos. A segunda desculpa que eu dava para justificar por que que não saía com garotos eram meus pais. Meus pais queriam que eu me dedicasse só à escola, e eu pude me esconder por trás disso. Como as Quatro Mosqueteiras em “Vivendo e Aprendendo”, tive grandes amigas, e a gente se divertia, mas esconder quem eu era por tanto tempo foi difícil e me deixou muito solitária. Por sorte as freiras do colégio eram de uma ordem tolerante e nunca nos ensinaram idiotices homofóbicas.

Esconder quem você é carrega um custo real e grande. Ver uma personagem que me parecia estar no armário e que estava vivendo uma vida semelhante à minha me levou a questionar o que eu aceitaria para minha própria vida. Resolvi que eu não passaria a vida inteira me escondendo, custasse o que custasse.   

NBC via Getty Images
Da esquerda para a direita: Nancy McKeon, Kim Fields, Lisa Whelchel e Charlotte Rae em um episódio de Vivendo e Aprendendo.

Joshua Safran (Soundtrack

Sua escolha: Meu Querido Companheiro

O primeiro filme queer que me impactou ao nível molecular foi Meu Querido Companheiro. Eu tinha criado o hábito de ir ao cinema sozinho depois das aulas (e às vezes no horário das aulas). Quando comprei o ingresso, eu só sabia que Meu Querido Companheiro tratava de homens gays. O que eu ainda não sabia que eu mesmo era um homem gay. Eu já tinha sido sexualmente ativo com homens, mas sempre dizia a mim mesmo que era “mais fácil experimentar” do que formar um relacionamento romântico com uma garota, algo que eu achava que faria mais tarde. No meu íntimo, eu esperava que “Meu Querido Companheiro” tivesse cenas de sexo que satisfizessem meus interesses ocultos, mas, sentado no Carnegie Hall Cinema, o que me causou maior impressão não foram as breves cenas de sexo no filme nem as cenas explícitas da devastação provocada pela Aids numa comunidade queer (rica e principalmente branca) – foi Stephen Caffrey de camiseta cortada cantando e dançando ao som da canção-título de “Dreamgirls” no novo apartamento para o qual acaba de se mudar com seu companheiro (Campbell Scott). 

A ideia de que ser queer não precisava significar fazer sexo furtivo e vergonhoso pelo resto da vida, mas ter um companheiro, viver com ele, ter uma vida doméstica a dois, curtir a liberdade de dançar sozinho – essas coisas ainda não haviam passado por minha cabeça adolescente. Saí do cinema lamentando tudo o que havíamos perdido e continuávamos a perder, mas também com a ideia crescente de que eu poderia viver uma vida plena, vivida publicamente com a maioria das mesmas opções às quais meus pais tiveram direito. Saí do armário para mim mesmo dois anos depois e para todas as outras pessoas no ano seguinte. 


Katja Blichfeld (High Maintenance)

Sua escolha: High Art – Retratos Sublimes

Quando eu tinha 20 e poucos anos, ainda com um pé no armário, uma mulher com quem eu estava “saindo para baladas” me mostrou High Art. Foi um meio de sedução, e funcionou. Nosso relacionamento subsequente não durou muito (como a personagem de Radha Mitchell no filme, eu tinha um namorado em casa), mas o filme me deixou uma impressão indelével. Fiquei totalmente seduzida pela versão estilosa da vida em Nova York nos anos 1990 apresentada pela diretora Lisa Cholodenko e não demorei a decidir que era ali que eu também queria estar. Eu ainda levaria anos para sair do armário completamente, mas High Art continuou na minha cabeça, tanto que assisti ao filme várias vezes. Eu nunca antes havia visto um retrato tão realista e nuançado de sexo e romantismo queer.


Michael Mayer (The Seagull, Um lugar no fim do mundo)

Suas escolhas: o catálogo de Judy Garland

Me apaixonei por Judy Garland quando eu tinha 3 anos de idade. Desde O Mágico de Oz até Agora Seremos Felizes e Nasce Uma Estrela, a reação química que ela provocava em minha autoconsciência ainda informe era eletrizante. Quando fiquei mais velho e comecei a me reconhecer como gay, a ligação que eu sentia com tudo que tinha a ver com Judy cresceu exponencialmente. Chegado à idade adulta, quando a  PBS transmitia The Judy Garland Show regularmente, tomei consciência de que, em certo sentido muito real, Judy havia incorporado uma forte sensibilidade gay masculina em suas atuações. O círculo se completou, e até hoje eu não poderia dizer quem veio primeiro: Dorothy ou o Amigo de Dorothy.

Silver Screen Collection via Getty Images
Da esquerda para a direita: Bert Lahr, Jack Haley, Ray Bolger, Judy Garland e Margaret Hamilton em O Mágico de Oz.

Ryan White (Visible: Out on Television, Ask Dr. Ruth)

Suas escolhas: The Real World e The Times of Harvey Milk

Sou produto dos anos 1980 e 1990, faço parte da geração MTV. Era isso que assistíamos todo dia ao voltar do colégio. Minha primeira recordação de representação LGBTQ autêntica foi com The Real World, que tinha uma personagem LGBTQ em cada temporada. Para um garoto gay na Geórgia, isso era incrível. Eu não me importava se a pessoa era superdiferente de mim, mas devorava cada temporada para ver o que acontecia na vida dela ou dele. E a série também fez nascer minha paixão por não ficção. Alguns anos mais tarde, na faculdade, assisti à obra-prima The Times of Harvey Milk e isso mobilizou alguma coisa dentro de mim, me levando a sair do armário e também a virar documentarista, porque percebi que eu queria contar histórias como essa.

Sarah Gertrude Shapiro (UnREAL)

Sua escolha: The Incredibly True Adventure of Two Girls in Love

The Incredibly True Adventure of Two Girls in Love mudou minha vida completamente. Esse filme, somado a Ligadas pelo Desejo, ao ensaio fotográfico de Cindy Crawford e k.d. lang na Vanity Fair em 1993 e ao milagre que foi a própria  k.d. lang entrar no pequeno café hippie onde eu trabalhava, tudo isso foi como raio que perpassou meu corpo e me deixou pisando em terra arrasada, inegavelmente gay. Aqueles belos artefatos e momentos não apenas instigaram meu lado queer, mas também definiram uma dinâmica específica butch/femme que moldaria minha sexualidade e informaria boa parte de minha vida adulta.

Bruce LaBruce (L.A. Zombie, Otto; or, Up With Dead People)

Sua escolha: That Cold Day in the Park

Um filme chamado That Cold Day in the Park passou na televisão canadense da madrugada quando eu era adolescente. Foi o primeiro filme de Robert Altman que vi. Como fui criado numa fazenda, o cinema internacional virou minha janela para o mundo. O filme que devorei com os olhos naquela noite sacudiu meu mundo; é a história de uma “solteirona” (Sandy Dennis) sobre quem o slogan do cartaz pergunta “até onde é capaz de ir uma virgem de 32 anos para possuir um rapaz de 19?” Dennis acolhe um garoto que encontra tremendo num banco do parque e o leva para casa, o faz tomar um banho quente de banheira, seca suas roupas e então o tranca no quarto de hóspedes. O que acontece a seguir é perturbador, com vislumbres de nudez e, para um garoto inocente do interior, um compêndio de fetiches e perversões que abriu as portas de minha imaginação sexual de repente, possivelmente de modo precoce. No final do filme, a solteirona contrata uma prostituta, a tranca no quarto de hóspedes com o garoto e fica ouvindo pela porta. E depois daquilo, bem, basta dizer que a história não termina bem. Me lembro de ter pensado “pornografia deve ser isso”.

O filme me influenciou tão profundamente que para meu primeiro longa como diretor, decidi criar um remake de That Cold Day in the Park e aplicar a história a um cabeleireiro punk, representado por mim, que se apaixona por um skinhead, papel representado pelo meu namorado na época, Klaus von Brucker. O filme recebeu o título de No Skin Off My Ass. Chamei  G.B. Jones para fazer a irmã mais velha do skinhead, preservando o relacionamento quase incestuoso que o rapaz tem com sua irmã mais velha no filme de Altman. Quando fiz minha primeira romaria a L.A. para exibir o filme no Outfest, alguém levou Richard Miles à sessão – o autor gay do romance sobre o qual é baseado o filme de Altman. O livro dele tem tom muito gay, muito mais camp e mais em sintonia com a psicologia dos garotos de programa. (Altman basicamente reduzira o conteúdo gay do romance a um subtexto vago; minha versão do livro devolveu o aspecto queer à história). Fiquei supernervoso, imaginando que Miles odiaria esse filminho pornô sujo feito em Super 8 sem direitos autorais, mas ele me disse depois da sessão que amou o filme e que preferiu minha versão à de Altman! Até hoje essa é uma das melhores críticas que já recebi. Miles me presenteou com uma cópia em capa dura de seu livro e a autografou, escrevendo “Você acertou em cheio!”.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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